Marcos Müller
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Sua ficha de saúde agora na nuvem

A medicina do futuro já começa a definir o presente de alguns países e impor novas estratégias

Celso Ming, Raquel Brandão e Erica Carnevalli, especial para 'O Estado', O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2018 | 17h00

Em princípio para o bem, o grande irmão está interessado em sua ficha de saúde, que é mais do que uma ficha médica.

Deve conter pormenores sobre seus hábitos, prática de exercícios físicos, alimentação, frequência de episódios de enxaqueca, tipo sanguíneo ou quando apareceu sua primeira alergia e qual a propensão a resfriados. Cada detalhe é um dado e ajuda a compor um repositório de informações disposto no meio virtual.

Assim pretende ser a medicina do futuro, que já começa a definir o presente em alguns países entre os quais se destaca a Estônia, que nas últimas décadas se dedicou a digitalizar toda a vida dos seus habitantes e a formar completos prontuários eletrônicos à disposição dos profissionais da saúde. O objetivo é garantir o máximo de informações para elaborar políticas de saúde e assegurar maior eficácia a procedimentos médicos.

Mas, atenção, sabe-se lá se esse banco de dados, armazenado em nuvem, não vai ser usado, também, para fazer o jogo puramente argentário de certos administradores de planos de saúde, laboratórios farmacêuticos ou, simplesmente, para ser usado por adversários de qualquer pessoa, na política, na vida profissional ou mesmo no futuro de um casamento. Essas graves questões éticas são tema complexo a ser desenvolvido em outra Coluna. Nesta, vão informações sobre o que acontece na área.

Um país onde faltam leitos hospitalares, medicamentos e mesmo pessoal qualificado no sistema público de saúde pode se organizar mais rapidamente se conhecer melhor a saúde da população. Também pode tirar proveito disso o sistema privado, tão asfixiado com aumentos de custos e quebras de receitas. 

Ao executarem tarefas cada vez mais complexas, as novas tecnologias aplicadas à saúde tendem a facilitar a rotina dos profissionais do setor. Dispositivos móveis e inteligentes, como relógios conectados à internet ou aplicativos de celular, facilitam tarefas do paciente, como agendar exames ou notificar o médico em caso de alterações do quadro clínico.

Para David Morrel, sócio da consultoria PwC, na medida em que passam a considerar hábitos do paciente, como prática de exercícios físicos ou dieta alimentar e, mesmo, características genéticas, tais facilidades tendem a tornar os serviços de saúde mais personalizados.

Estudo do Banco Mundial mostra que a associação da inteligência artificial, da análise de dados e do prontuário eletrônico poderia ajudar a evitar a repetição de exames e tratamentos desnecessários. O que proporcionaria economia de R$ 22 bilhões por ano no Brasil.

A utilização desses novos instrumentos já é parte da política oficial no Brasil. Em 2017, 30 milhões de brasileiros tinham seus históricos de saúde registrados em prontuários eletrônicos. Mas cerca de 65% das Unidades Básicas de Saúde não contribuíam para formar esse banco de dados. Para a implantação do sistema em todos os municípios, o Ministério da Saúde investiu R$ 1,5 bilhão por ano em 2017 e 2018. 

Outros projetos começam a surgir no meio acadêmico. O Laboratório de Big Data e Análise Preditiva da Faculdade de Medicina da USP, por exemplo, já utiliza o método de machine learning, ou seja, equipamentos que, por meio da análise de dados e cruzamento de algoritmos, podem ajudar na elaboração de diagnósticos mais precisos. 

Para Alexandre Chiavegatto Filho, pesquisador e coordenador do laboratório, não é tecnologia para isso que falta no Brasil. Falta organização na compilação dos dados, o que deixa o País atrasado em comparação a outros países. 

Embora revolucione a forma de identificar, tratar e até de evitar doenças, a adoção de novas tecnologias também impõe desafios. Um deles é o aumento de custos que, num primeiro momento, pode ser visto como investimento. A longo prazo, no entanto, os resultados pretendidos podem diluir esses custos, na medida em que garantirão maior racionalidade do sistema. Comportamento semelhante aconteceu com o Projeto Genoma Humano, que permitiu mapear todos os genes do DNA humano. Em 2000, o custo de um sequenciamento alcançava US$ 100 mil. Em 2019, o mesmo procedimento poderá custar US$ 500, apontam levantamentos do Instituto de Pesquisa Nacional de Genoma Humano dos Estados Unidos. 

No entanto, para implantar a inovação são necessários planejamento, governança e métodos de financiamento. Mas gestoras de saúde e hospitais ainda têm dificuldade de mapear problemas e até mesmo de priorizar demandas.

Apesar dos obstáculos e das objeções, é assim que caminha a humanidade. O Brasil não pode ficar para trás.

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