Subsecretário americano faz ameaça velada ao Brasil

O subsecretário de Estado americano, Marc Grossman, deixou nesta quinta-feira uma ameaça velada à diplomacia brasileira sobre a reação formal do Brasil à medida de salvaguardas aplicada por Washington às importações de aço. Logo depois de enumerar a corrente de comérciobilateral crescente, o estoque de US$ 35 bilhões em investimentos diretos americanos no País e o impacto menor das salvaguardas nos embarques brasileiros, Grossman declarou que cabe ao Brasil definir qual caminho seguirá. Mas lembrou que há ?dezenas de maneiras? de estabelecer a cooperação entre os dois países.?Não viemos ao Brasil com demandas ou com requisitos. Os brasileiros terão de resolver o que vão fazer. Terão de dar as respostas que queiram às decisões americanas?, afirmou Grossman, no Itamaraty. ?Mas a totalidade do comércio dos Estados Unidos com o Brasil alcança US$ 27 bilhões ao ano e está crescendo. Trata-se de uma oportunidade para oBrasil e os Estados Unidos?, completou em seguida.Apesar de atuar na órbita política do Departamento de Estado e de ter vindo ao Brasil com a missão de prosseguir as conversas sobre a cooperação em áreas distantes da comercial, Grossman foi a primeira autoridade de seu país a se confrontar com a condenação do Brasil à proteção aos siderúrgicos americanos e com a possível guerra comercialque essa iniciativa poderá gerar. Conforme narrou, o assunto consumiu boa parte duas conversas, durante um jantar nesta quarta-feira, com empresários e com parlamentares brasileiros.Na próxima semana, será a vez do representante americano para o Comércio, Robert Zoellick, o ?porta-voz? das medidas adotadas na última terça-feira e o principal negociador dos Estados Unidos na área de comércio, se defrontar com a reação do Brasil. A expectativa é que, atéa segunda-feira, o governo terá decidido qual o caminho que seguirá.A visita de Grossman coincidiu com um momento em que o governo brasileiro ainda avaliava a possibilidade de apresentar uma queixa formal à Organização Mundial do Comércio (OMC) contra os Estados Unidos ? a exemplo da reação da União Européia. Também estava em análise aexploração de canais de negociação para conseguir abrandar o impacto das medidas nas suas vendas de aço ao mercado americano ? como as negociações da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) ou mesmo na rodada multilateral da OMC.Diplomata de carreira há 26 anos, Grossman defendeu que os Estados Unidos continuam ?comprometidos com o livre comércio? e que as salvaguardas estão resguardadas pelas regras da OMC. Repetiu ainda o mesmo argumento utilizado pelo governo americano para adotar a medida ? a necessidade de ajustar a ?ameaça? da importação de aço à manutenção de empregos. Por fim, enfatizou a versão oficial do governo americano de que a preservação do fluxo de comércio com o Brasil e com a Argentina foi uma premissa seguida na definição das salvaguardas.?Fizemos todo o possível para manter o fluxo de comércio. A cota tarifária destinada ao Brasil representa embarques 25% maiores que os do ano passado?, afirmou, referindo-se ao volume de semi-acabados que a indústria brasileira poderá encaminhar ao mercado americano em 2001.Em contato com setores políticos da diplomacia e com a área de Segurança Institucional da Presidência da República, Grossman recusou a avaliação de que as relações entre o Brasil e os Estados Unidos estão congeladas pelos atritos na área comercial e tendem a se depreciar.Conforme defendeu, as relações bilaterais são ?tão profundas quanto amplas?. O embaixador, entretanto, deixou escapar uma gafe durante sua entrevista à imprensa. ?Eu vim para consultas políticas com meus parceiros colombianos?, afirmou ele, referindo-se aos diplomatas brasileiros.

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