Suco de caju, a menina dos olhos da Pepsi

Empresa lançará bebida à base da fruta na Índia e estuda levar produto ao mundo todo; aposta é que caju será a próxima água de coco

STEPHANIE STROM, THE NEW YORK TIMES

14 de agosto de 2014 | 02h05

RATNAGIRI / ÍNDIA - Quando a colheita de caju tem início nesta região, os pomares nas colinas exuberantes e acidentadas ficam cobertos por um tapete laranja, vermelho e amarelo brilhante, que se forma depois que os fruticultores arrancam a noz da fruta e jogam seu pedúnculo na terra.

E ali a fruta rapidamente apodrece, exceto algumas usadas para fermentar uma bebida local chamada feni, popular no estado indiano de Goa. Nesta estação, porém, o tapete estará menos denso porque a Pepsi aposta que o suco doce e ácido de caju pode ser a próxima água de coco ou suco de açaí.

"A água de coco, os sucos de limão ou romã são populares, mas sua disponibilidade está se tornando um problema", disse V.D. Sarma, vice-presidente da PepsiCo Índia. "Estamos sempre em busca de novas fontes de sucos produzidas localmente para reduzir o nosso custo e o preço para os consumidores."

Jovens da chamada geração Y e os novos consumidores da classe média emergente têm um apetite voraz por novidades e vêm levando as empresas de alimentação a fazer experimentos em grande escala com sabores apreciados até recentemente apenas em mercados locais.

A partir do próximo ano, o suco do caju entrará na composição de uma bebida à base de frutas vendida na Índia com o rótulo Tropicana, substituindo sucos mais caros como o de maçã, abacaxi e banana. A companhia espera adicioná-lo a bebidas no mundo todo.

"Podemos contar uma história em torno dele", disse Anshul Khanna, gerente da divisão de sucos na Pepsico Índia. "O suco de caju é exótico e atrativo e o consideramos um produto de altíssima qualidade."

Produção. Os portugueses introduziram os cajueiros no século 16 na região em torno de Goa para conter a erosão do solo. Hoje a Índia é uma das maiores produtoras de caju do mundo, produzindo 660 mil toneladas de castanha por ano, 75% delas cultivadas em áreas de até dois hectares.

Os horticultores na região de Ratnagiri estão um pouco desconcertados com o interesse da Pepsi na fruta de caju. Embora a castanha seja apreciada no mundo todo, o pedúnculo é quase sempre jogado fora, quando começa a fermentar 24 horas após a colheita. E o próprio suco, embora nutritivo, tem bastante tanino que faz um sabor acre.

"Achei um pouco estranho o fato de eles desejarem comprar o pedúnculo do caju, mas não gosto de questionar uma nova fonte de recursos", disse Sanjay Pandit, que, juntamente com seu pai cultiva 300 cajueiros no vilarejo de Kondye.

Os brasileiros são os maiores consumidores dos pedúnculos vermelhos e amarelos. Alguns foram mostrados na propaganda da FIFA sobre a Copa do Mundo. Mas o Brasil também é uma importante fonte global de castanha de caju e processa apenas 12% dos pedúnculos das frutas que produz por causa dos problemas apresentados pelo tempo restrito em que podem ficar armazenados, segundo pesquisa feita pela African Cashew Alliança, federação dos produtores da fruta.

A Pepsi não teve sucesso no Brasil há alguns anos quando Mehmood Khan, diretor global da área de pesquisa e desenvolvimento da companhia, estava trabalhando no País para incrementar as operações com água de coco. Um fornecedor local o levou a uma plantação de caju onde ele viu os coloridos pedúnculos e se perguntou como poderiam ser usados.

A Pepsi aprendeu que o grande obstáculo ao seu uso comercial é a rápida fermentação da fruta. "É um risco e não podemos fazer uma bebida com álcool", disse Sarma.

Para melhorar a plantação, coleta e acelerar o processamento dos pedúnculos do caju, a Pepsi procurou a Clinton Foundation, que manifestou interesse em inserir os pequenos agricultores nas cadeias de suprimentos globais. "Trabalhamos com eles para melhorar o cultivo e criar um mercado para o pedúnculo do caju", disse Govind Ramachandran, gerente geral da Acceso Cashew Enterprise, empresa criada pela Clinton Foundation em dezembro para implementar o programa na Índia. / Tradução de Terezinha Martino

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