Suíços votam salário mínimo de R$ 10 mil

Em votação neste final de semana, cidadãos do país decidem se será criado o mais alto salário mínimo do mundo; tendência é vitória do 'não'

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2014 | 02h05

Os suíços vão às urnas neste fim de semana para decidir se o salário mínimo mais alto do mundo será criado ou não. O projeto é o de estabelecer uma renda de no mínimo US$ 25 por hora trabalhada, o que garantiria em um mês cerca de US$ 4,4 mil como patamar mínimo de um salário, cerca de R$ 10 mil. Mas as pesquisas de opinião indicam que a campanha do "não" pode acabar vencendo. Governo e empresários são contrários à iniciativa.

O valor que seria estipulado não é o mais elevado do mundo em termos absolutos. Mas é o que representa o maior poder de compra e o maior que estaria garantido na constituição. O piso valeria para todos: desde funcionários de fábricas até estudantes que trabalham meio período em bares.

A proposta é patrocinada pelo maior sindicato do país e o grupo insiste que muitos - principalmente mulheres - têm sérios problemas para chegar ao final do mês diante do custo elevado de vida na Suíça.

Se aprovado, o salário mínimo seria bem superior ao que existe na Austrália, que exige um pagamento mínimo de US$ 16,88 por hora trabalhada. O valor na Suíça seria duas vezes e meia o piso que o governo de Barack Obama tenta criar nos EUA e mais de duas vezes superior ao que Angela Merkel foi obrigada a criar na Alemanha.

Para os empresários, no entanto, a proposta pode matar a competitividade do setor produtivo do país alpino. Com 3,2% de taxa de desemprego, os donos de pequenas empresas alertam que poderiam optar por ter menos funcionários se o projeto for adiante.

"Será um gol contra, tanto para trabalhadores quanto para empresas", disse Cristina Gaggini, diretora da Associação de Pequenas Empresa da Suíça. "Estudos mostram que criar um salário mínimo pode gerar mais desemprego que ajudar os trabalhadores."

Mas a campanha do "não" ganhou também o apoio das grandes multinacionais, como a Nestlé. "A proposta não favorece a criação de empregos na Suíça", declarou Peter Brabeck-Letmathe, presidente da Nestlé.

Para tentar frear a vitória do "sim", as redes de supermercados que são acusadas de pagar valores insuficientes começaram a anunciar que vão incrementar os salários. O governo também insiste que o baixo índice de desemprego e o elevado padrão de vida do país são provas de que o sistema funciona sem um salário mínimo oficial.

Benefício. Mas os sindicatos afirmam que a realidade dos trabalhadores é diferente. Se implementado, o salário beneficiaria cerca de 300 mil pessoas, 9% da mão de obra do país. Os trabalhadores ainda alertam para um outro fenômeno: a decisão de jovens de não trabalhar, já que o seguro-desemprego dado pelo governo seria superior ao que os salários em bares ou supermercados ofereceriam.

Mas é o custo de vida elevado que mais preocupa os sindicatos. Hoje, um apartamento de um quarto no centro de Genebra não sai por menos de US$ 1,8 mil por mês em aluguel. O seguro de saúde é obrigatório a todos os cidadãos, que precisam pagar cerca de US$ 400 por mês pelo serviço. O transporte público não sai por menos de US$ 80 por mês e os suíços são obrigados a pagar impostos até mesmo para usar televisão ou rádio em casa.

As últimas pesquisas apontam que mais de 60% dos suíços votariam contra a criação do salário mínimo. Mas nem por isso o debate sobre a justiça social estaria resolvido. Em cerca de um ano, é a terceira vez que a população é chamada às urnas para se pronunciar sobre como a renda do país deve ser distribuída. Um dos motivos foi a polêmica criada por banqueiros que, depois de terem seus bancos socorridos pelo Estado em 2009 e 2010, mantiveram seus bônus milionários.

Na primeira delas, a população aprovou uma lei que dá aos pequenos acionistas a capacidade de decidir sobre os salários que os executivos de empresas vão receber. Outro projeto previa limitar os salários de diretores de empresas, mas esse foi rejeitado.

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