Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Summit: Otimista, setor imobiliário tenta se reinventar

Basílio Jafet, presidente do Secovi-SP, diz que expectativa de ampliação de vendas de unidades residenciais novas é entre 5% e 10%

Redação, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2019 | 20h24

Otimistas, sim, mas com cautela. A frase poderia definir a sensação dos empresários do setor imobiliário hoje. Em um momento em que os economistas têm revisado para baixo as previsões de crescimento do País para este ano e que o mercado financeiro ainda observa os desdobramentos da tentativa de aprovação da reforma da Previdência — considerada crucial para a volta da confiança e do investimento — o setor de imóveis espera um 2019 melhor do que o ano passado, enquanto tenta se reinventar.

Ainda que o desemprego elevado e as incertezas de Brasília deixem em dúvida muitos consumidores que gostariam de comprar um imóvel, o setor avalia que o ano deve ser positivo. Segundo especialistas, reunidos ontem no Summit Imobiliário Brasil 2019, a expectativa é de aumento no volume de crédito imobiliário e de boas oportunidades de negócios, sobretudo a partir do segundo semestre.

O presidente do Secovi-SP (entidade que reúne as empresas do setor), Basílio Jafet, diz que a expectativa é de crescimento entre 5% e 10% nas vendas de unidades residenciais novas este ano, em relação a 2018. Para isso, no entanto, ele reafirma a necessidade de o governo do presidente Jair Bolsonaro aprovar a reforma da Previdência. "E a reforma não pode ser medíocre, não deve servir apenas para dizer que fizemos a lição de casa."

Principal agente do financiamento imobiliário, a Caixa trabalha com um panorama de aumento na concessão de crédito para a casa própria. O vice-presidente do banco estatal, Jair Luis Mahl, diz que o desafio da empresa atualmente é utilizar de forma mais inteligente os recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS).

"Nós estamos otimistas. Os dados de concessão de crédito no primeiro bimestre foram bastante fortes, além das nossas expectativas", avalia Gustavo Alejo Viviani diretor de Produtos de Crédito e de Recuperação do banco Santander. 

Oportunidades

Ele lembra que as expectativas a respeito da aprovação da reforma da Previdência são altas, mas que a demanda reprimida pelo consumidor nos anos de recessão e o enorme déficit habitacional do País trazem oportunidades de negócios para o mercado imobiliário. 

Uma reportagem publicada pelo Estado em janeiro apontava que esse déficit bateu recorde após os anos de recessão e que, na próxima década, será preciso construir 1,2 milhão de habitações por ano para suprir a demanda do brasileiro por moradia.

Um levantamento da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip) revelou que os financiamentos imobiliários com recursos do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE) bateram em R$ 59,96 bilhões nos últimos 12 meses até fevereiro — 34,8% acima que os 12 meses anteriores. A recuperação do volume financiado em 12 meses interrompeu um período de três anos de quedas consecutivas.

"A reforma da Previdência é um dos grandes desafios do governo, para destravar investimentos, mas é só uma parte do problema. O setor também precisa aproveitar para se reformar, aumentar a inovação em seus projetos e cobrar uma maior segurança jurídica, por parte do governo, para atrair investidores", diz Alejo.

Já o secretário estadual de Habitação de São Paulo, Flavio Amary, considera que o momento é de poder público e empresários se unirem para ajudar o setor de construção civil. “O poder público sempre pode ajudar, porque o déficit habitacional está concentrado em grandes cidades, e essa questão deve ser contemplada por políticas públicas. Mas é preciso trabalhar em parceria com o setor privado, mapear todas as vezes em que o poder público burocratizou processos e acabou aumentando o déficit habitacional. A gente não pode demorar tanto para aprovar um projeto.”  

O economista-chefe da Necton, André Perfeito, pondera que o mercado financeiro tem estado menos otimista com o futuro do País nos últimos meses. "O investimento ainda está amarrado, o empresário está entusiasmado com o governo, mas ele também precisa fazer contas. Não adianta nada a taxa de juros estar baixa, com os juros básicos em 6,5% ao ano, se a demanda e a ociosidade continuam fracas."

Ele avalia que o consumo das famílias e, por tabela, o horizonte do mercado imobiliário, pode melhorar aos poucos. "Acredito que poderia melhorar lá para o segundo semestre. É uma reação em cadeia: se o governo conseguir reformar a Previdência, até o próprio governo vai poder gastar mais."

Reconstrução

Para além das iniciativas do governo, o setor imobiliário pode aprender com outros segmentos e usar mais a tecnologia para rever tanto a forma de projetar e construir empreendimentos quanto modernizar os processos de vendas e locações. 

André Perfeito, da Necton, é um dos que defendem que incorporadoras e bancos façam no setor imobiliário uma revolução semelhante ao que ocorreu em empresas que oferecem alternativas de transporte, como a Uber.

O presidente da incorporadora Vitacon, Alexandre Frankel, diz que pretende manter a inovação como uma das marcas da empresa. "O nosso setor se acostumou a projetar e construir, há décadas, com a mesma fórmula, mas o consumidor mudou. É preciso imaginar o edifício como um smartphone, em que colocamos aplicativos de serviços (como novos espaços para uso coletivo) que sejam úteis para esse novo consumidor."

Wilson Amaral, da Pacaembú Construtora, concorda que o setor da construção, como um todo, está atrasado nas inovações, mas muitas empresas de pequeno porte estão trazendo experiências de outros setores para o mercado. "Haverá uma disrupção na maneira como fazemos imóveis no País, sem dúvida."

Um entrave que deveria estar na mira das empresas do setor é o financiamento imobiliário, diz Paulo Humberg, da Key Cash. “Por que pagar tanto para registrar um imóvel em um cartório? Se os bancos demoram para liberar crédito, as fintechs podem fazer isso de forma mais rápida e barata.”

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