Superávit acima da meta não alivia preocupação fiscal

O superávit primário consolidado do setor público em 2006 foi de 4,32%, acima da meta de 4,25% do PIB e das expectativas médias do mercado, mas não aliviou a preocupação dos analistas com a sustentabilidade fiscal do País no longo prazo. Eles avaliam que a performance fiscal continua sendo um freio para um maior crescimento econômico e a obtenção pelo Brasil da classificação de "grau de investimento" conferido pelas agências de risco.Nuno Camara, economista sênior do Dresdner Kleinwort, disse que o aspecto positivo do resultado fiscal é que a relação entre a dívida e o PIB caiu. "Com a perspectiva de maior crescimento econômico e redução dos juros, essa tendência deverá continuar, aliviando a preocupação de curto prazo", disse Camara ao Estado. Ele observou, no entanto, que apesar das taxas de juros menores no ano passado, o déficit nominal em 2006 subiu para 3,35% do PIB ante os 3,28% registrados em 2005. "Isso sinaliza problemas mais sérios no lado fiscal mais para a frente", observou.Alberto Ramos, estrategista do banco Goldman Sachs, continua preocupado com a rápida expansão dos gastos públicos, o aumento dos compromissos do governo central com salários e aposentadorias. "E os amplos aumentos nos gastos correntes estão exaurindo todos os aumentos de arrecadação enquanto ao mesmo tempo freiam os necessários gastos com investimentos", afirmou.Ramos salientou também as dificuldades para se reduzir de uma forma mais acelerada a relação da dívida/PIB. "Esse é certamente um tema de grande preocupação para as agências de classificação e um obstáculo que em algum ponto o governo terá que resolver para conquistar o status de grau de investimento", disse.O economista-chefe do HSBC no Brasil, Alexandre Bassoli, ressaltou que os gastos públicos cresceram "num ritmo extremamente vigoroso" no ano passado e devem continuar nessa tendência em 2007. "Além disso, o ajuste baseado num forte aumento da tributação tem implicações muito negativas para os investimentos, produtividade e o crescimento potencial", disse."Mantemos nossa avaliação que má qualidade da política fiscal está na raiz do fraco crescimento econômico do Brasil nos últimos anos." Além disso, segundo ele, o impacto da política fiscal expansionista sobre a oferta e a demanda "justificam plenamente" a decisão do Banco Central de reduzir o ritmo no corte da Selic na semana passada.

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