Superávit maior pode reduzir gasto do governo, diz Delfim

Ex-ministro da Fazenda analisa dados do PIB e projeta crescimento pouco acima de 5% neste ano

Ricardo Leopoldo, da Agência Estado,

10 de junho de 2008 | 16h37

O ex-ministro da Fazenda, Delfim Netto, afirmou à Agência Estado que é possível que ocorra uma redução do consumo do governo no segundo trimestre, devido à decisão do Poder Executivo de elevar o superávit primário de 3,8% para 4,3% do PIB neste ano. No primeiro trimestre, tais despesas subiram 5,8% em relação aos mesmos três meses de 2007. "Os gastos públicos subiram no começo do ano. Mas se o governo cumprir a promessa de elevar o superávit primário, tal medida deve baixar o ritmo das despesas no curto prazo", comentou. Veja também: Investimento é recorde e economia cresce 5,8% no 1º trimestreMercado vê PIB em leve desaceleraçãoA medida do crescimento do País  Ao analisar os dados divulgados pelo IBGE nesta manhã, Delfim Netto ponderou que o atual ritmo de atividade deve levar o País a crescer pouco acima de 5% neste ano, o que não ficaria distante da alta de 5,4% do PIB apurada em 2007. "O País apresenta um bom ritmo de expansão, o que é reforçado pela velocidade favorável dos investimentos", comentou.  A Formação Bruta de Capital Fixo registrou um avanço de 15,2% no primeiro trimestre em relação ao mesmo período de 2007. A FBCF apresenta expansão na comparação com o mesmo período pelo 17º trimestre seguido. No quarto trimestre de 2007, os investimentos subiram 16% em relação aos mesmos três meses de 2006. Copom Com alguma ironia, Delfim Netto ponderou que a atual dinâmica de evolução do PIB "pode deixar o Copom um pouco mais preocupado", mas isso não deveria tornar a política monetária ainda mais restritiva. "O Banco Central acredita em produto potencial, o que não sabe o que é, mas ele tem certeza (nele) porque calcula", afirmou.  "Há uma pressão inflacionária, existe uma mudança de preços relativos muito importante, especialmente porque está sendo registrada uma alta forte dos preços do petróleo sobre todos os setores. Há também as conseqüências (sobre os índices de preços) das privatizações mal feitas que corrigiram as tarifas de serviços públicos por IGPs. Nesse contexto, o BC tem um pouco de razão para se assustar (com a inflação)", comentou. Mas para o ex-ministro da Fazenda, se o Banco Central acreditar que o governo vai cumprir o aumento do superávit primário de 3,8% para 4,3% do PIB, então o BC pode "ter um ataque de lucidez" e ser menos agressivo na condução da política monetária no decorrer do ano. De acordo com a pesquisa Focus, o Copom deverá elevar a Selic neste ano em mais 1,75 ponto porcentual, pois a taxa deverá chegar a 14% em dezembro.  Embora não estime a quanto devem chegar os juros básicos no final do ano, ele avalia que o BC não precisará aumentar a magnitude das elevações das taxas para 0,75 ponto porcentual. "O aumento de 0,75 ponto porcentual cogitado (na reunião realizada na semana passada) era um chute de um parte do mercado. Não acredito nesse patamar de juros. Se o BC acreditar no compromisso do governo, ele pode amenizar a alta dos juros", comentou. 'Tragédia' Para Delfim Netto, o aumento do superávit primário ajuda o Banco Central a "não precisar fazer uma tragédia" na condução da política monetária. Na sua avaliação, o governo deveria elevar a poupança do Orçamento, sem levar em consideração os gastos com juros, para pelo menos 4,5% do PIB, o que reduziria a demanda interna de 0,9 a um ponto porcentual.  De acordo com a MCM Consultores, a demanda doméstica subiu 8,7% no primeiro trimestre deste ano em relação ao mesmo período de 2007, uma taxa ainda superior ao incremento de 8,3% apurado no quarto trimestre do ano passado ante os mesmos três meses de 2006. "Aumentar o superávit primário é uma medida inteligente que o governo está adotando, pois reduz o nível de atividade e não prejudica o crescimento do País e a expansão dos investimentos", afirmou o ex-ministro.

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