Supermercados aderem a postos de gasolina

Seguindo a tendência já consolidada na Europa, as grandes redes supermercadistas brasileiras aderem cada vez mais à construção de postos de gasolina em hipermercados. A ´moda´, importada pelo Carrefour há alguns anos, foi seguida por outras cadeias e causam forte reação dos postos de gasolina independentes. Eles reclamam das condições desiguais de concorrência. Para os supermercados, a estratégia é agregar mais serviços, intensificando o apelo da conveniência para atrair e fidelizar clientes. Os números não são convergentes, mas o consenso entre as empresas do setor é que a operação eleva o fluxo de clientes nas lojas. O Carrefour, por exemplo, com 42 postos em funcionamento, estima que eles são responsáveis por 20% do faturamento nos mercados.Para o consultor da Mixxer Consultoria, Eugênio Foganholo, a instalação de postos em hipermercados faz todo o sentido ao considerar-se o deslocamento exigido do consumidor para chegar às lojas. Como elas localizam-se geralmente fora das regiões mais povoadas, não raro o cliente percorre quilômetros para fazer compras e o posto pode funcionar como incentivo na hora da escolha. Além disso, a montagem e a administração dos postos, nos moldes realizados, não é grande ou complexa. A fórmula espartana adotada pelos supermercados viabiliza sua expansão, avalia Foganholo. São apenas algumas bombas e caixas para pagamento em um terreno que pertence à empresa, contra uma área de serviços e loja de conveniência dos postos tradicionais. O investimento nos postos pode até ser rateado com os parceiros fornecedores do combustível. Lucro tributárioAté agora, além do fator conveniência, havia outra motivação para as empresas interessadas neste negócio: a possibilidade, em alguns Estados, de crédito de ICMS previsto na lei de substituição tributária. Como o combustível é vendido a preços inferiores ao que foi presumido na fonte, os supermercados tinham a prerrogativa de obter crédito da diferença de ICMS. Na prática, abatiam estes valores do tributo a pagar por outros produtos. Há cerca de seis meses, uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) para um recurso estadual, que considerou a compensação inconstitucional, desestimulou, mas ainda não proibiu, a prática. Como conseqüência, os ganhos com as operações foram reduzidos. O diretor do Carrefour, Frédéric Garcia, avalia que os lucros caíram pela metade por causa da decisão. Mas isto não alterou os planos da empresa de abrir entre cinco e dez postos ainda este ano.Atividade lucrativaO argumento é de que, mesmo com o encolhimento da margem, a atividade é lucrativa. O diretor de Expansão da rede gaúcha Sonae, Andre Siniscalchi, afirma que na sua empresa os postos também têm a função de gerar receita, além de funcionar como atração de consumidores. Ele refuta as acusações do Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo do Estado de São Paulo (Sincopetro) de que o produto é vendido a preço de custo. A rede, que entrou nesta seara há poucos meses e tem três postos no interior de São Paulo nos hipermercados BIG, quer inaugurar mais dois postos este ano no Rio Grande do Sul. O negócio não é privilégio dos grandes, embora as gigantes do setor no Brasil tenham recorrido à estratégia - além do Carrefour e do Sonae, o Extra (Pão de Açúcar) também explora este segmento. A rede catarinense Angeloni, 11ª no ranking do setor e com 18 lojas no Sul, opera três postos. De acordo com o diretor Roberto Angeloni, a empresa começou timidamente nesta área, mas agora conta com clientes fiéis. "O posto transmite confiabilidade, proporciona um serviço diferenciado e ajuda a consolidar o negócio como um todo", resume.A maior parte dos postos de hipermercados usa as bandeiras das distribuidoras conhecidas, como Shell, Esso e Ipiranga, para aproveitar a força de marcas consagradas. De acordo com Garcia, as empresas têm a preocupação em não se assemelhar aos postos de bandeira branca - aqueles sem marca - com relação à qualidade dos combustíveis. Por conta disso, a rede francesa prefere substituir, em algumas unidades, as fachadas Carrefour ou Champion (bandeira de supermercados da empresa) pelos nomes das distribuidoras. Na bomba, por lei, é obrigatória a marca do fornecedor do produto.Donos de postos protestamA entrada dos supermercados no comércio de combustíveis causa protestos veementes dos donos de postos tradicionais. A celeuma da substituição tributária, que conferia um forte diferencial competitivo para os supermercados, ainda alimenta a briga, pois ela continua sendo seguida por algumas empresas, alega o presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo do Estado de São Paulo (Sincopetro), José Alberto de Paiva Gouveia.Ele argumenta que, nas notas que chegam aos supermercados, o ICMS vem discriminado, o que não ocorre no caso dos postos. Além disso, como os postos trabalham quase sempre apenas com combustíveis, a possibilidade de crédito é de difícil execução. Os supermercados fazem a compensação por meio dos inúmeros outros produtos que comercializa.Gouveia considera desleal a competição aberta pelos supermercados e justifica: o crédito do ICMS - 25% do valor final - garante aos supermercados uma margem que possibilita a prática de preços mais baixos que os dos postos revendedores das cercanias. De acordo com seus cálculos, um posto de supermercado que vende 1 milhão de litros por mês pode ter um lucro de R$ 75 mil somente com este recurso tributário. "Além disso, 95% da receita dos postos é obtida da venda de combustíveis, enquanto que, nos supermercados, a venda de gasolina e álcool é marginal", lembra. Há ainda a vantagem indireta de o posto servir como chamariz para que os consumidores comprem outras mercadorias em suas lojas, acrescentouO Sindicato reclama também das desvantagens com relação à mão-de-obra. "Somos obrigados a pagar aos frentistas o adicional de 30% de periculosidade", disse ele. "Os supermercados podem contratar os frentistas como representantes de vendas", acrescenta. A diferença entre uma categoria e outra de funcionários é que os frentistas recebem salários de até R$ 1,2 mil, enquanto que os representantes são remunerados em R$ 700,00 por mês. "Não queremos impedir que os supermercados atuem nessa área, mas reivindicamos igualdade de condições para que possamos competir". Segundo Gouvêa, a abertura de postos em supermercados, iniciada há 11 anos, intensificou-se nos últimos três anos.

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