Marco Favero / Agência RBS
Marco Favero / Agência RBS

Supersafra de tainha enche o bolso e a mesa dos catarinenses

No último mês foram pescadas 1,6 mil toneladas na costa do Estado e ainda falta quase dois meses para o final da temporada, que encerra no dia 31 de julho

ALINE TORRES ESPECIAL/ESTADÃO, O Estado de S.Paulo

25 Junho 2016 | 05h00

FLORIANÓPOLIS -  Santa Catarina vive a melhor safra de tainha das últimas três décadas e meia. No último mês foram pescadas 1,6 mil toneladas na costa do Estado. E ainda falta quase dois meses para o final da temporada, que encerra no dia 31 de julho. A oferta é tanta que tem peixe fresco sendo vendidos a R$ 5 nas praias. Segundo o Ministério da Pesca e Aquicultura, a última supersafra foi em 1982, quando os pescadores catarinenses retiraram do mar 2,6 toneladas.

As tainhas aguardam. A natureza dispara o gatilho, vento que sopra do sul e frio.  Elas seguem sua jornada, abandonam os estuários, principalmente, da Lagoa dos Patos, no Rio Grande do Sul, e se unem em cardumes no mar para enfrentarem mil quilômetros de nado até a costa catarinense com a missão de perpetuarem a espécie em mais um ciclo de migração reprodutiva. No Campeche, em Florianópolis, tem missa sob a lua nova. É assim que os pescadores há 110 anos dão boas vindas as ilustres visitas. A temporada de pesca é aberta oficialmente dia 1° de maio para os barcos artesanais. Uma vantagem de 15 dias sobre as máquinas. E assim, recomeça o trabalho aprendido pelos imigrantes açorianos com os indígenas há três séculos.

 Os indígenas Guarani, chamados Carijó pelos portugueses, derrubavam garapuvus, consideradas atualmente as árvores símbolo de Florianópolis, entalhavam a madeira bruta e assim construíam as canoas de um pau só, mais resistentes que os homens, portanto, herdadas pelos filhos e netos. Laurentino Benedito Neves, o Xinho, navega na antiga tradição. A canoa Saragaço é o membro mais antigo da família. Passou dos cem anos sem perder a força. Carrega no seu tronco uma tripulação de seis homens, comandados pelo patrão de pesca, Xinho, o chumbareiro, encarregado de soltar a rede com chumbos na água, e quatro remadores. São eles que encurralam os peixes e arrastam toneladas numa tacada só.

Para esses homens a pátria é o mar. Xinho diz que é pescador desde que nasceu há 53 anos. Eram pescadores seu pai, seu avó e seu tataravó. Com tristeza prevê que a pesca na família morrerá na quarta geração, consigo. Ele crê que a juventude não aprendeu o valor do esforço para colocar comida à mesa e, portanto, nada se pode fazer para ensiná-la.

 Xinho vive na comunidade de pescadores da Barra da Lagoa, em Florianópolis. Um bairro pequeno, fundado em torno do mar, cortado por ruas estreitas, travessas e vielas simplórias. Quem não vive do turismo, vive da cultura pesqueira. No mar ou em terra, confeccionando trançados e redes. As caças de malhas são confeccionadas pelas mulheres dos pescadores. São redes de até 600 metros, que no mercado custam em torno de R$ 30 mil. 

As mãos de Marieta Silvina Mendes, 67 anos, navalhadas pelo tempo, continuam ágeis. Fio a fio interliga os pontos da rede de arrasto. A qualidade do trabalho dos homens depende da trama das mulheres, assim como depende da lua a maré. É preciso que sejam rápidas, resistentes e imperceptíveis as redes lançadas na captura da rainha das águas catarinas, a tainha. Principal prato da culinária nativa.

 Segundo o presidente da Federação de Pesca do Estado, Ivo da Silva, o peixe é responsável pela subsistência de 12 mil famílias, aproximadamente.  A costa catarinense abrange 7% do litoral brasileiro. Nos 34 municípios à beira mar há quase 500 ranchos que sobrevivem da pesca artesanal.

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