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Surpresa inflacionária

A queda na atividade econômica parece ter finalmente afetado a inflação

Fábio Alves, O Estado de S. Paulo

28 Dezembro 2016 | 05h00

O tema macroeconômico de maior destaque no fim de 2016, por bons e maus motivos, foi a surpresa inflacionária. O IPCA, índice oficial de inflação, tem ficado muito abaixo das projeções de analistas nos últimos três meses. Se, de um lado, a desaceleração mais forte do que a esperada dos preços de bens e serviços foi um dos efeitos colaterais da mais grave recessão da economia brasileira, com o desemprego atingindo mais de 12 milhões de pessoas, de outro, poderá ser o pilar para o início da recuperação da atividade econômica. Primeiro, por permitir cortes mais agressivos da taxa de juros pelo Banco Central. Depois, por dar um horizonte de maior confiança para empresários e consumidores.

Nos cálculos do BC, a inflação medida pelo IPCA no acumulado em 12 meses até novembro, de 6,99%, ficou 0,55 ponto porcentual menor do que a estimada pela autoridade monetária. Em dezembro, conforme a prévia da inflação para o mês, a surpresa continuou: o IPCA-15 subiu 0,19%, abaixo do consenso das estimativas, que era de uma alta de 0,29%. Para se ter uma ideia de quanto a inflação surpreendeu em 2016, basta acompanhar a evolução ao longo deste ano das projeções para o IPCA na pesquisa Focus, do BC. Em meados de fevereiro, os analistas previam uma inflação de 7,62% neste ano. Na mais recente pesquisa Focus, a projeção do IPCA para 2016 ficou em 6,40%. Quem no início do ano esperava que a inflação de 2016 ficasse abaixo do teto da meta fixada pelo BC, de 6,5%?

Alguns fatores contribuíram para que, no início do ano, os analistas estivessem bem mais pessimistas em relação à trajetória da inflação. O comportamento dos preços dos alimentos foi um deles. Até o meio do ano, a inflação de alimentos foi muito maior do que o esperado por analistas, sobretudo porque condições climáticas resultaram num choque de preços em vários itens. Mas, nos últimos meses do ano, os preços dos alimentos desaceleraram numa velocidade igualmente mais rápida do que as estimativas previam. Tanto que, em 12 meses, a inflação de alimentos no IPCA-15 ficou em 9,15% (ainda elevada), mas bem abaixo dos 12,15% registrados no índice de dezembro de 2015. O item alimentos foi um dos que mais contribuíram para que o IPCA-15 de 2016 (alta de 6,58%) cedesse significativamente em comparação com o ano passado (alta de 10,71%).

Outro fator que não estava nas contas dos analistas foi a profundidade da recessão brasileira. Logo depois que Michel Temer herdou a Presidência no lugar de Dilma Rousseff e nomeou Henrique Meirelles para ministro da Fazenda, a confiança disparou e os analistas chegaram a prever que a recuperação da economia aconteceria no terceiro trimestre. A realidade foi amarga: o Produto Interno Bruto (PIB) recuou 0,8% entre julho e setembro deste ano. A queda na atividade econômica parece ter finalmente afetado a inflação. Até a última reunião do Copom, em novembro, quando a taxa Selic foi reduzida em 0,25 ponto para 13,75%, o BC ainda se mostrava preocupado com a inflação de serviços, que havia parado de desacelerar.

No IPCA-15 de dezembro, a inflação de serviços foi de 6,61% em 12 meses ante 7,07% no resultado de novembro. Nos cálculos dos analistas da MCM Consultores, os “serviços competitivos” (aqueles com formação de preço mais concorrencial e não atrelados a correções contratuais com cláusulas de indexação ou com dinâmica relacionada à inflação passada) vão subir apenas 4,3% em 12 meses ao fim de 2017. O índice de difusão, que mede a disseminação da alta de preços na economia, ficou em 58,6% no IPCA-15 de dezembro, após ter superado 77% em fevereiro. Se excluída a alimentação fora do domicílio, o índice de difusão cai para 56,1%. A surpresa inflacionária deve continuar em 2017? Provavelmente, em particular se a recuperação da economia for mais lenta do que o esperado. Mas era preciso um remédio tão amargo para controlar a inflação?

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