Análise: surpresas mostram que projeções têm de incorporar a transição

José Paulo Kupfer, O Estado de S.Paulo

30 Maio 2015 | 02h02

Os números do PIB do primeiro trimestre surpreenderam e vieram menos piores do que os projetados por analistas. As previsões, portanto, em grande medida, estavam descalibradas - não haveria surpresa, por óbvio, se estivessem mais sintonizadas com os dados apurados. O PIB recuou 0,2%, no acumulado do período janeiro-março, e 1,6%, na comparação com o mesmo período de 2014. As previsões, na média, apontavam quedas de 0,5% e 1,8%, respectivamente, mas, consultorias de grande porte estimavam que o recuo alcançaria o dobro do ocorrido.

Há sinais variados de que, no atual ciclo de baixa, a economia brasileira ainda não bateu no fundo do poço, o que deve ocorrer neste segundo trimestre, mas os números da retração divergem. Uma coisa é um tombo de 2%, em relação ao primeiro trimestre, outra é um recuo de 0,7%, na mesma comparação, pontos extremos, no momento, das projeções. Números tão discrepantes pressupõem qualidades diferentes para a dinâmica da economia.

É de se supor, diante do registro de estimativas mais díspares, que aumentou a disseminação de incertezas para as variáveis levadas em conta no cálculo das previsões. Essa é uma situação típica de economias em transição, afetadas por mudanças estruturais de política econômica, como é o caso da economia brasileira.

Para o segundo semestre, a expectativa geral é a de um estancamento sem força na tendência de queda do PIB, mais pela obediência à natureza cíclica do fenômeno econômico. De novo, existe consenso quanto à trajetória, mas permanecem discrepâncias em relação ao grau e ao ritmo da recuperação. No fim do percurso, a contração da economia, em 2015, é certa, mas, segundo as estimativas, poderá ficar em menos 1% ou descer até menos 2,2%.

As surpresas, no primeiro trimestre, se deram, principalmente, em três setores - quatro se for incluída a construção civil. Em três deles - agropecuária e indústria extrativa e construção-, os números surpreenderam para cima. No setor de serviços, a surpresa foi para baixo.

Como quase dois terços da economia dependem dos serviços, a previsão de que continue em baixa ao longo do ano levou alguns analistas a reforçar apostas numa contração maior do PIB neste ano, mesmo com os resultados não tão ruins, no primeiro trimestre. Reforçando as incertezas do momento, outros especialistas, com base nos mesmos números, estão propensos a revisar para menos a contração da economia prevista para este ano.

Tudo considerado, parece que ainda não caiu a ficha dos analistas para o fato de que a economia está vivendo um momento diferente do que viveu no ano passado, com a introdução em série de medidas de impacto, capazes de interferir nas projeções - ver, a propósito, a recente liberação de parte do recolhimento compulsório da poupança. Desenhar os efeitos dessas mudanças e incorporá-los à dança das variáveis em jogo, mais do que a superação de um desafio técnico, exige um tanto de arte e muita sensibilidade política.

 

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