Charles Platiau/Reuters
Paris e oito regiões da França terão toque de recolher por causa do novo surto de coronavírus. Charles Platiau/Reuters

Surto de coronavírus na Europa deixa recuperação mundial em xeque

Alta de novos casos de covid-19 preocupa em países como França e Itália, que já voltam a adotar medidas de isolamento mais duras; economistas veem impacto no crescimento do Brasil

Douglas Gavras e Márcia De Chiara , O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2020 | 05h00

O aumento de novos casos da covid-19 na Europa afeta o desempenho das bolsas, coloca em risco a recuperação da economia mundial no ano que vem e pode prejudicar o Brasil. Segundo economistas ouvidos pelo Estadão, a perspectiva é de que os países em que esse aumento é mais preocupante, como França, Espanha e Reino Unido, estendam para o ano que vem parte das perdas que registraram este ano e tenham um primeiro trimestre ainda fraco. 

Com a segunda onda de coronavírus no continente, os europeus voltaram a adotar medidas mais duras de isolamento. Na quarta-feira, a Itália registrou o maior número diário de novos casos, 7.332. No mesmo dia, o presidente francês, Emmanuel Macron, anunciou que nove regiões, incluindo Paris, terão toque de recolher até dezembro. Já os portugueses declararam estado de calamidade para conter o contágio.

Na avaliação do Bank of America (BofA), ainda não é possível quantificar a perda que os países europeus com mais novos casos devem ter, mas indicadores como o Purchase Managers Index (PMI), o índice dos gerentes de compra, que reflete o desempenho da indústria e dos serviços, acendem um sinal amarelo. Em setembro, o indicador de serviços ficou abaixo dos 50 pontos na França, Itália e Espanha, sinalizando contração. 

Em relatório recente, o BofA se disse preocupado com o rápido aumento do número de casos. “Com novas restrições anunciadas todos os dias, continuamos preocupados com as perspectivas para o consumidor europeu à medida que avançamos para o quarto trimestre. Os PMIs de serviços estão em contração, com os países registrando as quedas mais acentuadas em relação aos níveis de julho, sendo aqueles que relataram as contagens de vírus mais altas: França e Espanha.”

Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior, lembra que as economias europeias já vinham de um ano de baixo crescimento e que qualquer novo fechamento dos países é preocupante. “O aumento de casos ou a demora da vacina mexem com os mercados e fragilizam esses países.” Ontem, as principais bolsas europeias fecharam com queda na casa dos 2%.

Reflexos

Uma segunda onda de covid-19 em países da Europa, como França, Portugal, Espanha, Inglaterra, por exemplo, poderá afetar o crescimento da economia brasileira do ano que vem. Na contas do economista Fabio Silveira, sócio da consultoria MacroSector, o impacto da segunda onda, se confirmada, pode tirar, no mínimo, um ponto porcentual do crescimento do PIB em 2021. “O crescimento que seria de 2,5%, pode recuar para 1,5%, 1%”, prevê.

Se houver uma derrapada na economia europeia, o Brasil será afetado, por ter um comércio expressivo com a Europa e os Estados Unidos. Neste caso, a economia americana e a chinesa também vão sentir os efeitos da redução do ritmo de atividade na Europa. “Com isso, o Produto Interno Bruto (PIB) mundial será revisado para baixo, pois tudo está conectado.”

Lívio Ribeiro, pesquisador sênior da área de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), concorda que uma eventual desaceleração da Europa deve afetar a economia brasileira. Ele só ressalta que ainda não é possível calcular esse impacto. “O efeito será muito mais por meio das expectativas”, afirma o economista.

Essas expectativas, segundo Ribeiro, devem se manifestar tanto pelo temor de que uma segunda onda também ocorra no Brasil quanto por meio de fluxos financeiros. “O risco mundial aumenta e os emergentes, como o Brasil, acabarão sofrendo mais.” Na sua opinião, se a discussão de maior aversão ao risco piorar, possivelmente haverá efeito sobre o crescimento de 2021 no País.

Já o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, pondera que a economia brasileira é relativamente fechada. Por isso, o impacto da Europa não deve ser significativo. Ele diz que os fatores de risco que podem frustrar um crescimento de 2,2% do PIB para 2021 são domésticos, como a condução das reformas e o déficit fiscal.

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Ao contrário da média internacional, China deve crescer 1,9% este ano

País asiático tem retomada puxada pelo mercado interno, o que pode beneficiar as exportações brasileiras; segundo o FMI, economia mundial deve recuar 4,4% em 2020

Douglas Gavras e Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2020 | 05h00

A forte recuperação da economia chinesa e o fato de o país asiático ser o principal comprador de produtos brasileiros não blindam o Brasil dos impactos econômicos negativos de uma segunda onda de covid-19 na Europa, alertam os especialistas. Enquanto, na média, a economia mundial deve recuar 4,4% este ano, e para o Brasil é esperada uma queda de 5,8% do Produto Interno Bruto (PIB), a China deve crescer 1,9%, segundo estimativa recente do Fundo Monetário Internacional (FMI)

“O desempenho da economia chinesa em agosto surpreendeu positivamente”, observa Lívio Ribeiro, pesquisador sênior da área de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV). Os resultados de setembro do país serão divulgados junto com o PIB do terceiro trimestre que, nas suas contas, deve ter crescido 5,7% em relação ao mesmo período do ano passado. Com isso, o resultado volta praticamente ao ritmo pré-covid.

Ribeiro diz que a recuperação da China tem sido bem rápida, em “V”, e puxada principalmente pela retomada da economia doméstica e, em menor proporção, pelo crescimento global. O fato de a China estar andando mais rápido pode ser bom para alguns setores específicos, mas para economia brasileira como um todo não há um impacto positivo tão grande, afirma o economista. “A exportação é uma parcela pequena do PIB brasileiro”, argumenta.

Para o ex-secretário de comércio exterior Welber Barral, o aumento no número de novos casos de covid-19 na Europa deve prejudicar a recuperação da economia europeia e fazer com que o Brasil aumente sua dependência das exportações para a Ásia. Ele lembra que faz parte do plano de recuperação chinês o investimento expressivo em obras de infraestrutura e que a recuperação do mercado interno chinês é positiva para o Brasil. O governo do país também tem aumentado o incentivos para o consumo da população.

“Com a recuperação mais rápida da China, o País aumentou tanto o nível de estoques de grãos nos primeiros meses de pandemia quanto o de compra de minério de ferro agora. No longo prazo, concentrar as exportações em um mesmo comprador pode ser preocupante.” 

O economista Fabio Silveira, sócio da consultoria MacroSector, faz coro com Ribeiro. Ele lembra que, apesar de o agronegócio brasileiro ter forte ligação com a China, o setor responde por 25% do PIB. “Temos dois mundos, o agronegócio que cintila e os outros 75% da economia que não conseguem sobreviver e precisam ter aporte do auxílio emergencial. Há uma conexão múltipla de negócios que será afetada com uma segunda onda de covid-19.”

Para Silveira, nenhuma economia anda sozinha. A China não conseguirá crescer 5% só apoiada em seu mercado doméstico. O economista diz que o país será afetado também, caso se confirme uma segunda onda da doença, e isso poderá ter reflexos no Brasil.

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