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José Roberto Mendonça de Barros
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Sustentabilidade para manter a liderança

O consumidor mudou. Ele quer saber o que está comendo e se o meio ambiente é respeitado

José Roberto Mendonça de Barros*, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2019 | 03h00

A agricultura continua sendo um dos poucos setores relevantes com uma dinâmica robusta de crescimento. Este tem sido baseado, antes de tudo, na ciência, no conhecimento e na tecnologia, que, em interação com as pessoas e o meio ambiente produz sistematicamente, e há muito tempo, uma elevação da produção e da produtividade, com queda secular de preços que beneficiam o consumidor brasileiro e o mercado global.

Mesmo na quase depressão em que vivemos, o dinamismo persiste, e a nova agenda de produção já está definida: a agricultura de precisão e novas técnicas para melhoria das variedades. Ela é o equivalente da Indústria 4.0 no setor primário. Lá está um conjunto de tecnologias digitais que, utilizadas em sistemas que integram grandes bases de dados, máquinas e pessoas, levam a uma otimização de recursos num grau muito maior do que se suspeitava.

A utilização de dados de clima em tempo real permite planejar e executar atividades de plantio, tratos culturais, irrigação, colheita e pós-colheita. Por exemplo, na formação do canavial, as máquinas comandadas por GPS dão uma precisão tal nas linhas que é possível plantar até 2% a mais de mudas por hectare. Na colheita, a máquina e o caminhão que recolhem a cana operam autônomos. O motorista do caminhão só retoma o volante na hora de ir para a usina.

Nos tratos culturais é cada vez mais utilizado o Controle Integrado de Pragas, um conjunto de técnicas que engloba desde a simples contagem de invasores por metro linear de cultura e armadilhas até o controle biológico (feito pela criação de inimigos naturais das pragas) e o uso conjunto de biodefensivos e químicos.

Finalmente, a utilização de sensores nas máquinas permite aplicar defensivos apenas nas plantas que assim necessitem, o que diminui drasticamente o uso dos elementos ativos, em até 50%! A intensa discussão que se trava em torno de “venenos” vai ficar muito menor. Esse debate já tem data para terminar.

As mesmas técnicas estão sendo usadas no manejo da irrigação (com forte redução do uso de água) e na pecuária. Por exemplo, com sensores nos cochos pode-se repor apenas a quantidade de alimento que está sendo efetivamente ingerida pelos animais, otimizando a engorda. Na produção leiteira já se usa a robotização da ordenha.

Em todos esses casos há elevação da produtividade e redução de custos, tornando mais competitiva a produção nacional. No quesito terra, além de mais precisão nos tratos culturais, vale mencionar a atenção com a qualidade, desde as técnicas tradicionais de terraceamento, plantio em nível, rotação de culturas e vazio sanitário até o crescente uso de condicionadores de solo, biofertilizantes e produtos que elevam a atividade microbiana no solo, permitindo raízes mais profundas e aumentando a resistência à seca.

Nesse âmbito há uma verdadeira revolução em marcha: a Indigo tem um banco enorme de bactérias e fungos, com os quais prepara misturas específicas que envolvem as sementes e que resultam em maior produção por área.

Finalmente, continua avançando velozmente a utilização da integração de sistemas, agricultura, pastagens e florestas (ILPF), com efeitos marcantes na sustentabilidade, na proteção de nascentes e no bem-estar animal. Esse conjunto de novas tecnologias, associadas a procedimentos já largamente utilizados, como o plantio direto na palha, está resultando numa agricultura muito mais sustentável e rastreável.

Críticas tradicionais vão desaparecendo. Nos anos 70, dizia-se, sem nenhuma base científica, que fertilizantes químicos estragavam a terra, tema que acabou deixado de lado por ser falso. Mais recentemente muita energia se gastou com o tema dos organismos geneticamente modificados, já em uso havia décadas. Milhões de pessoas em todo mundo consumiram esses produtos sem um único caso de problemas. Agora, com a técnica de edição genética já em pleno uso, esse debate desapareceu.

Os novos sistemas de controle de pragas vão também colocar a questão do “veneno” numa perspectiva adequada. É preciso observar que o desenvolvimento da tecnologia é uma eterna corrida de resolver problemas sucessivos, cujo resultado é que mais gente come mais barato, além de produtos de melhor qualidade. O crescimento da duração da vida não ocorreria sem uma elevação sistemática da produção de alimentos.

Ao lado da aceleração da melhoria tecnológica, é preciso, entretanto, deixar para trás pautas regressivas. Falo aqui dos sucessivos programas de refinanciamento de dívidas (Refis) e de mais prazo para fazer o Cadastro Rural, que tem de ser aprimorado e passar para as fases mais avançadas da lei. Aliás, o Cadastro Rural tem de ser o norte do setor. As áreas de preservação têm de ser totalmente respeitadas, assim como a grilagem da terra e o desmatamento ilegal devem ter fim.

Finalmente, é preciso aceitar que o consumidor, no mundo inteiro, mudou. Ele quer saber o que está comendo, como e onde foi produzido e se o meio ambiente é respeitado. É o mesmo no nosso País.

Pela própria sustentabilidade e pelo fato de o agronegócio brasileiro hoje ser global, é uma grande bobagem atropelar o meio ambiente. A liderança do setor, seus representantes e o governo têm de ter isso em mente.

*ECONOMISTA E SÓCIO DA MB ASSOCIADOS

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