Brendan McDermid/Reuters
Brendan McDermid/Reuters

Susto nas bolsas indica necessidade de reformas no País, dizem analistas

De acordo com economistas, liquidez e crescimento internacionais ainda favorecem a realização de reformas no Brasil; cenário, entretanto, pode mudar caso os EUA acelerem ritmo de elevação de taxa de juros para conter inflação

Luciana Dyniewicz, Fabrício de Castro e Eduardo Rodrigues, O Estado de S.Paulo

07 Fevereiro 2018 | 05h00

O conturbado movimento das bolsas americanas nos últimos dias é um alerta para o Brasil de que o cenário favorável para a implementação de reformas no País tem prazo para acabar. Na avaliação de analistas ouvidos pelo Estado, a situação fiscal precisa melhorar com urgência para reduzir a vulnerabilidade brasileira enquanto a economia mundial vai bem e tem dinheiro sobrando lá fora.

“Tem uma janela aberta. É preciso fazer reformas para consolidar o crescimento e ficar menos vulnerável ao ajuste da economia mundial, que virá em algum momento”, disse José Roberto Mendonça de Barros, sócio da consultoria MB Associados e secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda no primeiro governo Fernando Henrique Cardoso.

Ontem, os investidores ainda tentavam entender o que levou as bolsas americanas a despencarem na segunda-feira, arrastando junto bolsas do mundo inteiro. Indicadores de que a economia dos EUA pode sofrer uma pressão inflacionária estavam entre as explicações. A sequência de valorizações dos preços dos ativos nos últimos meses também. Analistas esperam agora que o mercado passe por um ajuste até encontrar um ponto de equilíbrio. Em meio às especulações, a bolsa de Nova York reverteu ontem parte das perdas do dia anterior e fechou em alta de 2,33%. No Brasil, o Ibovespa também encerrou o dia com ganhos de 2,83%.

A volatilidade, no entanto, deve continuar. O economista-chefe da Rio Bravo Investimentos, Evandro Buccini, alerta que o apetite do investidor para tomar risco pode diminuir caso o panorama internacional mude, fazendo com que haja uma fuga de recursos do Brasil. “Hoje, a economia mundial está dando uma chance para o País, sem se importar com a condição fiscal, mas a festa sempre acaba. E, neste momento, quanto menos o Brasil tiver feito de reforma, mais vulnerável estará.”

Para o economista Silvio Campos, da Tendências Consultoria, o cenário internacional favorável dos últimos meses ajuda a “mascarar os problemas” do Brasil e, em uma eventual desaceleração da economia global, o mercado pode perder o “bom humor” com o País.

“O cenário ainda é de crescimento global, ainda temos uma janela favorável. Mas o ciclo de liquidez internacional vai ficando mais apertado”, acrescenta Marcos Mollica, sócio da Rosenberg Investimentos.

Reunião. O panorama internacional também ganhou importância nas discussões da equipe econômica. O presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, e o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, decidiram se encontrar no início da noite de ontem para “avaliar os mercados nacional e internacional”. O encontro não estava previsto na agenda deles. Oficialmente, tanto o BC quanto a Fazenda disseram que o encontro fazia parte de uma série de reuniões que ocorrem semanalmente.

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Após a reunião, Meirelles descartou a necessidade de o governo brasileiro tomar medidas. “Houve muita volatilidade, mas, a princípio, o mercado voltou a se acalmar. A Bolsa (dos EUA) subiu muito e está fazendo um ajuste”, disse. “Não acredito que haja, neste momento, impactos relevantes para a economia brasileira”, acrescentou.

Nos últimos meses, Ilan e o próprio BC, em seus comunicados, vinham ponderando que a bonança lá fora não duraria para sempre. “O cenário americano encontra-se benigno, mas não podemos contar com essa situação perpetuamente”, disse Ilan na semana passada.

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