Tabus de Dilma pioram a crise

Suely Caldas, O Estado de S.Paulo

13 Setembro 2015 | 02h04

Credibilidade e confiança são vitais para o governo de um país seguir seu rumo. Sem isso a economia paralisa e regride, o futuro é visto com descrença e desesperança e a busca por saídas deságua em nada, não prospera e morre. É neste ambiente que vive a presidente, Dilma Rousseff, em seu segundo mandato. Como não há credibilidade nem confiança e muito menos rumo, as atabalhoadas saídas que ela tenta fracassam, algumas são rejeitadas pelo Congresso, cada vez mais hostil, outras se perdem nas trapalhadas de apressar o anúncio de alguma coisa, para tentar apagar algum incêndio, e são atropeladas por outro incêndio e, em seguida, esquecidas. Este governo tem impressionante capacidade de multiplicar focos de fogo e este último - a perda do grau de investimento pela agência Standard & Poor's - promete se alastrar, espalhando estragos na economia e retrocessos em programas sociais.

Com a confiança zerada, Dilma Rousseff alugou a credibilidade de Joaquim Levy para comandar a economia. Mas restringiu sua ação de organizar o caos das contas do governo - nada de mexer em reformas que podem abalar sua popularidade, muito menos em tabus ideológicos rejeitados por ela e pelo PT. Resultado: o tempo regulamentar do ministro se esgotou, também ele perde credibilidade e o caos das contas públicas não foi desfeito, a ponto de o governo enviar para o Congresso um orçamento com um buraco aberto de R$ 30,5 bilhões.

Os tabus do PT se sustentam em um tripé: são puramente político-ideológicos, desconhecem a realidade do País e seguem na contramão do mundo moderno de um Estado regulador que exauriu sua capacidade de investir. Um desses tabus é contra a privatização e a favor de um Estado gigante, concentrador e intervencionista, ao estilo que predominou no mundo entre as décadas de 1930-50 (inclusive nos EUA de Franklin Delano Roosevelt). O mundo mudou, mas Dilma e o PT estacionaram nessa época e brincaram de fazer experimentos com data de validade pra lá de vencida, que resultaram na grave crise em que o País mergulhou. É justamente essa trajetória dúbia e antagônica, ora conduzida por Levy, ora pelos delírios ultrapassados do PT e Dilma, que o desequilíbrio fiscal entortou de vez e impede a recuperação da confiança no governo. Nessa dubiedade de visões, Dilma e PT resistem, Levy sai derrotado e persistem a incerteza e a insegurança em relação ao futuro, inimigas mortais de decisões de investimentos.

O déficit nas contas públicas é grave demais para ser resolvido só com cortes de despesas e aumento de impostos. E corte de despesas limitado, que corta apenas 1 mil, de 21 mil cargos comissionados, a maioria ocupada por petistas e apadrinhados de outros partidos; que anuncia a supressão de 10 dos 39 ministérios - e nada até hoje. E Dilma segue prometendo mais 3 milhões de novas moradias, quando não entregou nem as antigas, com obras paradas por falta de dinheiro. Promessas e mentiras é o que não faltam: em junho ela requentou o plano de investimentos de 2012, prometendo R$ 200 bilhões em rodovias, ferrovias, portos, aeroportos e usinas elétricas. Mas nenhuma licitação até agora.

Se, em vez de ficar em hesitações e promessas não cumpridas, a presidente Dilma decidisse vender ativos desde o início do mandato, provavelmente o Brasil não teria a nota de crédito rebaixada, tampouco o Congresso receberia o vergonhoso Orçamento deficitário nem estariam agora em risco programas sociais essenciais, como o Bolsa Família. Ela teria simplesmente seguido a receita mais universal de todas: quando uma família enfrenta falta de dinheiro e a dívida cresce, vende o carro ou aquele apartamento que está alugado. O Brasil tem muitas empresas estatais, que, privatizadas, ajudariam a livrar o País do atoleiro. É seguir o caminho da Petrobrás, que decidiu vender parte da BR Distribuidora para recompor seu enfraquecido caixa. Mas a obsoleta resistência ideológica do PT e de Dilma à privatização e a rejeitar perder parcelas de poder para fazer política e nomear amigos acabam por condenar o País à recessão e ao desemprego.

* Suely Caldas é jornalista e professora de comunicação da PUC-Rio. E-mail: sucaldas@terra.com.br

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