Talentos não desenvolvidos

Muito tem se falado em escassez de talentos ou necessidade de perfis diferentes para compor novos desafios nas organizações, mas será que há realmente a escassez, ou os talentos estão sendo pouco desenvolvidos? Acredito que a segunda opção explica melhor este problema.

Neli Barboza, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2015 | 02h10

Vejo constantemente gestores transferindo a responsabilidade de avaliar, treinar e desenvolver suas equipes para a área de recursos humanos, abstendo-se desta tarefa como se ela não fizesse parte do escopo de um líder.

É uma atitude preocupante, pois a função de desenvolver os talentos é dos gestores, com o auxílio do RH, e não vice-versa. É o líder quem acompanha diariamente seu time e tem capacidade de identificar as competências, as habilidades e as melhorias necessárias em cada colaborador. É o líder quem conhece as reais necessidades e os objetivos da área e, portanto, conseguirá direcionar a equipe nas habilidades a serem desenvolvidas.

O líder é o espelho do time, é em quem os colaboradores se inspiram, e por isso deve ser exemplo, gestor de "gente", e não de "ativos". Cabe ao líder reconhecer a importância de seu capital humano e seu protagonismo no sucesso dos negócios. É função do líder saber identificar quais as competências necessárias, saber contratar, treinar, motivar, reter e avaliar o desempenho de sua equipe.

Quantos casos conhecemos de colegas ou conhecidos que, ao mudarem de empresa, dão grandes saltos na carreira? Muitas vezes porque estavam sob lideranças mal preparadas, que não atentaram ao seu talento e potencial e, por isso, os perderam para o mercado. Isso sem contar líderes inseguros, que limitam o desenvolvimento de colaboradores por medo de "perderem" seus lugares. Líderes com visão limitada da empresa e de sua função, e mais preocupados com seu status e bem estar do que com o que realmente é importante e saudável para a empresa.

Em pleno século XXI, não há mais espaço para líderes assim. Os talentos precisam ser desenvolvidos, treinados e preparados. É claro que muitas vezes realmente haverá necessidade de buscar fora para agregar novas competências e experiências ao time, para oxigenar a equipe com gente nova. Mas olhar o capital humano existente, acompanhar seu desenvolvimento por meio de coaching, treinamento e feedback constante são tarefas fundamentais antes de buscar alguém fora. São as pessoas que movem as empresas, e não o contrário, e os líderes precisam aprender a valorizar seus talentos desta forma.

É fácil falar de escassez de talentos e reclamar que não há colaboradores com capacidade suficiente para suceder outros em posições estratégicas ou para assumir novos desafios. Difícil é assumir que há um trabalho a ser feito pelo líder que exige tempo, planejamento, dedicação e acompanhamento. Enfim, entender que colaboradores não vêm prontos e a relação com a empresa deve ser via de mão dupla, onde cada um dá o seu melhor.

Por fim, é importante lembrar também que a importância da liderança no desenvolvimento e retenção de talentos não inibe a responsabilidade de cada profissional de buscar evolução e crescimento. Cada um é dono de sua carreira e deve estar atento às melhores escolhas para um desenvolvimento constante.

Sabemos que no mundo corporativo não há receitas, pois empresas têm culturas próprias e são feitas de pessoas, que mudam constantemente. Mas se pudéssemos arriscar uma receita, ela com certeza envolveria muitos esforços tanto dos líderes, com dedicação, coaching e atenção ao capital humano que está sob sua gestão, quanto dos colaboradores, com brilho nos olhos, flexibilidade e resiliência. É esta combinação de ingredientes que vai garantir mais produtividade e assertividade para as empresas, além de um clima melhor, com profissionais mais felizes.

NELI BARBOZA PSICÓLOGA, COM MBA EM GESTÃO DE PESSOAS PELA FUNDAÇÃO INSTITUTO DE ADMINISTRAÇÃO (FIA), É ESPECIALISTA EM RECRUTAMENTO E SELEÇÃO DE EXECUTIVOS E EM OUTPLACEMENT E UMA DAS FUNDADORAS DA TERRA ASSESSORIA

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