Tarde demais

Sobram razões para o aumento da volatilidade nos mercados. O principal pano de fundo é a incerteza quanto aos passos do Fed (Federal Reserve, o banco central americano), que sempre foi um gatilho para nervosismo e ajustes significativos de preços de ativos. Desta vez, com um agravante: o experimentalismo na gestão da política monetária nos Estados Unidos e seus efeitos não intencionais adicionam grandes incertezas na construção de cenários.

ANÁLISE: Zeina Latif, CONSULTORA, DOUTORA EM ECONOMIA PELA USP , ANÁLISE: Zeina Latif, CONSULTORA, DOUTORA EM ECONOMIA PELA USP , O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2013 | 02h05

Não se trata, portanto, apenas de decifrar as intenções do comitê de política monetária do BC americano (Federal Open Market Committee). Os próprios membros do Fomc se mostram divididos e todos precisarão aguardar a evolução da economia para ter maior clareza sobre quando reorientar a política monetária. Assim, parte da volatilidade deve perdurar por um bom tempo.

O quadro doméstico contribui para aumentar de forma sensível a instabilidade, castigando mais os preços de ativos do País. Enquanto, no passado, as ondas de nervosismo do ambiente externo batiam em uma baía rasa e com fundo liso, perdendo sua energia, agora as ondas ganham força por causa de terreno profundo e acidentado. Antes o Brasil caminhava para o grau de investimento, agora corre o risco de perdê-lo.

Analistas falam em choque de credibilidade na gestão da política econômica do governo para afastar o risco de cenários mais preocupantes. Afinal, o nervosismo do mercado financeiro contamina a economia, seja pela deterioração da confiança de empresários e investidores, numa economia frágil, seja pelo estrago das oscilações cambiais sobre a inflação já no teto da meta.

O choque de credibilidade teria de ser bastante profundo, pois ganhos de reputação são conquistas lentas. Exigem disciplina e persistência do gestor, aliada à comunicação transparente de estratégias e de objetivos. Não parece haver clareza suficiente do governo sobre diagnósticos e ações necessárias e, além disso, o ciclo político influencia a tomada de decisões.

Choques de credibilidade não combinam com segunda metade de mandato, muito menos com antecipação de eleição. O governo, ainda que sentindo a piora do ambiente, parece preferir ajustes mais moderados, colhendo o já conhecido mix de crescimento baixo e inflação alta, a correr o risco de ajustes profundos com efeitos desconhecidos no horizonte de um ano. A questão é saber se ajustes moderados serão suficientes para proteger o País das ondas externas. É possível, mas não o mais provável.

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