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Fernando Dantas
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Tarefa ingrata

O custo de controlar a inflação no Brasil está se revelando altíssimo. Mesmo com uma economia que encolheu 3,8% em 2015 e deve recuar outros 3,2% este ano, o IPCA acumulado em 12 meses até agosto se mantém em 8,97%. Normalmente, uma economia que desaba puxa para baixo a alta dos preços, pelo canal da demanda muito enfraquecida.

Fernando Dantas, O Estado de S.Paulo

16 Setembro 2016 | 05h00

É verdade que o IPCA já recuou a partir do máximo recente de 10,71% em janeiro de 2016, também na medida acumulada em 12 meses. Mas neste mesmo período o ritmo de alta dos preços administrados caiu pela metade, de 17,2% para 8,47%. Esse recuo deu-se na maior parte por conta do fim do impacto inflacionário do enorme reajuste dos preços de eletricidade em 2015, para compensar a desastrada intervenção no setor no primeiro mandato de Dilma Rousseff.

Saindo da seara dos administrados, entretanto, o quadro é mais complicado. É o caso dos preços livres, que são todos aqueles não administrados – sujeitos, portanto, às forças da oferta e da demanda. Os preços livres nos 12 meses até agosto subiram 9,2%, a maior alta nesta base de comparação desde outubro de 2003.

No Brasil, os juros reais estão no altíssimo nível de 7,3% e a demanda está no chão, com o desemprego tendo subido de 9% no último trimestre de 2015 para 11,6% no trimestre formado por junho, julho e agosto deste ano. Ainda assim, o recuo da inflação acumulada em 12 meses, como se viu, ocorreu nos preços administrados, enquanto os livres, teoricamente mais sensíveis à demanda – e, portanto, aos juros – continuaram a subir.

É verdade, por outro lado, que a elevação dos preços livres está contaminada por um fortíssimo choque de alta dos preços de alimentos, cujas variações bruscas costumam estar mais ligadas a questões de oferta, como fenômenos climáticos, do que a mudanças do comportamento da demanda.

Ainda assim, outros tipos de decomposição do IPCA não são muitos animadores. Os serviços caíram razoavelmente do final do ano passado até o início do segundo trimestre de 2016, mas de lá para cá estacionaram num nível próximo a 7,5% (sempre no acumulado em 12 meses). A média dos chamados “núcleos de inflação” também recuou, mas ainda está em 8,1%.

Copom. É nesse quadro de dificuldades que o Banco Central (BC), com seu novo presidente Ilan Goldfajn, e novos e prestigiados nomes na diretoria, tem que tomar suas decisões sobre política monetária, isto é, subir, manter ou baixar a taxa de juros básica, a Selic. O alto custo da desinflação dá ao atual desafio do Comitê de Política Monetária (Copom) proporções assustadoras.

O Copom contempla, de um lado, a terra arrasada na atividade econômica, a fragilidade dos primeiros sinais de retomada e o desemprego ainda em marcha acelerada. O Banco Central vê ainda, no mesmo lado da moeda, a obscena carga nominal dos juros da dívida pública de 7% do PIB, um componente fatalmente decisivo da explosiva trajetória de endividamento do País. Todos esses fatores clamam pela redução da taxa básica.

Por outro lado, como descrito acima, há uma inflação elevada, resistente e inercial, um dólar que voltou a subir um pouco (a valorização do real ajuda a conter a pressão inflacionária) e imensas dúvidas sobre se os planos de salvação fiscal vão dar certo ou não.

As expectativas de inflação do mercado para 2017 não estão nos 4,5% pretendidos pelo BC, mas sim um pouco acima de 5%, e pararam de cair. A estimativa dos chamados Top 5, o grupo que mais acerta, voltou a subir na última coleta.

Os economistas mais “durões” acham que, nesta situação, o BC não deve nem pensar em baixar a Selic. Por outro lado, há uma corrente para a qual, sem que o governo consiga botar as contas públicas em ordem, não há nada que o BC possa fazer sozinho para segurar a inflação.

Em resumo, não há nada a invejar no momento do trabalho de Ilan e seus companheiros de Copom.

COLUNISTA DO BROADCAST E CONSULTOR DO IBRE/FGV

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