REUTERS/Kevin Lamarque
REUTERS/Kevin Lamarque

Tarifar US$ 200 bi em bens da China afetaria consumo nos EUA, diz economista

Para economista sênior da Oxford Economics em Hong Kong, Tommy Wu, não há esperança por paz comercial no momento

Entrevista com

Tommy Wu, economista sênior da Oxford Economics em Hong Kong

Nicholas Shores, O Estado de S.Paulo

03 Setembro 2018 | 04h00

A guerra comercial com os Estados Unidos não impedirá as ambições da China de expandir sua influência política e econômica globalmente por meio do programa de investimentos no exterior conhecido como "Um Cinturão, Uma Rota", avalia o economista sênior da Oxford Economics em Hong Kong, Tommy Wu. Ainda assim, ele explica, a dinâmica no comércio global mudou com a reaproximação do país presidido por Donald Trump com os vizinhos Canadá e México, na renegociação do Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (Nafta, na sigla em inglês), e com a União Europeia, num tabuleiro configurado por Washington para pressionar Pequim a aparar arestas com o Ocidente.

Em entrevista exclusiva ao Broadcast, concedida após uma palestra no Instituto Confúcio para Negócios da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), Wu alertou sobre como a provável imposição pelos EUA de uma segunda rodada de tarifas, desta vez a US$ 200 bilhões em mercadorias chinesas, seria uma "história diferente", pois alcançaria bens de consumo - um dos motores da economia americana. Quanto às acusações de que a China adota práticas injustas com a tecnologia de companhias estrangeiras, o economista avisa que o país deve "dobrar a aposta" para se tornar autônomo em inovações no setor, mas relata que o empresariado doméstico já promove junto ao governo chinês a demanda por direitos de propriedade intelectual mais fortes e a sua devida fiscalização.

Confira abaixo os principais trechos da entrevista:

Para a Casa Branca, o andamento da renegociação do Nafta põe a China "na defensiva" e impede Pequim de "invadir" a América do Norte. O acordo pretendido muda a disputa americana com a China de alguma forma?

Não parece que o Nafta mudaria a relação EUA-China, pois esse acordo era esperado, de qualquer forma. Mas a dinâmica em termos de timing e negociação está mudando. Alguns meses atrás, eram os EUA contra o resto do mundo. Agora, as coisas estão no lado dos EUA e contra a China. No fim do dia, a guerra comercial entre EUA e China ainda é sobre se os dois conseguem sentar à mesa e conversar. Aqueles diálogos na semana passada (em Washington) foram conversa (típica) de guerra comercial. Parece que não vai acontecer nenhum progresso.

Há agora mais pressão sobre Pequim?

Acho que sim, pois pressiona a China em termos de um acordo (para encerrar) a guerra comercial ou das suas estratégias de investimento global. Da perspectiva da China, talvez eles tentem aparar essas arestas ao não estimular a raiva dos outros países, ao não dizer abertamente como eles querem se tornar os líderes nessa ou naquela indústria. Mas, na realidade, eles ainda vão fazê-lo. A China hoje está genuinamente querendo se abrir mais. Uma razão é que eles querem, de fato, melhorar a sua cadeia de valor e investimentos estrangeiros vão ajudar nisso. E, segundo, eles não têm mais medo de grandes companhias estrangeiras entrarem e dominarem os mercados chineses. As companhias financeiras e os bancos na China são grandes o suficiente agora. Para financeiras estrangeiras, é ótimo poder entrar na China, porque, apesar de saberem que não vão ter uma grande participação de mercado, a torta é tão grande que, se elas conseguirem alguma fatia, ainda é muito bom.

A China diz apoiar o sistema multilateral de comércio baseado em regras. Mas será que ela só faz isso fora das próprias fronteiras? A China está disposta a ser multilateral também dentro do próprio território?

É crescentemente provável que sim. Parte disso é por causa da guerra comercial com os EUA. A China quer se apresentar como apoiadora do multilateralismo, mas não pode fazer isso sem praticar o próprio discurso.

Trump disse em um tuíte que a relação com a Coreia do Norte pode estar sendo dificultada pela assistência da China a Pyongyang. Seria muita especulação apontar uma conexão entre essa reclamação e as disputas comerciais?

Trump tentaria amarrar os dois juntos. Como um observador externo, não estou certo de que os dois estão interconectados. Entre a segunda metade de 2017 e o começo de 2018, as exportações e importações com a Coreia do Norte encolheram 60% ou 70%. De fato, a China está impondo sanções à Coreia do Norte. Mas, se você olhar os dados comerciais recentes, nos últimos dois meses, os chineses estão embarcando mais coisas para a Coreia do Norte. Não é como antes, mas há uma curva ascendente. Então, nesse aspecto, Trump pode estar certo.

Foi relatado que Trump estaria disposto a colocar as tarifas sobre US$ 200 bilhões em mercadorias chinesas em vigor já na semana que vem. Mas todos sabiam que o período de comentário público para empresas americanas acabaria na próxima quinta-feira. Como o senhor acha que as autoridades chinesas acompanham esse tipo de noticiário?

De fato, já havia um cronograma. É por isso que a China também anunciou a lista de US$ 60 bilhões em produtos americanos que está pronta para tarifar com alíquotas que vão de 5% a 25%. Pequim espera conseguir alguma negociação antes de isso se tornar uma realidade. Mas parece que não será o caso e a guerra vai escalar.

Se os EUA forem adiante com essa nova rodada, eles estariam tarifando um valor maior em produtos chineses do que o valor total das mercadorias americanas que a China importa...

Sim, e a especulação é que a China possa responder de outras formas. Por exemplo, ela pode bloquear ou interromper pacotes de turismo e ao mesmo tempo pode romper as operações de empresas americanas na China. Talvez eles mirem empresas específicas, bloqueando acordos, como fez com a Qualcomm.

Falou-se também do uso do yuan como uma arma na guerra comercial, mas as autoridades chinesas negaram.

Quero dizer porque o yuan provavelmente não será um arma. Em 2015, vimos aquela grande e singular depreciação do yuan e um par de grandes fluxos de saída de capitais da China. As autoridades chinesas não querem desencadear mais fluxos de saída, especialmente dada a desaceleração do crescimento. E eles têm o problema de endividamento com que querem lidar. Ter fluxos de saída teria um impacto adverso no setor bancário. Isso posto, eles podem ainda permitir alguma depreciação, mas serão muito cautelosos para não ferir os mercados e nem os residentes acharem que o yuan vai se depreciar muito.

O senhor vê a possibilidade de um entendimento entre os EUA e a China que possa reduzir a escala da disputa, que apenas se amontoou até agora?

Não neste momento. Não é o cenário-base. Quando fizemos nossas projeções, pusemos na conta muito dos efeitos das tarifas sobre US$ 200 bilhões em importações da China, porque pensamos que elas são muito prováveis. Agora, se iremos ou não para a eclosão total com tarifas dos EUA sobre todos os US$ 500 bilhões em mercadorias chinesas importadas... Isso seria realmente um movimento imenso, porque englobaria todos os bens de consumo que os EUA compram da China.

Se impostas pelos EUA, as tarifas sobre US$ 200 bilhões em produtos chineses já alcançariam bens de consumo, certo?

Certo. Acho que 25% desses US$ 200 bilhões são bens de consumo. E a razão pela qual é difícil avançar além disso é que, nos US$ 250 bilhões em importações da China restantes (após tarifados, além dos atuais US$ 50 bilhões, outros US$ 200 bilhões), a maioria é de bens de consumo. Se esse for o caso, é difícil imaginar o que Walmart fará.

Então, neste momento, nenhuma esperança por paz comercial?

No momento, nenhuma. Ao menos não antes das eleições de meio de mandato nos EUA. Depois delas, a possibilidade fica um pouco maior. Falando politicamente, as mid-terms são tudo em que Trump está se concentrando.

Um dos pontos-chave da guerra comercial com a China são as críticas dos EUA às transferências forçadas de tecnologia para empresas chinesas e o que chama de roubo de propriedade intelectual. O senhor vê em Pequim disposição para mudanças?

Recentemente, há um movimento interessante mesmo dentro da China, de que as empresas chinesas dão mais valor a ter direitos de propriedade intelectual mais fortes. Nos últimos anos, o número de patentes na China cresceu exponencialmente. O problema é a fiscalização. Mas agora autoridades olham para isso com mais seriedade, o que é benéfico à atual situação, especialmente sobre roubo de propriedade intelectual. As empresas estão dispostas a promover isso e o governo, a fiscalizar. (Mas) a velocidade com que isso vai progredir é outra história.

O senhor vê impactos na China a partir da atual aversão ao risco direcionada a ativos de mercados emergentes?

Sim. Os mercados de ações e as moedas na Ásia também estão, em geral, se depreciando. O impacto não é tão forte como na Argentina ou no Brasil. No entanto, isso começou a mudar depois de junho, quando Trump anunciou que imporia, sim, tarifas adicionais sobre bens chineses. Se você olhar para o yuan, ele estava bem estável na primeira metade do ano. Mas, recentemente, o dólar subiu de 6,2 yuans para 6,9 yuans em questão de semanas. Agora, parece que todos os países emergentes estão sujeitos a fatores diferentes que darão choques nos mercados de ações e nas moedas.

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