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MARIANA BAZO/REUTERS - 06/10/2015
MARIANA BAZO/REUTERS - 06/10/2015

‘Taxa de carbono ajudará a promover infraestrutura verde’, diz ex-economista-chefe do FMI

Em entrevista ao 'Estadão', o economista Maurice Obstfeld diz que é preciso um esforço conjunto para ampliar projetos de infraestrutura para incentivar uma economia sem emissão de dióxido de carbono

Ricardo Leopoldo, O Estado de S.Paulo

02 de julho de 2021 | 10h00

A adoção de um imposto sobre as emissões de carbono e de regulações federais contra gases que provocam o efeito estufa devem colaborar de forma expressiva para o avanço da infraestrutura verde nos Estados Unidos. A avaliação é de Maurice Obstfeld, ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI) e atualmente professor da Universidade da Califórnia, em Berkeley, em entrevista ao Estadão.

Obstfeld destaca como exemplo positivo de coordenação entre o governo americano e o Congresso em relação a questões climáticas a proposta bipartidária de ampliar o número de postos de recarga de veículos elétricos em nível nacional.

De acordo com Maurice Obstfeld, o Departamento do Tesouro americano pode ajudar a apontar riscos à estabilidade financeira com mudanças climáticas e solicitar a instituições financeiras considerar esta questão. Ele ressalta ainda que, embora atrasado em relação ao Banco Central Europeu (BCE), o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) deve ajudar nesse processo. "Mas esta é uma tarefa em primeiro lugar da política fiscal e investimentos do governo para enfrentar esta crise", pondera.

Segundo o acadêmico, os países emergentes precisarão de ajuda das economias avançadas para ampliarem a infraestrutura verde e dependerão também do progresso da tecnologia nas nações mais ricas.

Obstfeld ressaltou que o FMI e o Banco Mundial são órgãos multilaterais adequados que podem colaborar no aumento de investimentos globais para combater as mudanças climáticas. Ele apontou que os EUA poderiam auxiliar com o aumento de verbas para que tais instituições ampliem seus orçamentos para este fim, mas ressaltou que dependerá da aprovação do Congresso. Leia a seguir, os principais trechos da entrevista.

O senhor acredita que os EUA adotarão logo um imposto sobre a emissão de carbono? 

Devido à atual configuração do Congresso,  não vejo a adoção de um imposto sobre a emissão de carbono como prioridade. A administração do ex-presidente Barack Obama tentou implementar no início de seu mandato um sistema de comércio de carbono (compra e venda de créditos de C02 entre empresas), mas fracassou. A abordagem que os EUA têm adotado é diferente da implementada na Europa, onde há maior foco em regulações, como limites para emissões de gases que provocam o efeito estufa, entre eles monóxido de carbono e metano. Mas já há um aperto destas regras nos EUA. Normas sobre emissões de metano, suspensas pela administração do ex-presidente Donald Trump, provavelmente vão voltar. Eu espero mais ações nestas frentes. Há os padrões de emissões de gases pelos automóveis introduzidos pela administração Obama que também retornarão. Contudo, muitas indústrias que produzem veículos já definiram voluntariamente um prazo para fabricar somente automóveis sem emissão de C02.

Se os EUA não adotarem um imposto sobre a emissão de carbono durante a administração do presidente Biden, o que acontecerá com este imposto em termos mundiais, sem sua implementação na maior economia do mundo?

Certamente faz sentido para outros países implementarem uma taxa para a emissão de carbono se seus sistemas políticos a aceitarem. O que provavelmente veremos é que a União Europeia poderá anunciar em julho um movimento em direção à adoção de mecanismos de ajustes de carbono na fronteira, o que basicamente é um imposto sobre importados de países que não adotam a taxa de carbono e que tributará o conteúdo de C02 (utilizado na fabricação) destes produtos. Esta poderá ser uma substancial fonte de tensão comercial entre países. Ao invés de ir em direção a conflitos comerciais, seria importante para países ficarem em harmonia em relação à intensidade de seus esforços para limitar emissões de carbono do que adotar mecanicamente tributações sobre (conteúdo) de carbono.

A administração do presidente Biden mudou as diretrizes do governo dos EUA sobre questões ambientais para uma abordagem de combate às mudanças climáticas. O que a administração federal pode fazer mais para avançar sobre este tema?

É preciso haver um esforço conjunto para avançar nos EUA a infraestrutura verde. Um imposto sobre carbono e regulações relativas a emissões de C02 poderiam viabilizar este objetivo, mas provavelmente não serão suficientes. Mesmo que fosse adotado um imposto sobre carbono no país, é provável que a alíquota que seria estabelecida não seria o bastante para gerar um nível necessário para retirar carbono da economia. O imposto de carbono combate algumas externalidades geradas pelo C02, mas não corrige todas, pois quando é emitido este gás não são considerados muitos efeitos negativos sobre o meio ambiente. Há externalidades que não são resolvidas com mecanismo de preços. Neste caso, talvez seria necessário um maior nível de coordenação governamental e intervenção.

Um exemplo são veículos elétricos. O recente plano de infraestrutura desenhado por um grupo bipartidário de 10 senadores considera mais recursos para estações de recarga destes automóveis pelo país. Isto é bem importante, pois não ajudaria muito ter veículos elétricos sem ter postos suficientes para recarregá-los. Este é um problema de infraestrutura que a administração Biden reconhece. Mesmo se houver estações de recarga em número adequado, se a eletricidade que elas fornecerem for gerada por usinas movidas a carvão não haverá redução de emissões em comparação com uso normal da tradicional gasolina.

Há um outro aspecto relacionado com economias emergentes, que têm grandes necessidades de obras de infraestrutura. Convencê-las a adotar apropriadas infraestruturas verdes desde o começo provavelmente requererá assistências de países mais ricos e também estará vinculado a avanços de tecnologias nas economias avançadas. Se as grandes indústrias de veículos não estão produzindo automóveis (elétricos) com preços razoáveis, isto afetará as escolhas de infraestrutura de países em desenvolvimento. Há uma grande necessidade de uma discussão global sobre este tema.

O FMI defende que a taxa de carbono seja de US$ 75 por tonelada. O senhor teria uma estimativa sobre qual seria o melhor número para este tributo?

Não vou comentar sobre um número específico, pois deve ficar próximo do que a administração Biden deverá anunciar. Uma das questões em relação a estes números é que como o dióxido de carbono continua na atmosfera por um tempo muito longo, os danos são muito persistentes por gerações e é preciso descontar futuros danos. E a taxa de desconto que é utilizada é fundamental para definir a taxa de carbono. Estes números são úteis, mas podem estar perdendo o foco de que precisamos de muito mais políticas vigorosas numa ação mundial. Pode ser que o aquecimento global possa gerar logo resultados catastróficos e precisamos avaliar a questão além da análise custo-benefício. É tão claro que os benefícios são enormes para evitar desastres naturais, como secas e queimadas no oeste dos EUA.

O Banco Central Europeu (BCE) está avançando a política monetária para combater mudanças climáticas, especialmente com análises de empréstimos concedidos por bancos em projetos que podem apresentar riscos ambientais. O Federal Reserve está atrasado em adotar medidas nesta área?

O Federal Reserve está crescentemente reconhecendo os riscos de mudanças climáticas e a necessidade de considerá-los para avaliar a estabilidade financeira, mas certamente está atrás do ponto em que está o BCE. Eu não gostaria de superestimar o que os bancos centrais podem fazer em relação a questões climáticas. Se suas ações forem efetivas na margem seria positivo. Claro que é apropriado insistir que os riscos ambientais sejam incluídos em avaliações de estabilidade financeira. Mas esta é uma tarefa, em primeiro lugar, da política fiscal e investimentos do governo para enfrentar esta crise. As mensagens dos bancos centrais são muito úteis, mas não será com elas que a batalha será vencida.

O senhor avalia que é importante criar uma Agência Internacional do Clima para acelerar investimentos contra mudanças climáticas? Ou instituições como o FMI, Banco Mundial e ONU são eficientes para atuar nesta questão?

Demora um certo período para construir novas instituições e criar suas culturas. Mas nós não temos tempo. Penso que todos os países, incluindo China e EUA, acreditam que é necessária a cooperação em relação à proteção ambiental. Eu acredito que seria mais sábio coordenar ações climáticas e há instituições internacionais com tradição de cooperação entre países. Poderia ser o Banco Mundial ou o FMI. Ambas instituições expressaram claros compromissos para atuar contra mudanças climáticas. Eu sugeriria fortalecer um arcabouço institucional que já temos ao invés de criar algo novo. O FMI está em uma longa jornada nos últimos seis anos trazendo questões climáticas para o topo de sua agenda, bem com o Banco Mundial. Vamos construir sobre a expertise destas instituições e deixar que elas também desenvolvam mais conhecimentos nesta área, pois mudanças climáticas são ameaças de curto e longo prazos para a economia global.

Para que estas instituições tenham mais fundos para combater mudanças climáticas precisarão da liberação de recursos de seus principais países membros, certo?

Sim, acredito que seria necessário algum aumento do orçamento destas instituições. Posso falar da minha experiência no FMI. Os EUA, na administração Trump, não estavam desejando se mover nessa direção.

O senhor avalia que a administração Biden se moverá nesta direção?

Sim, acredito que isto seria algo que poderia ser atingido. Claro que precisaria da aprovação do Congresso.

 

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