Alex Silva/Estadão - 20/6/2020
Movimento na Rua 25 de Março, no centro de São Paulo: caiu o número de trabalhadores informais no trimestre encerrado em julho. Alex Silva/Estadão - 20/6/2020

Taxa de desemprego chega a 13,8% no trimestre encerrado em julho, a maior desde 2012

Segundo o IBGE, faltou trabalho no País para 32,892 milhões de pessoas, somados todos os subutilizados, sendo 13,1 milhões deles desempregados

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2020 | 09h13
Atualizado 30 de setembro de 2020 | 22h26

RIO - O mercado de trabalho segue em deterioração no País. Em apenas um trimestre, 7,214 milhões de brasileiros perderam o emprego. Em um ano, o total de postos de trabalho extintos supera 11,5 milhões. A taxa de desemprego subiu para 13,8% no trimestre encerrado em julho, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), divulgada nesta quarta-feira, 30, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O resultado é o pior em quase 30 anos, mostram cálculos dos pesquisadores Bruno Ottoni e Tiago Barreira, da consultoria IDados. Eles compatibilizaram informações das extintas Pnad Anual e Pesquisa Mensal de Emprego, ambas também do IBGE, para construir uma série histórica com início em 1992 a partir dos registros de ambas, que fosse compatível com a Pnad Contínua.

 

“O último recorde da taxa de desocupação tinha sido em março de 2017, quando alcançou 13,7%. Naquele momento a gente já sabia que era o pior resultado desde 1992. Lá se vão três anos, e atingimos novo recorde, 13,8%. Nunca houve uma taxa de desemprego tão alta assim desde então”, lembrou Ottoni.

Faltou trabalho no País para 32,892 milhões de pessoas, somados todos os subutilizados, sendo 13,1 milhões deles desempregados. A pesquisa do IBGE, que segue recomendações internacionais, só considera como desempregado quem de fato tomou alguma atitude para encontrar uma vaga. Embora a demissão de trabalhadores tenha sido massiva, o número de pessoas desempregadas aumentou em apenas 561 mil em relação a um ano antes. A maioria das pessoas que perderam emprego foi para a inatividade: em apenas um ano, 14,134 mil brasileiros a mais não estão trabalhando nem estão em busca de emprego, totalizando um ápice de 78,956 milhões.

“A gente observa uma frequência muito grande de pessoas alegando a questão da pandemia para não fazer a busca por trabalho”, contou Adriana Beringuy, analista da Coordenação de Trabalho e Rendimento do IBGE.

A explosão da população inativa foi o que ajudou a conter uma alta ainda maior na taxa de desemprego, que estava em 11,8% no trimestre encerrado em julho de 2019.

“A tendência é que piore (a taxa de desemprego), pelo menos até março do ano que vem. A gente tem que lembrar que vai acabar o auxílio emergencial. Mesmo que venha a Renda Cidadã, vai ser muito menor, não vai alcançar tantas pessoas como hoje se for aprovada. Vai acabar também o programa de sustentação do emprego. E o início do ano é tradicionalmente um período de demissões”, justificou Ottoni.

Os inativos que não procuram emprego em função da pandemia não são contabilizados no desalento - quando alguém deixa de buscar emprego por achar que não conseguirá uma vaga, por exemplo. Ainda assim, o desalento alcançou um recorde de 5,797 milhões de pessoas em julho, 966 mil a mais que um ano antes, um salto de 20%.

“Tem uma piora no mercado de trabalho, então o desalento acaba crescendo junto”, justificou Adriana. “A pessoa tem até potencial de fazer parte da força de trabalho, mas não fez busca efetiva porque não vê no mercado de trabalho condições favoráveis para a sua ocupação”.

No trimestre encerrado em julho, 2,822 milhões de trabalhadores com carteira assinada no setor privado foram dispensados, fazendo esse contingente de empregados formais descer ao menor patamar da série, 29,385 milhões.

A economista Lisandra Barbero, da XP Investimentos, explica que a perda de empregos formais pode ser creditada ao fim dos programas de auxílio à sustentação dessas vagas, como o Benefício emergencial de Preservação do Emprego e da Renda (BEm).

"Esses programas conseguiram conter boa parte das demissões dos formais desde abril, mas agora, aparentemente, esses contratos começaram a chegar em um prazo de validade", afirmou Lisandra.

A queda no emprego formal fez o total de pessoas contribuindo para a Previdência Social descer a 54,041 milhões no trimestre encerrado em julho, piso histórica na pesquisa do IBGE. Em apenas um trimestre, 3,406 milhões de pessoas deixaram de contribuir para a Previdência Social no País. Se considerados os últimos dois trimestres, ou seja, o patamar de janeiro deste ano, há 5,34 milhões de contribuintes a menos.

"A perda de carteira (assinada no setor privado) leva à perda de arrecadação previdenciária", justificou Adriana Beringuy, lembrando que a perda de trabalho e de renda dos profissionais que atuam na informalidade também reduz as contribuições individuais desses trabalhadores.

Em um ano, o setor privado demitiu 3,760 milhões de trabalhadores com carteira assinada.

“São perdas importantes não apenas quantitativas, mas qualitativas. Há perda muito acentuada de trabalho com carteira. Esse trabalho com carteira tem uma dificuldade de se recompor, diferentemente do trabalho informal, que sai (do mercado de trabalho) rápido, mas também volta rápido”, avaliou Adriana Beringuy.

Para Thiago Xavier, analista da Tendências Consultoria Integrada, os dados corroboram “a expressiva e rápida deterioração do mercado de trabalho durante a pandemia”.

“O contexto de isolamento social e os programas de transferências de renda, por sua vez, incentivaram provisoriamente aqueles que perderam seus postos a permanecerem economicamente inativos, ou seja, fora do mercado de trabalho”, apontou Xavier.

O analista prevê um crescimento moderado da população ocupada nos próximos meses, mas um aumento também da taxa de desemprego, com o retorno dos inativos à busca por trabalho. A Tendências estima que a taxa de desocupados supere 15% ao fim deste ano./COLABOROU GREGORY PRUDENCIANO.

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Brasil cria 249 mil empregos formais no melhor agosto em 10 anos, mas 850 mil foram demitidos no ano

Segundo o Ministério da Economia, foi o segundo mês consecutivo de geração de empregos formais

Lorenna Rodrigues, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2020 | 14h58
Atualizado 30 de setembro de 2020 | 20h01

BRASÍLIA - A economia brasileira abriu 249.388 vagas de emprego com carteira assinada em agosto, informou nesta quarta-feira, 30, o Ministério da Economia. No mês passado, foram contratados 1.239.478 trabalhadores formais e demitidos 990.090.

Esse foi o segundo mês consecutivo de geração de empregos formais e também o melhor resultado para meses de agosto desde 2010.

No acumulado dos oito primeiros meses deste ano, as demissões superaram as contratações em 849.387 empregos formais.

As demissões refletem o impacto da pandemia de covid-19, que empurrou a economia mundial para uma forte recessão. Nos últimos meses, porém, indicadores domésticos do nível de atividade indicam uma retomada da economia.

Setores e regiões

A abertura líquida de 249.388 vagas de trabalho com carteira assinada em agosto foi resultado do desempenho positivo dos cinco setores da atividade econômica no mês passado.

De acordo com os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), houve um saldo positivo de 92.893 vagas na indústria em agosto. A construção gerou 50.489 novos postos de trabalho; o comércio registrou 49.408 vagas; o setor de serviços teve saldo positivo de 45.412 vagas; e a Agropecuária teve saldo positivo de 11.213 vagas.    

Em agosto, as cinco regiões do País também registaram saldo positivo. O melhor resultado foi o do Sudeste, com saldo positivo de 104.702 vagas. Já o Norte gerou 22.272 postos com carteira assinada.  

A região Nordeste teve saldo positivo de 62.085 vagas; o Sul registrou 42.664 novos postos; e o Centro-Oeste contabilizou 17.684 vagas.

Todos os Estados registraram saldo positivo. Os destaques foram São Paulo (64.552 novas vagas), Minas Gerais (28.339 vagas) e Santa Catarina (18.375 vagas).

O salário médio de admissão nos empregos com carteira assinada foi de R$ 1.725,62 em agosto, o que representa uma relativa estabilidade em relação a julho. 

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'Fui escolhida para reduzir o quadro de funcionários', diz operadora de caixa

Demitida de loja no centro do Rio após dez meses de trabalho, Sabrina Torres, de 27 anos, já planeja mudança de Estado e passou a produzir acessórios para manter a renda

Érika Motoda, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2020 | 22h21

Sabrina Torres, 27 anos, foi operadora de caixa durante dez meses em uma loja no centro do Rio de Janeiro até abril deste ano, quando foi demitida por causa da pandemia do coronavírus. “Meu amigo, que também trabalhava lá, me ligou avisando que tinha sido demitido. Assim que ele desligou, minha supervisora me avisou que eles precisariam reduzir o quadro de funcionários e eu tinha sido escolhida.”

Com a demissão, ela precisou entregar a casa onde morava de aluguel com o namorado, que era barman em um restaurante no aeroporto do Galeão, mas foi demitido em janeiro deste ano. Ele foi morar com a mãe dela em Natal (RN), para onde Sabrina planeja ir no fim de outubro para ter um pouco mais de estabilidade.

Desde então, mora na casa de uma amiga. Durante a semana, produz acessórios para as encomendas que recebe e também para vender em Ipanema nos fins de semana. Ela disse que consegue cerca de R$ 100 com a venda dos acessórios na praia.

Vitória Mendes, 20 anos, estava prestes a completar um ano como estagiária para, então, ser efetivada no escritório de um SPA médico em São Paulo, mas a estudante de administração foi demitida por vídeo chamada no início de maio e, dois meses depois, voltou para a casa dos pais, em Santa Catarina

A retomada dos planos, de estudar e trabalhar, porém, vai depender do aquecimento do mercado de trabalho: “Por estar na casa dos meus pais, não me falta nada. Mas não é algo que eu queria depois de ter passado anos morando sozinha, de ter meu emprego e, agora, não ter nada, nem perspectiva”, disse. 

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'É preciso um seguro para ajudar na transição', diz economista

Para Sérgio Firpo, governo deve elaborar alguma política social que possa apoiar aqueles que buscarem por um emprego no pós-pandemia

Entrevista com

Sérgio Firpo, professor do Insper

Cleide Silva, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2020 | 22h21

A taxa de desemprego vai continuar alta, principalmente quando a economia der mais sinais de retomada e os desalentados voltarem a buscar vagas. Para o professor do Insper, Sérgio Firpo, especialista em mercado de trabalho, é preciso criar um “seguro” para ajudar na transição do pós-pandemia do coronavírus. Veja trechos da entrevista:

Como avalia o último Caged?

Um dos dados mais preocupantes é o número de pessoas que não têm interesse em buscar emprego. Dada a dificuldade, estão desalentadas. Muitos têm sobrevivido com o auxílio emergencial e até estão melhores agora, em termos de renda, do que antes.

O que vai ocorrer quando o auxílio diminuir ou acabar?

As pessoas vão voltar a procurar emprego e não vai ter vagas para todos. A taxa de desemprego será ainda maior.

Como amenizar esse quadro?

Nosso problema é a alta informalidade, em parte pela rigidez do mercado de trabalho que proíbe a redução de salários em contratos formais. Isso vai fazer com que, na retomada, inicialmente as vagas serão informais e só mais para frente poderão ser formalizadas. Vai ter muita gente sem capacidade de gerar renda, e o País precisaria ajudá-las nessa transição.

De que forma?

É preciso uma política social que permita à massa que vai demorar a achar emprego sobreviver. Deveria ser criado um tipo de seguro para as oscilações da renda – o trabalho informal um dia está bem, no outro não. Hoje tem Bolsa Família, auxílio emergencial, mas não tem algo que compense essa oscilação que leva a pessoa a entrar e sair do status de pobreza.

Como seria esse seguro?

É complicado ter uma política social única. O Renda Mínima deveria ter outro programa associado, transitório, com adaptação para o mercado de trabalho. Mas acredito que esse tipo de programa ficará para depois, pois a ideia do governo é turbinar o Bolsa Família e arrumar um espaço fiscal sem furar o teto de gastos. Talvez ele não fure, mas caia da bicicleta.

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'Recuperação rápida do emprego é uma ilusão', aponta sociólogo

Para José Pastore, mercado de trabalho não terá uma rápida retomada em 'V', mas sim, uma recuperação lenta e desigual nos diferentes setores

Entrevista com

José Pastore, sociólogo da USP e da Fecomércio-SP

Douglas Gavras, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2020 | 22h21

Para o professor da Universidade de São Paulo e presidente do Conselho de Emprego da Fecomércio-SP, José Pastore, a retomada do mercado de trabalho após a pandemia não será em “V” – de forte queda e rápida recuperação. Ele espera a volta lenta do emprego e desigual nos diferentes setores. A seguir, trechos da entrevista:

Como avaliar os dados de desemprego de julho?

Os números são desastrosos, mostram que praticamente tudo piorou. A população ocupada caiu 12,3% em relação ao ano passado. O nível de ocupação, encolheu quase pela metade. Não é surpresa, já que a pandemia foi muito severa, mas não deixa de assustar.

Fica clara a necessidade de o governo agir para que a recuperação seja mais forte? 

Sim. O trabalho informal, por exemplo sumiu. É uma coisa dramática, que nos leva à necessidade de alguma política para o começo do ano. O ministro Paulo Guedes (da Economia) fala em recuperação em ‘V’, mas o mercado de trabalho não vai reagir tão depressa. Talvez tenha idas e vindas, e esse ‘V’ acabe virando um ‘W’.

Os setores devem se recuperar em ritmos diferentes?

Já estão assim. O agronegócio continua bem e, ainda que não gere tantos empregos, ele cria postos indiretos nas comunidades em que está inserido. É um fator positivo para o ano que vem. O governo chegou a falar em reativar a reconstrução de casas populares e as obras paradas, o que seria positivo. O transporte de cargas também já parou de demitir. Os supermercados e farmácias estão mantendo os empregos.

E quais setores ainda vão mal e preocupam?

Escolas particulares, por exemplo, perderam muitos alunos e se espera uma demissão em massa no começo do ano. O mesmo com a saúde privada, com a redução no número de usuários dos planos médicos. E, é claro, o setor de turismo e hotelaria, que falam em recuperação só em 2024.

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