ALEX SILVA|ESTADÃO
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Taxa de desemprego dobrou em apenas quatro anos

Shirley Moraes trabalhava há três anos como consultora de negócios na empresa de telefonia TIM, em Recife. Há um mês, foi demitida. Já enviou currículos para vários sites de emprego e, por ter curso superior em Marketing e experiência na área, espera ser chamada em breve. Ainda assim, por precaução, começou a cortar despesas. Passou para uma academia de ginástica mais barata. Já pensa que, em caso de aperto, pode vender o segundo veículo da família, que ainda está sendo pago, e ficar apenas com o que já está quitado. Em último caso, vai tirar o filho da creche particular, que custa R$ 750 por mês. Ela tem vários parentes e amigos sem emprego. Como se fosse da noite para o dia, o mercado de trabalho simplesmente virou. “Muitas pessoas estão sendo demitidas. Na minha empresa, disseram que foi por causa de uma reestruturação organizacional, mas acho que foi por causa da crise mesmo.”

Alexa Salomão / TEXTOS Alex Silva / FOTOS ENVIADOS ESPECIAIS / RECIFE, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2016 | 17h59

A desconfiança de Shirley tende a ter fundamento. Na Pesquisa Mensal de Emprego (PME) do mês passado, com dados até fevereiro, o desemprego na região metropolitana do Recife foi a 10,4%. Por diferentes razões, o número é impressionante. Primeiro, porque está acima da média das seis regiões pesquisadas, que ficou em 8,2%. Segundo, por ser a segunda maior taxa na pesquisa. Só perdeu para Salvador. Terceiro, porque a taxa simplesmente dobrou em apenas quatro anos. Em 2012, bateu em 5,1%, o patamar mais baixo para a região do Recife desde o início da PME. Era o pleno emprego e havia um apagão de mão obra no Estado. A PME foi extinta pelo IBGE no mês passado, mas ela permite a comparação histórica.

Naquele momento, o Nordeste, de forma geral, e Pernambuco, em particular, viviam um boom de investimentos. Em 2011, a estimativa era que até 2015 Pernambuco sozinho receberia algo como R$ 55 bilhões em investimentos. Empresas locais se queixavam da falta de profissionais qualificados nas mais diversas áreas.

Crise. Como bem percebeu Shirley, houve uma inversão. Segundo o diretor de políticas sociais da CUT em Pernambuco e secretário nacional da central, Expedito Solaney, sobram pessoas e faltam vagas. “Já vimos a queda no setor da construção, na indústria e agora estamos assistindo ao fechamento de postos no comércio e em call centers, que servem de primeiro emprego e ocupam trabalhadores com formação mais básica”, diz. “Mas também houve o fechamento de agências bancárias e há gente sem trabalho com MBA e especialização em finanças.” Solaney atribui a degringolada a erros na política econômica. “O ano de 2015 começou com a luz amarela, porque havia sinais de retração, e terminou com a vermelha no mercado de trabalho”, avalia. “O segundo mandato de Dilma era para ser o momento da virada, de o Estado entrar induzindo a economia para gerar emprego, mas começou errado e nada foi feito.”

Pesa também, na opinião de Solaney, o clima político. A insegurança criada em relação à permanência do atual governo paralisou os investimentos em todo o País: “Espalhou o marasmo”. Com a solução do impasse em Brasília, ele acredita que o cenário melhora.

O contador Alexandre Aguiar, que perdeu o emprego no comércio, já não tem a mesma certeza. “Eu vejo pessoas de todas as classes sociais sendo demitidas, sem dinheiro ou expectativa de encontrar um novo emprego, porque as vagas são fechadas sem que outras surjam”, diz. Enquanto faz bicos, em casa mesmo, passa o pente fino nas contas: o plano do celular, a internet e até a cesta de compras no supermercado foram reavaliados. “Voltei a olhar o preço de cada produto até na feira, coisa que eu não fazia mais”, diz. Sua prioridade neste ano foi garantir o colégio particular do filho: “Quitei o ano e, lá na frente, em 2017, se não melhorar, eu vejo o que faço”.

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