Ryan Rayburn/FMI
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Covid-19

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'Taxa de desemprego real nos EUA já chega a 25%', diz Barry Eichengreen

Para economista, PIB do país deve cair 5,9% em 2020, assim como previsto pelo FMI; ele também diz estar 'cauteloso' quanto a descoberta de uma vacina

Entrevista com

Barry Eichengreen, professor na Universidade da Califórnia

Ricardo Leopoldo, correspondente, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2020 | 10h00

NOVA YORK - A profunda recessão que os Estados Unidos estão enfrentando por causa da pandemia de coronavírus já levou a taxa de desemprego do país, na prática, para perto de 25%, semelhante à registrada na Grande Depressão dos anos 1930. A afirmação é do professor Barry Eichengreen, da Universidade da Califórnia, em Berkeley. Em abril, tal indicador saltou para 14,7%, mas Eichengreen destaca que há mais 5% de pessoas desempregadas que as estatísticas oficiais apontam que "não estão trabalhando por outros motivos" e mais 5% que estão em desalento por causa da crise e, portanto, não buscam vagas no mercado.

O professor acredita que a queda do Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA neste ano será aguda, de 5,9%, como prevê o Fundo Monetário Internacional (FMI). Ele destaca que o país ainda está bem distante de adotar medidas eficientes para combater a doença, como um aumento substancial de testes e rastreamento de pessoas contaminadas pelo novo vírus e também que é necessário a descoberta e administração de uma vacina. Para 2021, ele aponta que poderá ser registrado um crescimento de 2% do PIB, mas será uma marca baixa e insuficiente para reduzir a taxa de desemprego.

Para Barry Eichengreen, o fator essencial para a recuperação da economia dos EUA, alguns anos à frente, será a descoberta de uma vacina contra o coronavírus, pois só ela retomará a normalidade do cotidiano das pessoas e das empresas. Ele está "cauteloso" de que tal vacina estará à disposição do público entre 12 e 18 meses, como apontam autoridades do governo americano. Abaixo, os principais trechos da entrevista.

Qual é a avaliação do senhor sobre a recessão nos EUA, que levou a taxa de desemprego a 14,7% em abril, a maior desde a Grande Depressão?

A taxa real de desemprego é consideravelmente superior à marca anunciada de 14,7% de abril e ela pode estar perto de 25%. O Escritório de Estatísticas do Trabalho (BLS, na sigla em inglês) aponta em seu relatório que há 5% da força de trabalho que não está trabalhando por outros motivos? e provavelmente são pessoas desempregadas. Além disso, há 5% adicionais de cidadãos em desalento com a atual recessão, que não estão procurando emprego e são apontados como pessoas que abandonaram a força de trabalho. Essa é a notícia muito ruim. A boa notícia é que metade dos desempregados é de pessoas dispensadas temporariamente e que esperam voltar a trabalhar logo. Se estas expectativas estiverem corretas, elas poderão retornar ao recente emprego antes do que normalmente ocorre quando acontece um aumento muito grande da taxa de desemprego.

Como deverá ocorrer a recuperação da economia dos EUA?

A capacidade de recuperação da economia dos EUA dependerá basicamente da forma como será enfrentada a pandemia, com distanciamento social, rastreamento das pessoas contaminadas e adaptação da atividade de empresas à realidade imposta pelo novo vírus. Tudo isso será muito mais importante do que políticas monetária e fiscal. Esta é uma crise diferente, na qual as pessoas ficarão com medo de consumir e de ir ao trabalho se não for enfrentado o problema da doença. Tudo o que fizermos em relação a gastos do governo e ações do banco central serão secundárias ou quase irrelevantes se não for atacada a emergência pública. A política monetária adotada nos EUA funcionou para evitar a desestabilização dos mercados financeiros. A política fiscal ajuda a colocar comida na mesa de quase um quarto da mão de obra nos EUA, que na prática já está desempregada. Foram adotadas medidas para ajudar pequenas empresas, como restaurantes, para evitar fechar completamente suas portas. Mas infelizmente ocorrerá a falência de muitos destas companhias.

Como o senhor avalia o processo de reabertura da economia dos EUA?

A realização de testes para detectar pessoas contaminadas é muito importante para retomar as atividades da economia, mas o governo dos EUA está ainda realizando um nível inferior de exames per capita do que ocorre em outros países. Eu acredito que a administração federal não identificou ainda quais são os gargalos para aumentar bastante a produção destes exames e também não acredito que as empresas já têm capacidade para testar seus funcionários nos locais de trabalho quando chegam pela manhã. Eu não penso que a economia dos EUA terá condições de se recuperar de forma sustentável sem um numero muito maior de testes para covid-19.

Quanto deve cair o PIB dos EUA neste ano e quanto deve chegar o pico da taxa de desemprego nos próximos meses?

Eu não ficaria surpreso se a taxa de desemprego atingisse o patamar da Grande Depressão, quando chegou a 25%. A maioria dos Estados americanos está permitindo que as pessoas voltem a trabalhar, mas a situação de saúde pública é muito delicada e a administração do presidente Donald Trump reconhece que o número de mortes pode ser bem maior (134 mil em agosto) do que foi estimado anteriormente (70 mil). Poderá ocorrer um novo fechamento dos Estados e retração do nível de atividade, especialmente com uma nova onda da doença. É possível que a taxa de desemprego atinja um patamar entre 15% e 20% e poderá subir para 25% no verão ou outono. Em relação à queda do PIB dos EUA neste ano, o melhor cenário é uma retração de 5,9% como é previsto pelo Fundo Monetário Internacional. É viável ser ainda pior se políticas públicas forem incompetentes para lidar com a pandemia.

Como o senhor avalia a responsabilidade da administração federal sobre o desempenho da economia neste ano?

As autoridades não reconheceram que está crise é diferente das anteriores e requer diferentes respostas. O Federal Reserve (Fed, o banco central americano) entendeu em 2008 o que o banco central deveria fazer para combater os riscos, na ocasião, para o sistema financeiro e também atuou de forma correta recentemente, até de maneira mais agressiva e dramática do que há 12 anos. O Congresso também aprendeu, na experiência de 2008/2009, que, quando os gastos privados desaparecem, é necessário o aumento das despesas públicas para substituí-los. Mas estes fatores não são os mais importantes na atual conjuntura, pois há uma pandemia que não víamos desde 1918. Os nossos líderes não entenderam a natureza da emergência de saúde pública, desmantelaram partes importantes dos serviços desta área e denegriram opiniões de cientistas. Há paralelos em relação aos casos dos EUA e do Brasil. A administração federal americana poderia ter feito um trabalho muito melhor para conter a crise gerada pelo coronavírus se tivesse atuado de forma semelhante como os governos da Coreia do Sul e da Alemanha, adotando medidas mais cedo e agindo de forma abrangente. O presidente Trump determinou no início de fevereiro o corte dos voos da China para os EUA, mas o vírus já estava aqui, pois aparentemente veio da Europa e não do país asiático. Perdemos um mês e meio para agir e, quando o governo federal começou a atuar, já era tarde demais para adotar medidas preventivas, o que vai resultar agora em maciça recessão e desemprego muito alto.

Quais são as perspectivas para a retomada dos EUA em 2021?

Se você afirmar que haverá vacinas disponíveis no próximo ano, eu poderei dizer quais são as perspectivas para a retomada. Sem vacinas, as expectativas para a recuperação são muito ruins. As pessoas ficarão relutantes para fazer compras, ir ao trabalho, as companhias terão dificuldades para investir. Os empregados de empresas terão produtividade menor trabalhando em casa do que nos escritórios. Viagens de avião, trem e ônibus continuarão impossíveis. Nestas circunstâncias, a recuperação será extremamente lenta e frustrante. Após a economia inteira ser fechada, o que foi basicamente o que ocorreu nos EUA, a atividade começará a ser retomada devagar. Mas sem a capacidade de realizar testes para definir quem está ou não contaminado pela doença, se não há retorno da confiança das famílias e das empresas, o que não ocorrerá enquanto não houver testes e vacinas em grande magnitude, apenas alguns setores da economia voltarão a funcionar. Sua pergunta implica que a economia depois de certo tempo voltará ao normal. Mas há outro cenário: não será descoberta uma vacina e isso nunca ocorrerá. Muitos cientistas apontam que há significativas chances de que uma vacina contra o coronavírus nunca será descoberta e que ele continuará conosco por anos. Eu penso que devemos considerar de forma séria nesta possibilidade, o que significa que a economia nunca voltará ao que foi registrado em 2019. Há muitas doenças que existem por diversos anos e ainda não foram descobertas vacinas contra elas.

No caso da descoberta da vacina e ela estar disponível ao público em de 12 a 18 meses, como aponta Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Doenças Infecciosas e Alergias, quanto os EUA poderão crescer em 2021?

Eu presto atenção em cientistas que apontam que não há garantia de que em um ano teremos uma vacina contra o novo vírus. Eu interpreto os comentários do Dr. Fauci da mesma forma que eu avalio as estimativas do FMI de que os EUA vão contrair 5,9% neste ano, pois ambas são previsões no melhor cenário. O surgimento da vacina pode demorar metade do que o Dr. Fauci prevê, mas também poderá nunca ocorrer. Estou cauteloso sobre o surgimento de uma vacina entre 12 e 18 meses.

Qual seria o melhor cenário para a economia dos EUA no próximo ano?

Ele dependerá se as autoridades adotarão posturas sérias sobre a realização de testes para covid-19 e rastreamento de pessoas contaminadas. Também dependerá do sucesso para produzir uma vacina. O que é possível dizer é que a recuperação dos EUA em 2021 não será em formato de 'V'.

Será viável o PIB dos EUA crescer 2% em 2021? 

Se falamos de uma retração próxima de 6% em 2020 e podemomos reabrir um terço da economia no próximo ano, então é viável crescer 2%. Mas não será um sinal de sucesso e não será suficiente para trazer a taxa de desemprego para baixo.

Com os estímulos adotados pelo Fed e pacotes fiscais, a recuperação dos EUA poderá ocorrer de forma mais ampla em 2 ou 3 anos?

Com uma vacina eficiente muitas coisas serão possíveis. Mas será preciso que a vacina seja adotada em termos mundiais, pois as pessoas viajam para diferentes continentes. Este processo demandará grande trabalho para sua produção e administração em todo o planeta e será essencial para a economia se normalizar.

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