Taxa de inflação detona escândalo político na Argentina

A substituição da diretora do Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec) da Argentina, responsável pela medição do Índice de Preços ao Consumidor (IPC), tornou-se um escândalo político no país. Depois de emitir uma nota de repúdio à nova diretora indicada pela ministra de Economia, Felisa Miceli, os funcionários do instituto ameaçam "revelar o verdadeiro índice de inflação". Eles explicaram que se na próxima segunda-feira, data prevista para o anúncio da inflação de janeiro, o governo anunciar uma cifra diferente da que estava sendo estimada pelos técnicos, eles vão revelar os dados sobre a evolução dos preços no país.O escândalo teve início na última segunda-feira, quando o governo de Néstor Kirchner decidiu demitir Graciela Bevacqua, a funcionária de carreira que calculava o IPC. Em seu lugar, nomeou Beatriz Plagieri, uma estreita colaboradora da ministra Miceli e do secretário de Comércio Interior, Guillermo Moreno, chamado ironicamente pelos empresários e economistas de "xerife dos preços". As suspeitas são de que a saída de Graciela e a entrada de Beatriz tenha sido uma manobra para que os números da inflação não superem os desejados pelo governo em um ano de eleições presidenciais.Os técnicos do Indec argentino projetam uma inflação de janeiro entre 2% e 2,1% por causa do aumento dos planos de saúde. Mas eles denunciam que a intenção do governo é de não incluir esses aumentos nos cálculos, o que baixaria a taxa de janeiro para algo entre 1,3% e 1,5%, em sintonia com as projeções oficiais da ministra Miceli. A questão que se abre agora é se o governo aceitaria validar uma inflação elevada para apaziguar os ânimos do escândalo ou se levará adiante sua empreitada de manipular os números do IPC.O assunto vem crescendo nas últimas horas, tanto que o próprio presidente Kirchner fez uma defesa da posição de seu governo ao dizer em discurso que "alguns ardilosos querem nos assustar com a inflação". Porém, os funcionários do Indec mantêm a denúncia de que o instituto sofreu uma "intervenção" como nunca havia sofrido antes, nem mesmo nos tempos da ditadura. Também alegam que há vários meses, Moreno e Miceli vêm se opondo aos números apresentados pelos técnicos da Indec.A ministra, por sua vez, fez uma qualificação depreciativa da funcionária substituída ao dizer que Graciela Bevacqua é "de quarta categoria" e garantiu que "a metodologia de cálculo da inflação será a mesma".

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