Taxa de juros cai, mas calote bate novo recorde

Em maio, 6% de todos os empréstimos registravam atraso de mais de 90 dias, porém juros médios caíram para 32,9%, segundo BC

FERNANDO NAKAGAWA, EDUARDO CUCOLO / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2012 | 03h10

A inadimplência não dá trégua. Em maio, 6% de todos os empréstimos amargavam atraso de mais de 90 dias, o pior patamar registrado pelo Banco Central nos últimos 12 anos. Mesmo com a má notícia, bancos seguem à risca o plano do governo: o juro médio caiu pela terceira vez seguida. Mais baratos, financiamentos atraíram novos clientes, o que elevou para 50,1% do Produto Interno Bruto (PIB) o volume total de dinheiro emprestado, nova marca histórica.

A inadimplência voltou a piorar especialmente pelo financiamento de veículos. Dados do Banco Central mostram que das sete operações para pessoas físicas, o calote aumentou em seis: destaque para o cartão de crédito, cuja taxa subiu de 28,7% para 29,5%, recorde. No cheque especial, passou de 10% para 11,3%. "A inadimplência mostra que o modelo de incentivo ao consumo via crédito está esgotado. É preocupante", diz o professor de finanças da Universidade de Brasília, Newton Marques.

Para o professor, a desaceleração da economia, a acomodação do mercado de trabalho e o elevado nível de endividamento explicam a piora dos indicadores.

Mais dinheiro. A despeito da inadimplência recorde, o mercado de crédito continua em expansão e com juros cada vez menores - exatamente como quer o governo para impulsionar a economia. Em maio, o total de empréstimos atingiu a cifra de R$ 2,13 trilhões ou metade do tamanho da economia. Ao mesmo tempo, a taxa média cobrada nos financiamentos caiu pela terceira vez seguida para 32,9% ao ano, a mais baixa da história.

"É um contrassenso ter inadimplência recorde, crédito em patamar inédito e juro mais baixo. Mas estamos em um ponto de reversão, de inflexão do mercado de crédito", diz o economista da LCA Consultores, Wemerson França. Mais crítico, Marques da UnB diz que o "cenário anômalo é resultado da mão forte do Estado, que quer crédito ao consumo para incentivar a atividade".

Exatamente pelo aumento do crédito com juro menor, o BC aposta na queda da inadimplência "até o fim do ano". O tom é um pouco diferente do ouvido até o mês passado, quando o BC dizia que os números melhorariam "no decorrer" do segundo semestre. Para o chefe do Departamento Econômico da instituição, Túlio Maciel, novas operações já apresentam menor risco de calote porque os bancos estariam mais rigorosos.

Bancos públicos. Essa política de redução dos juros é liderada agressivamente pelos bancos públicos. Para o BC, essa estratégia deve fazer com que o segmento termine o ano com crescimento no crédito equivalente ao dobro dos privados. A projeção da instituição é que estatais devem crescer 21% este ano, contra expectativa anterior de 19%. Ao mesmo tempo, privados nacionais devem avançar menos: 10% contra previsão anterior de 12%. A mudança nas estimativas reflete os dados verificados até maio, diz o BC, que manteve a previsão de crescimento de 15% no crédito no Brasil neste ano.

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