Taxa Selic é apenas uma das variáveis que o investidor deve observar

O euro está em baixa e eu vou passar férias em fevereiro do ano que vem na Europa. O sr. recomenda a compra imediata da moeda para aproveitar a baixa?

Fábio Gallo, O Estado de S.Paulo

26 de julho de 2010 | 00h00

A volatilidade cambial sempre é uma dor de cabeça para o viajante. Embora não havendo sinais de que o euro vá ter uma valorização rápida no curto prazo, a opção de se proteger contra a variação cambial desfavorável sempre é uma alternativa interessante. O mercado chama este tipo de proteção de "hedge", que é, por exemplo, comprar a moeda estrangeira hoje para realização de pagamento de algo que vence no futuro, como os gastos com viagem. Caso o leitor tenha disponibilidade financeira, o "hedge" pode se mostrar eficaz porque não há uma perspectiva firme para o cenário econômico mundial. Neste ano o euro já sofreu desvalorização em relação ao real acima de 7%, ao passo que o dólar se valorizou mais de 3%.

O que vale mais a pena: comprar imóvel de R$ 260 mil com condomínio de R$ 412 por meio de um financiamento da Caixa Econômica, 10% de entrada e prazo de 30 anos; ou alugar imóvel de R$ 1,1 mil com condomínio de R$ 220?

Dadas essas condições, compre o imóvel. A comparação entre as propostas é relativamente simples. Caso você opte pelo financiamento, o seu gasto mensal será de R$ 672 (prestações mais condomínio). Também não dá pra esquecer que haverá gastos adicionais relativos à papelada e algumas outras taxas sobre o próprio financiamento. Isso sem falar no investimento inicial de R$ 26 mil. De outro lado, os gastos do imóvel para locar ficam em R$ 1.320. Para termos uma melhor comparação, devemos descontar desse valor a perda de ganho sobre os R$ 26 mil de entrada, que poderiam estar aplicados e rendendo algo como R$ 200 mensais (considerando rentabilidade de 0,7% ao mês). Em resumo, a compra da casa representa um gasto mensal menor do que o aluguel. Nesta comparação, estamos considerando que o aluguel e o reajuste da prestação tenham crescimentos similares. O leitor deve lembrar ainda que, ao final do período de financiamento, será dono de sua própria casa, que poderá valorizar ao longo do tempo.

Estou com o dinheiro contado. A fatura do meu cartão está em R$ 3 mil. Preciso tomar uma decisão: ou pago o cartão de crédito com o valor disponibilizado com o cheque especial ou atraso a fatura. Qual opção é melhor?

As duas opções são ruins. Sempre devemos buscar quitar contas com a linha de crédito mais barata. No seu caso, deve ser verificada qual a taxa de juros cobrada em cada caso e se a administradora do cartão não cobra multa por atraso. As taxas de juros de cartão de crédito usualmente são maiores do que as do cheque especial. Os juros médios cobrados em cartão de crédito estão acima de 10% ao mês (na faixa de 240% ao ano) e, no cheque especial, acima de 8% ao mês (mais de 160% ao ano). O melhor para o leitor é tentar obter uma linha de crédito consignado, ou mesmo crédito pessoal, que cobram juros bem menores, entre 2% e 3% ao mês, e com esses recursos pagar o cartão de crédito. Mas a lição de casa não para aqui: o leitor deve organizar o seu orçamento incluindo as prestações do crédito obtido e reconhecendo gastos que devem ser cortados para que ele não tenha mais dores de cabeça no próximo mês.

Na semana passada, a reunião do Copom elevou a taxa Selic em 0,50 ponto porcentual. Eu, como investidor em renda variável e fixa, devo ficar de olho na variação da taxa mesmo com alteração de 40 em 40 dias? Eu devo guiar os meus investimentos de acordo com a taxa?

Os seus investimentos devem ser guiados por uma estratégia e não somente pela observação de uma variável do mercado, mesmo sendo tão importante como é a taxa Selic. Como primeiro passo de nosso planejamento, devemos estabelecer os objetivos financeiros. Isso significa quantificá-los, datá-los e criar metas de acompanhamento. Assim, teremos uma perspectiva clara de prazos e importância desses objetivos. Com base nisso, poderemos estabelecer a estratégia para os investimentos, o que permite que determinemos como será a distribuição dos recursos entre renda fixa e variável. Permite, também, a decisão sobre quais classes e quais ativos financeiros haverá aplicação de recursos. Dessa forma, temos condições de saber quais variáveis são mais importantes e afetam as nossas decisões de compra e venda de ativos de nossa carteira. A alteração da Selic pode fazer com que algumas aplicações fiquem mais atraentes que outras. Como em 2009, quando a queda da Selic tornou a caderneta de poupança mais atraente que fundos de renda fixa com taxas de administração altas. Mas há outras variáveis e condições que também são importantes para a decisão de investimento, como perspectivas das empresas, diversificação da carteira e taxas incorridas.

FÁBIO GALLO É PROFESSOR DE FINANÇAS DA FGV E DA PUC-SP

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