Taxas de juros ‘menores’ obrigam a esforço maior por aposentadoria melhor

No início de 2012 com a Selic a 11%, para se ter R$ 5 mil de renda mensal era necessário poupar R$ 3,1 mil por mês; hoje é preciso guardar R$ 6 mil

LUIZ GUILHERME GERBELLI, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2013 | 02h10

O cenário de juro baixo está obrigando o brasileiro a fazer um esforço bem maior para construir o mesmo patrimônio da época da Selic elevada.

Não é preciso voltar muito no tempo para mensurar essa mudança de cenário. No início de janeiro do ano passado, com a taxa básica de juros a 11% ao ano, o investidor que desejava R$ 5 mil na aposentadoria teria de fazer uma economia de mensal de pouco mais de R$ 3,1 mil, mostra uma simulação feita pela Taler, empresa de gestão de patrimônio. Hoje, com os juros a 7,25% ao ano, a poupança mensal para atingir os mesmos R$ 5 mil é de R$ 6.038.

Para o investidor que busca uma renda maior na aposentadoria, de R$ 8 mil por mês, o valor mensal a ser economizado também quase dobra. Na época dos juros a 11% ao ano, a quantia a ser economizada por mês era de R$ 5,1mil. Com a Selic a 7,25% ao ano, o esforço mensal terá de ser de R$ 9.661 (leia mais ao lado).

Nas duas simulações realizadas, levou-se em conta uma inflação de 6% ao ano, Imposto de Renda (IR) de 15%, e dois prazos: de 20 anos para o início da aposentadoria e de 25 anos para o esgotamento do recurso aplicado.

"Num cenário com juros de 7,25% e uma inflação de 6%, o investidor vai ter que aceitar maior risco e volatilidade", afirma Antonio Ferraz, associado da Taler e coautor do cálculo. O levantamento também teve a participação de Paulo Colaferro, sócio-diretor da companhia. "Essa nova realidade, em termos de diversificação financeira, significa mais em aplicações multimercados e renda variável", afirma Ferraz.

É pouco provável que as variáveis econômicas, como inflação e juros não sofram qualquer mínima alteração no prazo proposto para a simulação de 20 anos, mas o estudo indica como o brasileiro tem de mudar a sua carteira de investimento e buscar novas opções se quiser formar um patrimônio interessante num cenário de juro baixo. Hoje, por exemplo, a inflação oficial, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), está em 6,58% nos últimos 12 meses encerrados em março, e parte do mercado acredita que o Banco Central pode elevar a taxa básica de juros na quarta-feira, quando se encerra a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom).

Mais formiga, menos cigarra. Essa transformação do cenário de investimento obriga o brasileiro a ser mais disciplinado, avalia o educador financeiro Mauro Calil. "Faço uma analogia com as fábulas. Antes, existia muita cigarra e pouca formiga. Agora, o investidor tem que ter um comportamento de formiga, de todo dia acumular um pouquinho. No final de um período grande, com certeza vai se dar bem", afirma.

Antes, ele diz, o brasileiro tinha o conforto de não fazer nada e conseguir um rendimento de 1% nas aplicações ao mês. Vale lembrar que a Selic chegou a 26% ao ano em junho de 2003. "No passado, era muito mais fácil, o investidor chegava para o gerente do banco, pergunta o que rendia mais e virava as costas. Não dá mais para fazer isso."

Por isso, quanto antes o brasileiro começar a poupar pensando no patrimônio da aposentadoria, melhor. "Qualquer plano de formação de patrimônio tem que ter no mínimo 10 anos, mas o ideal para ter uma renda bastante boa é a partir de 20 anos", afirma Calil. Na avaliação dele, também vai ser necessário uma diversificação de investimento. E esse mix no portfólio do investidor terá de ser composto por renda fixa, renda variável e imóveis. "Os imóveis podem estar representados por meio dos fundos imobiliários, não é preciso necessariamente comprar um imóvel ou empreender imobiliariamente", afirma Calil.

Importância. Apesar da realidade de juro baixo, o educador financeiro ainda diz que o investidor brasileiro procura uma "dica mágica" para ter ganho nas aplicações. "As pessoas já entendem que a renda fixa tradicional não está trazendo nenhum ganho. Elas procuram uma dica mágica, mas precisam é mudar o próprio comportamento", diz. "É preciso aprender sobre a sofisticação dos investimentos e esse é um conhecimento para qualquer um."

1.Organização. O investidor deve buscar ser organizado e disciplinado. As reservas para a aposentadoria devem ser economizadas todos os meses, sempre que possível.

2. Diversificação. A queda dos juros obriga o brasileiro a diversificar. No portfólio de investimento, devem estar aplicações em renda fixa, variável e nos imóveis. No caso do setor imobiliário, os fundos imobiliários podem ser uma opção de investimento.

3. Comece cedo. Se possível, pense no seu patrimônio para a aposentadoria o mais cedo que puder. Um bom plano de aposentadoria pode ser elaborado em 20 anos.

4. Risco. O maior prazo para elaborar o patrimônio também faz com que o investidor corra menos risco. Se deixar para o final da vida profissional, é sempre maior a necessidade de apostar em ativos mais arriscado para chegar ao objetivo de renda mensal proposto.

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