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Taxonomias forçadas

Muitos comentaristas na imprensa internacional em suas análises da América Latina têm utilizado, com insistência, taxonomias que parecem inadequadas. Faz parte de visão quase consensual, especialmente na Europa, que, além dos governos de centro-direita na Colômbia e no México, os demais governos latino-americanos podem ser classificados grosso modo em dois grupos. De um lado, os que misturam ostensivamente nacionalismo, populismo e socialismo: Venezuela, Bolívia, Cuba, Equador. De outro, governos etiquetados genericamente como ''''social-democratas'''': Chile, Uruguai, Brasil e, com crescente relutância, a Argentina.Uma dificuldade importante para fazer decolar esta taxonomia é a imprecisão do que, com base na experiência européia, se entende por social-democracia. Seria a social-democracia britânica, expressa pelo governo Gordon Brown, com suas políticas macroeconômicas prudentes e recatadas quanto à intervenção do Estado? Ou seria a social-democracia francesa, com programa nas eleições presidenciais recentes marcado por fortes doses populistas? Mas há mais: além da heterogeneidade interpartidária, há forte heterogeneidade intrapartidária nos partidos social-democratas europeus. Que Dominique Strauss-Kahn - candidato a diretor-geral do FMI, com impecáveis credenciais avessas à aventura, já demonstradas como ministro da economia - seja correligionário da populista Ségolène Royal, derrotada candidata socialista à presidência, demonstra o ponto.Um realista poderia dizer que tais diferenças intra e interpartidárias na Europa poderiam justificar o uso de ''''social-democracia'''' para designar governos também de compleição bastante diversificada na América Latina. Mas isto teria de envolver hipóteses heróicas quanto ao parentesco entre os governos de esquerda ''''moderada'''' latino-americana e suas matrizes européias. À exceção da social-democracia chilena e, talvez, da coalizão governista no Uruguai, é difícil imaginar que os partidos da social-democracia européia tenham afinidade com o conjunto de políticas que vêm sendo adotadas na Argentina e no Brasil. No Uruguai, além disso, a adoção de políticas responsáveis tem sido facilitada em meio à reação aos excessos nacionalistas do governo Kirchner.Quanto à Argentina, o tempo encarregou-se de explicitar as limitações do peronismo de pequena província que tem o controle político do país desde a derrocada menemeista. As preocupações sociais do governo têm muito que ver com o velho peronismo e não com a social-democracia. O sucesso na superação das dificuldades da crise pós-2001 tendeu a ser amplamente compensado por desenvolvimentos recentes: aceleração inflacionária, tabelamento de preços, interferência na apuração de índices de preços, tratamento discricionário de investidores estrangeiros, patriotadas diversas em alguns casos de mãos dadas com Hugo Chávez. Tudo complicado pela misteriosa aparição de grandes quantidades de moeda estrangeira em armários e aviões nas proximidades de funcionários graduados do governo. Mesmo o atual processo eleitoral, com a tradicional propensão argentina a tratar eleições presidenciais como assunto paraconjugal, não parece compatível com as tradições social-democratas.O Brasil é o caso mais complexo de classificação indevida do seu governo de coalizão como ''''social-democrata''''. Primeiro é preciso resolver o problema provocado pela existência de um partido nominalmente de centro-esquerda que é social-democrata. Embora o PSDB tenha recentemente dado mostras repetidas de desânimo e inoperância, não há nenhuma dúvida de que programaticamente é o que mais se aproxima da social-democracia européia, do tipo explicitado pelo neotrabalhismo britânico. É claro que o partido está traumatizado com o fato de o governo se ter apropriado de algumas de suas políticas econômicas e sociais. Mas seria uma simplificação indevida supor que essa apropriação tenha levado à reformulação profunda do ideário partidário petista quanto às virtudes da estabilização. É até possível que Lula, pelo menos temporariamente, tenha ''''sucumbido ao paloccismo'''', mas há dúvidas quanto à estabilidade da conversão e não há evidência de que essa mudança tenha impregnado seu partido. Ao contrário, com a inflação sob controle e a recuperação mais rápida do nível de atividade, são inúmeras as manifestações de petistas e simpatizantes quanto à necessidade de abandonar a prudência na gestão macroeconômica, tal como exemplificado, com grande freqüência, pelo ministro da Fazenda.É preciso, também, explicar como conciliar com social-democracia a atitude do atual governo sobre o papel do Estado na economia e o crescente peso da carga fiscal. Ou a leniência quanto à ocorrência de práticas partidárias corruptas, a segurança pública, a morosidade da Justiça e a fragilidade da garantia aos direitos de propriedade. Ou o uso do messianismo populista como forma preferencial de ação política em detrimento da recuperação e consolidação de estruturas partidárias. Que tal esquecer taxonomias forçadas e analisar a essência das políticas de cada governo latino-americano e a probabilidade de sua sustentação?*Marcelo de Paiva Abreu, Ph.D. em economia pela Universidade de Cambridge, é professor titular do Departamento de Economia da PUC-Rio

Marcelo de Paiva Abreu*, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2027 | 00h00

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