Maicon Machado
O evento Expert XP, voltado para investidores, teve mais de 10 mil participantes no ano passado Maicon Machado

Tecnologia e juros mais baixos dão nova cara ao mercado financeiro

Com a Selic em um dígito, obrigando o investidor a ir além dos títulos públicos, e o avanço das plataformas de investimentos, uma nova leva de empreendedores tem ajudado a mudar a forma de se aplicar recursos no País

Cristiane Barbieri, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2019 | 05h00

Na última década, o número de fundos de investimento cresceu 75% no País. A alta, porém, não veio dos grandes bancos e financeiras, que ainda concentram 90% das aplicações dos brasileiros. Executivos da elite do mercado financeiro, que ficaram sem espaço na área ou enxergaram a oportunidade, têm criado gestoras e ficado à frente de um novo mercado de trabalho. Ele só se tornou possível graças à combinação de evolução tecnológica com os menores juros básicos da história.

De um lado, tornou-se mais difícil para o investidor conseguir a rentabilidade com a qual estava acostumado há até poucos anos, colocando dinheiro em aplicações como na poupança, fundos DI ou títulos do governo. Isso porque os papéis públicos são remunerados pelas taxas básicas de juros (Selic), que estão na casa de um dígito desde julho de 2017. De outro lado, plataformas de investimento – como XP, Órama, BTG Digital, Modalmais, Genial, entre outras – tornaram possível que pessoas com menor capacidade de poupança tivessem acesso a fundos mais rentáveis.

"Até poucos anos atrás, investir em fundos de gestoras era uma opção restrita a ricos e milionários", diz André Salgado, sócio da gestora Adam Capital. É uma fala unânime entre gestores e especialistas. Isso porque, até poucos anos atrás, as captações eram restritas a family offices (os escritórios que cuidam de fortunas familiares), a pessoas de altíssima renda atendidos por áreas específicas de bancos ou a clientes institucionais. Para os pequenos, restavam apenas os grandes bancos que, acomodados, chegavam a cobrar 4% do cliente sobre fundos compostos, muitas vezes, por papéis do governo ou do próprio banco.

Com o aumento da base de clientes, surgiu um novo campo de trabalho para esses profissionais, treinados por anos nas operações mais sofisticadas do mercado financeiro. A transformação aconteceu em um momento crítico. Alguns haviam se tornado profissionais caros em bancos e corretoras, que enxugaram estruturas durante a crise. Outros enxergaram oportunidade de atender aos investidores emergentes. Em comum, todos carregavam consigo o patrimônio financeiro e contatos acumulados ao longo dos anos.

“As profissões vão se adequando à demanda de mercado e à mudança de tecnologia”, diz Michael Viriato, coordenador do laboratório de finanças do Insper. “Mas com o País convergindo já há alguns anos para um cenário de juros mais baixos, o que fez diferença foi a demanda do investidor, que, para ganhar um pouco mais, passou a precisar de ajuda profissional.”

É o cenário que muitos gestores relatam ter visto há décadas nos EUA, onde vários trabalharam e estudaram. Com muitas alternativas de investimento, a figura do consultor de investimentos e do assessor financeiro são comuns por lá – o difícil, inclusive, são os clientes optarem pelas ofertas dos bancos.

Por aqui, porém, as plataformas perceberam duas carências principais a serem supridas. Uma era o número restrito de fundos em suas prateleiras. Havia poucos produtos e diversidade a serem oferecidos aos clientes, caso o mercado ganhasse escala de verdade. Outra, era a falta de educação financeira e do hábito de investir ativamente dos consumidores, acostumados a deixar o dinheiro no fundo de melhor rentabilidade dos bancos que conseguissem acessar.

Pioneira e líder em participação de mercado entre as plataformas, a XP estimula ativamente a criação de fundos e gestoras. “A empresa foi se transformando ao longo do tempo e teve uma grande sacada de trazer fundos para a plataforma. Nenhuma corretora fazia isso”, diz Samuel Oliveira, chefe da área de análise de fundos da XP Investimentos. “É nossa espinha dorsal.” Hoje, dos R$ 250 bilhões sob custódia na XP, mais de R$ 80 bilhões são referentes a fundos.

“Foi um movimento de incentivar e dar a mão para profissionais criarem novas gestoras”, diz Oliveira. “Eles tinham a experiência de bancos, networking, histórico de ganhar dinheiro e começamos a ‘provocá-los’, falando sobre a escassez de bons produtos e a quantidade de dinheiro parado, atrás de oportunidades.”

O processo implantado pela plataforma vai da identificação de talentos, até ajudá-los no percurso para a montagem da gestora, apresentando-os para profissionais e especialistas. “Não ganhamos nada com isso”, diz Oliveira. Na verdade, o lucro da XP acontece depois, já que o fundo repassa para a plataforma uma parte do que foi aplicado pelo investidor. É o chamado rebate.

O mesmo esforço foi feito na parte de renda fixa, buscando ativamente que empresas lançassem dívidas para se financiar, por exemplo, para levar os papéis ao mercado.

Foi assim que produtos até então inéditos, como fundos internacionais, de debêntures incentivadas, impacto social e criptomoedas, entre outros, chegaram aos investidores.

Ao mesmo tempo, os agentes autônomos, profissionais que fazem a ponta entre os fundos e os investidores (que têm outros jeitos de aplicar seus recursos nas plataformas eletrônicas), foram ganhando espaço e criando outro mercado. A Expert XP, por exemplo, se tornou o maior evento de investimentos do mundo, segundo a plataforma, e deve reunir 30 mil interessados em julho, em São Paulo. O primeiro dia é voltado a esse profissional e os outros dois dias são abertos ao público geral. “É um sistema (de relacionamento com os agentes autônomos) que estamos construindo há anos”, diz Caio Peres, sócio e responsável pela área de expansão da XP Investimentos. “Grande parte dos interessados foram clientes ou vieram do próprio mercado financeiro.”

Tamanho crescimento tem levantado preocupação das entidades do setor. “Vivemos um ciclo virtuoso, com aumento de concorrência, informação e transparência”, diz Carlos André, vice-presidente da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). “No momento, estamos tentando entender o que fazer, do ponto de vista da autorregulação, para garantir que esse crescimento se dê de forma saudável e sustentável.”

Com a multiplicação da oferta, também surgiu o desafio de ajudar o consumidor a escolher. Com 504 mil clientes ativos, dos quais 75% com menos de 35 anos de idade, a plataforma Modalmais teve de aprender a conversar com esse público, que pode escolher entre 257 fundos de 125 gestoras. “Nossa experiência tem mostrado que esse investidor toma a decisão por si mesmo e investe bastante tempo para entender suas opções”, diz Ronaldo Guimarães, sócio do Modalmais. Só no canal no Youtube, a marca tem 180 mil inscritos. Algumas transmissões ao vivo chegam a ter 2 mil visualizações simultâneas.

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    Gestores têm trajetórias semelhantes

    Maioria estudou nas escolas mais disputadas do País e do exterior, além de ter ocupado posição de destaque no mercado financeiro

    Cristiane Barbieri, O Estado de S.Paulo

    26 de maio de 2019 | 05h00

    As histórias dos profissionais por trás das gestoras criadas nos últimos anos são mais ou menos parecidas. Foram educados nas mais disputadas escolas no País e no exterior e ocuparam posições de destaque na elite do mercado financeiro, muitos com passagens internacionais. Juntaram-se com amigos e levaram adiante a vontade de construir e ganhar dinheiro de verdade. A maior parte tem entre 40 e 50 anos. 

    Mesmo com tanto em comum, os recursos sob suas mãos variam de poucas dezenas de milhões a muitas dezenas de bilhões de reais. Além do tempo de existência e da origem dos recursos da gestora, o que conta para entrar no time dos grandes, em tempos de pulverização dos investidores, é o histórico dos gestores e da rentabilidade. 

    Com seu primeiro fundo lançado em 2016, por exemplo, o Adam Capital tem 60 mil clientes e R$ 26,5 bilhões de ativos sob gestão. Motivo: desde que foi lançado, os fundos já renderam 146% do CDI, a taxa de referência do mercado. 

    Além disso, os sócios Márcio Appel e André Salgado têm um histórico bem sucedido em suas vidas pregressas em bancos. Os dois trabalharam juntos no Santander, mas foi no Safra em que tiveram a oportunidade de montar um fundo de alta rentabilidade e maior risco, mesmo num ambiente de inflação alta. 

    A estratégia de investimento foi baseada em tendências estruturais de longo prazo, com instrumentos financeiros montados de forma a reduzir as oscilações de curto prazo. Quando os dois saíram para criar a Adam, o fundo tinha perto de R$ 15 bilhões em ativos. 

    “Era uma história razoavelmente única e não íamos inventar moda, mas fazer a mesma coisa, só que de maneira independente”, diz Salgado, de 45 anos. “Tínhamos o reconhecimento do mercado como geradores de resultados, o conforto de patrimônio pessoal para tomar risco e a mudança na forma de distribuição de fundos independentes no Brasil.”

    Apesar de parecer um caminho óbvio a ser trilhado para quem está em transição para essa nova forma de trabalho, não se trata de decisão simples. “Sempre me perguntam se vale a pena trocar uma carreira por algo incerto que é empreender”, afirma Salgado. “Se a pessoa tem a capacidade de gerar valor para seu cliente, tanto o banco quanto o mercado vão querê-la. Sempre fui feliz na carreira bancária, mas hoje consigo me dedicar só ao essencial.”

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    Produtos da Journey Capital entraram para plataformas digitais em apenas quatro meses

    Regra geral é que produtos sejam oferecidos nas plataformas depois de pelo menos seis meses de existência e com patrimônio superior a R$ 50 milhões

    Cristiane Barbieri, O Estado de S.Paulo

    26 de maio de 2019 | 05h00

    Como regra geral, as plataformas digitais só colocam em suas prateleiras fundos que existam há pelo menos seis meses ou que tenham patrimônio superior a R$ 50 milhões. Os produtos da recém-criada Journey Capital começaram a ser negociados quando a gestora tinha quatro meses de existência e R$ 10 milhões sob gestão. Hoje, recebem cerca de mil clientes novos por semana.

    Além de os sócios Ricardo Bicudo, Rogê Rosolini, Fabiano Saragiotto e Marcelo Lara serem bastante conhecidos do mercado, eles montaram a gestora com um produto de alta demanda: fundos de debêntures incentivadas. Neles, o investidor empresta dinheiro para um projeto de infraestrutura e, no prazo combinado, recebe de volta, com juros – o investimento é isento da cobrança de Imposto de Renda.

    “Por conta da nossa experiência, fazia sentido trabalhar com crédito privado, área que tem muito a crescer”, diz Rosolini. 

    Eles se dizem fascinados com a nova fase. “É um momento de transformação”, afirma Bicudo. “Os grandes bancos, que davam status e salários altos, ficaram burocráticos. Abriu-se a chance de participar efetivamente dessa mudança estrutural no mercado de crédito.”

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    Gestora tem fundos com ativos internacionais

    Geo Capital foca em papéis de empresas como Google, Tag Heuer, Mont Blanc, Ferrari e Walt Disney

    Cristiane Barbieri, O Estado de S.Paulo

    26 de maio de 2019 | 05h00

    Aprova de que a oferta ao investidor tem ficado mais rica vem de gestoras como a Geo Capital, cujos fundos são compostos por ativos globais, de empresas como Google, Tag Heuer, Mont Blanc, Ferrari e Walt Disney, entre outras. Há opções com e sem o risco cambial, dependendo do apetite do investidor. 

    “A Geo nasceu da vontade de termos, para nossos próprios recursos, uma forma de investir em ações não brasileiras”, afirma Gustavo Aranha, presidente da Geo Capital. “O investidor brasileiro é 100% focado em ativos nacionais e diversificam em retorno, mas não em risco. Carteiras sem papéis de outros países são incompletas.”

    Em 2015, quando abriu os primeiros fundos para captação, tinha R$ 100 milhões sob gestão. Hoje, tem perto de R$ 800 milhões. Ao contrário das concorrentes, porém, precisou montar um time robusto de vendas porque a diversificação geográfica está longe de ser uma regra para assessores e plataformas.

    Nascida sob as novas tecnologias, como os competidores, tem investido em ferramentas de análises de dados de larga escala.

    “Controlamos todo processo de investimento, mas há algoritmos que analisam os dados abundantes disponíveis de maneira mais eficiente”, diz.

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