Tecnologia e potencial das terras são pontos fortes na agropecuária

SÃO PAULO -  Para Julio Cesar de Toledo Piza Neto, CEO da BrasilAgro, o domínio da tecnologia de produção tropical e a disponibilidade de terras com potencial explicam a eficiência brasileira no agronegócio.

Entrevista com

Julio Cesar de Toledo Piza Neto

O Estado de S. Paulo

20 de setembro de 2014 | 18h06

O que explica essa eficiência do Brasil no agronegócio?

O Brasil aumentou de forma importante a produção agropecuária nos últimos anos e ganhou uma participação de mercado relevante. Algumas razões para explicar este crescimento são o domínio da tecnologia de produção tropical e a disponibilidade de terras com potencial de produção. No caso das commodities, o modelo de propriedades médias e grandes nas novas fronteiras é bastante eficiente e muitas vezes mais bem estruturado como negócio do que produtores de outros países. Assim como políticas públicas equivocadas em alguns grandes competidores, como a Argentina, levando a um declínio da produção e também aos preços de produtos agrícolas acima das médias históricas e demandas crescentes favorecendo a entrada de novos participantes.

O que esperar do agronegócio nos próximos anos?

A dinâmica de urbanização e aumento de renda, principalmente na Asia, propicia uma demanda robusta e persistente. Portanto, independentemente das oscilações naturais, é de se esperar que o espaço para o Brasil continue crescendo. A própria FAO considera o crescimento da agricultura brasileira fundamental para suprir o aumento na demanda. A discussão mais relevante é o que o Brasil deveria fazer para conseguir esse espaço.

Quais são possíveis entraves?

Os custos de produção têm subido a ritmos alarmantes. Nos últimos 5 anos, o custo direto, sem incluir frete, da produção da soja subiu mais de 100%, e uma boa parte do aumento vem da evolução ou da falta de normas, regras, pareceres, instruções. Temos custos trabalhistas que muitas vezes não fazem sentido e só existem no Brasil, como trabalho temporário, proibição de terceirização e flexibilidade de horas extras. Também há a tentativa de impedir a terceirização de serviços sem ordenamento jurídico claro e com interpretações variáveis. Este tema, por exemplo, impede o aumento da eficiência do uso de máquinas e a criação de pequenas e médias empresas. E todos os temas ligados a armazenagem, transporte e exportação de produtos, que tiram competitividade. Além disso, a legislação ambiental, que embora aprovada não foi implementada, ainda é questionada por diversos entes governamentais. Seguimos vendo exemplos de discussões pouco técnicas no que tange à aprovação de novos produtos. Vez por outra, corremos o risco de ver banidos do País produtos indispensáveis à produção.

Quais outros problemas atrapalham investimentos na área?

Segurança jurídica da propriedade. A agricultura demanda investimentos elevados e de longo prazo. Não existe caso de sucesso agrícola sem garantia da propriedade. Esse tema tem sido seguidamente fragilizado. O aumento do custo do capital diminui a atratividade do negócio. Em uma atividade intensiva em capital, essa fragilidade é muito ruim.

Em que esses gargalos resultam?

Os compradores de produtos agrícolas têm pago o aumento da ineficiência brasileira através de preços mais altos. Com preços mais altos estamos convidando muitos países a entrarem nesta partida e se tornarem competidores - não podemos esquecer o que aconteceu com o café. Em um ano, os EUA aumentaram sua produção de soja em 17% e tiraram do Brasil o posto de maior produtor do mundo.

Como podemos enfrentar essas questões?

Todos os temas colocados podem ser resolvidos, mas o Brasil precisa colocar o tema da produção e exportação de alimentos como um dos pilares do nosso desenvolvimento. Não acho que esta seja a solução para levar o Brasil ao Primeiro Mundo, mas certamente pode ajudar bastante. A impressão que fica às vezes é que o Brasil, cada vez mais urbano, tem muito pouco interesse em se tornar o grande produtor de alimentos para o mundo.

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