Jason Henry/NYT
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Tecnologia e sociedade

Preocupações contemporâneas com o impacto da tecnologia fazem parte de um padrão histórico

The Economist, O Estado de S. Paulo

23 de dezembro de 2019 | 05h00

Mais rápido, mais barato, melhor: a tecnologia é o campo em que muitas pessoas confiam para obter a visão de um futuro melhor. Mas, na alvorada dos anos 2020, o otimismo anda escasso. As novas tecnologias que dominaram a década passada parecem estar piorando as coisas. 

As redes sociais deveriam unir as pessoas. Na Primavera Árabe de 2011, elas foram aclamadas como uma força libertadora. Hoje em dia, são conhecidas por invadir a privacidade, espalhar propaganda e minar a democracia. O comércio eletrônico, os aplicativos de transporte urbano e a economia alternativa podem ser convenientes, mas estão repletos de trabalhadores mal pagos, aumentando a desigualdade e entupindo as ruas com veículos. Os pais se preocupam com o fato de os smartphones terem transformado seus filhos em zumbis viciados em telas.

As tecnologias que devem dominar a próxima década também parecem lançar uma sombra sinistra. A inteligência artificial pode criar distorções e preconceitos, acabar com seu emprego e fortalecer governantes autoritários. O 5G está no centro da guerra comercial sino-americana. Carros autônomos ainda não estão nas ruas, mas, mesmo assim, conseguem matar pessoas. Pesquisas mostram que as empresas de internet agora são menos confiáveis do que o setor financeiro. No momento em que os bancos estão tentando se transformar em empresas de tecnologia, os gigantes da internet viraram os novos bancos.

O New York Times resume a onda de melancolia. “Um clima de pessimismo”, diz o jornal, tomou o lugar “da ideia de progresso inevitável nascida das revoluções científicas e industriais”. Só um detalhe: essas palavras são de um artigo publicado em 1979. Naquela época, o jornal dizia que a ansiedade era “alimentada por crescentes dúvidas sobre a capacidade da sociedade de conter as forças aparentemente descontroladas da tecnologia”.

O clima sombrio de hoje está centrado nos smartphones e nas mídias sociais, que decolaram há uma década. No entanto, preocupações de que a humanidade tomou um rumo tecnológico errado, ou de que determinadas tecnologias podem estar fazendo mais mal do que bem, já surgiram antes. A década de 20, por exemplo, testemunhou uma reação contra os carros, que até então eram vistos como uma resposta milagrosa ao flagelo dos veículos puxados a cavalo – que enchiam as ruas com barulho e estrume e causavam congestionamentos e acidentes. E a praga da industrialização foi criticada no século 19 por luditas, românticos e socialistas, que (por boas razões) se preocupavam com o desemprego de artesãos qualificados, a destruição do campo e o sofrimento dos operários nas fábricas.

Em cada um desses casos históricos, o desapontamento surgiu de uma mistura de esperanças não realizadas e consequências imprevistas. A tecnologia desencadeia forças da destruição criativa; portanto, é natural que ela provoque ansiedade; qualquer que seja a tecnologia, suas desvantagens, às vezes, parecem superar seus benefícios. Quando isso acontece o resultado é uma sensação de tecno-pessimismo.

No entanto, esse pessimismo pode ser exagerado. Com muita frequência, as pessoas se concentram nas desvantagens de uma nova tecnologia, fazendo pouco caso de seus benefícios. O medo de que os robôs roubem o emprego das pessoas pode levar os políticos a taxá-los, por exemplo, para desencorajar seu uso. No entanto, a longo prazo, os países que desejam manter seu padrão de vida à medida que a força de trabalho envelhece e encolhe precisarão de mais robôs, não menos.

Isso aponta para outra lição: o remédio para problemas relacionados à tecnologia, muitas vezes, envolve mais tecnologia. Os airbags e outras melhorias nos recursos de segurança, por exemplo, significaram que, nos EUA, as mortes por acidentes de carro por bilhão de quilômetros percorridos caíram de 240 na década de 20 para 12 hoje. A inteligência artificial está sendo aplicada no esforço para conter o fluxo de material extremista nas mídias sociais. 

A lição mais importante é sobre a própria tecnologia. Toda e qualquer tecnologia poderosa pode ser usada para o bem ou para o mal. 

A internet espalha conhecimento, mas também é o lugar onde viralizam vídeos de pessoas sendo decapitadas. A própria tecnologia não tem vontade própria: o que molda o mundo são as escolhas das pessoas que a empregam. Assim, a desconfiança em relação à tecnologia é um passo necessário na adoção de novas tecnologias importantes. Na melhor das hipóteses, ajuda a enquadrar como a sociedade lida com as inovações e impõe regras e políticas que limitam seu potencial destrutivo (cintos de segurança e regulamentações de trânsito), acomodam mudanças (educação universal como resposta à industrialização) ou chegam a um dilema (entre a conveniência dos aplicativos e o trabalho precarizado). Ceticismo saudável significa que essas questões serão resolvidas por um amplo debate, não por um círculo de tecnólogos.

Motor moral

Talvez a verdadeira fonte de ansiedade não seja a própria tecnologia, mas as crescentes dúvidas sobre a capacidade de as sociedades aprofundarem esse debate e apresentarem boas respostas. Nesse sentido, o tecno-pessimismo é um sintoma do pessimismo político.

Mas há nisso algo perversamente tranquilizador: um debate sombrio é muito melhor do que nenhum debate. E a história ainda dá, em geral, motivos para algum otimismo. A transformação tecnológica que ocorreu desde a Revolução Industrial nos ajudou a superar os males antigos, da mortalidade infantil à fome e à ignorância. Sim, o planeta está esquentando e a resistência a antibióticos está se espalhando. Mas a solução para esses problemas exige o desenvolvimento de mais tecnologia, e não menos.

Assim, na virada da década, deixe de lado a melancolia. Estar vivo nos obsessivamente tecnológicos anos 2020 é estar entre as pessoas mais sortudas que já viveram. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU 

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