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Tecnologia em risco

Em 2010, a Petrobrás foi a primeira empresa latino-americana a entrar na lista das 50 companhias mais inovadoras do mundo, da Boston Consulting Group. Naquele ano, ela ocupou o 41.º lugar, levada por indicadores como crescimento de 28% no faturamento, de 5,2% no lucro antes de juros e impostos (Ebit, na sigla em inglês) e de 43,9% nos gastos de pesquisa e desenvolvimento (P&D).

Renato Cruz, O Estado de S.Paulo

04 de janeiro de 2015 | 02h02

A Petrobrás foi, por muito tempo, considerada um grande exemplo brasileiro de inovação. A empresa lidera o registro de patentes no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI). A tecnologia de exploração de petróleo em águas profundas desenvolvida pela companhia é única no mundo. Com a oportunidade do pré-sal, várias multinacionais instalaram centros de P&D no Rio, para ficarem próximas da Petrobrás. Entre elas, estão IBM, GE, EMC, Schlumberger, Baker Hughes e FMC Technologies.

Mas a situação vem se deteriorando. Os investimentos da empresa em P&D passaram de US$ 1,4 bilhão em 2011 para US$ 1,1 bilhão em 2013. No primeiro semestre de 2014, os gastos da companhia em pesquisa somaram US$ 520 milhões, comparados a US$ 624 milhões no mesmo período de 2013. Depois de 2010, a Petrobrás não apareceu mais no ranking da BCG. Além da queda dos gastos em P&D, outros indicadores da empresa pioraram, como faturamento e Ebit.

Nos últimos anos, a situação financeira da empresa tem sido prejudicada pelos crimes revelados nas investigações da operação Lava Jato e por uma política equivocada de preços de combustíveis. Para se ter uma ideia, o rombo estimado de R$ 10 bilhões da Petrobrás com o esquema descoberto pela Polícia Federal equivale ao que a empresa investiu em P&D nos últimos cinco anos.

Tem gente que acha que o Brasil não desenvolve tecnologia, só porque não tem uma indústria forte de eletrônicos de consumo. Não existe por aqui uma Apple ou uma Samsung. Na verdade, é difícil de ver a tecnologia brasileira porque ela está na produção de commodities. Essas matérias-primas podem ser padronizadas e indiferenciadas, mas seus processos de produção não o são. Sem tecnologia não se conquista uma posição de destaque no mercado mundial.

Além da Petrobrás, mineradoras brasileiras estão entre as empresas que mais registram patentes por aqui. O trabalho da Embrapa colocou a agricultura e a pecuária do País entre as mais competitivas do mundo, apesar de todos os gargalos logísticos.

Até recentemente, o sonho de boa parte dos pesquisadores por aqui era trabalhar em projetos da Petrobrás. O que está acontecendo com a estatal não destrói somente um patrimônio importante dos brasileiros, mas prejudica a própria capacidade de o País gerar tecnologia.

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