Daniel Teixeira/Estadão
Bisneto de pecuarista, Ribas Filho retomou a atividade da família com o uso de alta tecnologia na engorda de bois Daniel Teixeira/Estadão

Tecnologia engorda lucro de pecuaristas

Criadores de bovinos podem elevar ganhos em até três vezes em relação à média do setor com a utilização de técnicas mais modernas

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2019 | 05h00

Quem chega à pacata Guarantã, cidade com cerca de 7 mil habitantes no centro-oeste paulista, parece voltar no tempo. Nas suas poucas ruas, o pequeno movimento de carros e pessoas em nada remete à modernidade dos grandes centros. Mas, por trás dessa calmaria, há uma revolução em curso no modo de se criar bois, com fortes doses de alta tecnologia. 

É a chamada pecuária de precisão que, com uso da inteligência artificial, reúne rapidamente inúmeras informações de clima, mercado e desempenho do rebanho, e as coloca na mão do produtor para que ele tome a decisão mais acertada da forma mais rápida possível.

Estudos mostram que o lucro por arroba do pecuarista que usa alta tecnologia e de forma correta é três vezes maior do que a média, segundo Bruno Andrade, gerente executivo da Associação Nacional da Pecuária Intensiva. Dos 30 milhões de bois abatidos por ano no País, 5 milhões são confinados e 50% desses ganham peso com uso de alta tecnologia, movimento que cresceu nos últimos três anos.

O que chama a atenção em Guarantã é que essa mudança na forma de engordar os bois confinados é comandada por uma família que é quase centenária na atividade. À frente do projeto de confinamento de bois de outros pecuaristas, conhecido como “boitel”, ou hotel de bois, está o empresário José Roberto Ribas Filho, dono da Ribas Agropecuária.

Nos anos 1950, seu bisavô chegou a ter mais de 100 mil bovinos na região, todos soltos no pasto. Vinte anos depois, seu avô, dono de frigorífico, montou um dos primeiros confinamentos para suprir o fornecimento de animais em períodos de seca. Mas era um negócio pequeno, de 3 mil bovinos, guiado mais pela intuição. “O gado comia restos da colheita e não havia maquinário, muito menos as ferramentas tecnológicas que temos hoje”, contou. Com a morte do avô, o confinamento e o frigorífico não prosperaram e a cana tomou o lugar do gado nos negócios da família.

Em 2011, Ribas, que empreendia em outros segmentos, decidiu resgatar a tradição familiar. Montou um confinamento, mas com uso de muita tecnologia, inicialmente para engorda do próprio rebanho. Cinco anos depois, optou por prestar serviço a terceiros. A mudança no foco ocorreu porque ele conseguiu resultados na engorda de bois que superavam a média do mercado. “Com automação e todas as ferramentas tecnológicas, começamos a ter uma engorda eficiente acima de 1,8 quilo por animal ao dia, ante a média do mercado, de 1,5 quilo.”

Hoje apto para engordar 8 mil bois por ano, o confinamento dobrou de capacidade desde 2016 e deve ter novas ampliações em 2020. Ribas atribui o resultado ao uso de tecnologia para obter informações precisas sobre os animais e ao gerenciamento adequado delas.

Espiões. Quem circula pelo confinamento observa que sensores em áreas de criação viraram grandes aliados. Esses espiões eletrônicos captam, por meio da leitura de chips instalados nos animais, informações cruciais e que fazem a diferença. Balanças instaladas nos bebedouros, por exemplo, aferem o peso de cada o animal quando ele vai matar a sede. Essa informação é enviada por radiofrequência para a nuvem, que alimenta um software. Nele existe um algoritmo que indica a curva de ganho de peso do animal que, cruzado com o preço da arroba, sinaliza se vale a pena continuar a engorda. “Um dos pulos do gato é saber o ponto ótimo de abate”, disse Ribas. Outro ponto chave do confinamento de precisão é dar a dieta na medida certa, de acordo com o estágio de desenvolvimento do boi.

Na cidade vizinha de Sabino (SP), o confinador e zootecnista Neto Sartor, dono do boitel Santa Adélia, vai engordar neste ano 37 mil bois. Com o uso de alta tecnologia na gestão e no trato dos animais, em 110 dias esses bois ganham 8,85 arrobas, um resultado 35% maior ante um confinamento que adota menos tecnologia. Segundo ele, a procura por esse tipo de confinamento tem crescido. “Neste ano, tive fila de espera na seca.”

Paulo Dancieri, CEO da Coimma, que fabrica equipamentos de pesagem e contenção de bois e desenvolve sistema de gestão na nuvem, disse que há um “alvoroço de interessados” por novas tecnologias voltadas para a pecuária de precisão. Segundo ele, três fatores levaram a esse movimento: as margens apertadas da pecuária tradicional, a viabilidade de novas tecnologias, com 61% das fazendas com acesso a internet, e a cabeça de novos gestores, como Ribas, de Guarantã.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

“Preciso quebrar mais a cabeça”

No lugar da força física, os novos peões lidam com números e querem voltar a estudar

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2019 | 05h00

A rotina de laçar boi no pasto e tocar os animais debaixo de sol e chuva deixou de ser a realidade para os peões que trabalham em fazendas “tecnológicas”. Eles agora empregam menos a força física nas tarefas que executam e têm de ficar mais atentos a números, o que impões novos desafios. 

“Sinto falta da parte de matemática e preciso quebrar a cabeça porque tenho pouco estudo”, disse Alexandre Marcelino de Oliveira, de 21 anos, casado e pai de dois filhos.

Faz dois anos que ele trabalha distribuindo a ração nos cochos do confinamento na Ribas Agropecuária, em Guarantã (SP). Nessa tarefa, tem de estar com a atenção voltada para colocar a quantidade exata de comida em cada cocho. Quando fecha a comporta da carreta que despeja o alimento, ele envia as informações para o sistema que monitora passo a passo a produção.

É um trabalho bem diferente daquele que fez desde os 13 anos de idade. “Eu tocava boiada. Acompanhei meu pai no pasto desde os dois anos de idade.”

Antes, como peão, ganhava um pouco mais de R$ 1 mil por mês. Agora, na nova função, recebe quase o dobro, com hora extra e prêmios que recebe por acertar na mosca as quantidades distribuídas de ração. Aliás, esse é um dos pilares dessa pecuária mais tecnificada. Não deixar sobrar nem faltar o alimento tem impacto significativo na redução de custos e em ganhos de produtividade. 

Oliveira cursou até o oitavo ano do ensino fundamental. Diante das novas exigências no trabalho, ele diz que pretende voltar a estudar assim que tiver um a folga. “Quero fazer um curso técnico de zootecnia”, afirmou.

Bruno Sabino, de 23 anos, que tem trajetória semelhante a de Oliveira, também planeja voltar para escola, motivado pela nova ocupação. Ele cursou até o segundo ano do ensino médio e pretende fazer um curso de inseminação artificial.

“Eu era campeiro: laçava boi, curava umbigo, medicava. Aprendi com a vida mesmo”, disse. Agora, é responsável pelo preparo da pré-mistura da ração. São três tipos diferentes de formulação e ele tem de colocar as quantidades exatas indicadas no monitor do grande liquidificador que mistura os ingredientes.

“Hoje mexo mais com números, tenho de pensar mais e ter um pouco mais raciocínio”, afirmou. 

Tudo o que sabemos sobre:
pecuáriaautomaçãoagronegócio

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.