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Tecnologia vestível: como e por que usar

A Apple popularizou tecnologias existentes quatro vezes: o Macintosh em 1984, o iPod em 2001, o iPhone em 2007 e o iPad em 2010. Recentemente os fiéis vêm orando para a Apple ter novamente sucesso com seu smartwatch, relógio inteligente. Muitas empresas já fabricam aparelhos para o pulso que medem a qualidade do sono e exercícios, mas até agora esse é um setor de nicho para nerds e atletas.

O Estado de S.Paulo

16 de março de 2015 | 02h05

"No início era a Apple. Tudo era feito por ela; e sem ela nada do que se fez teria sido feito". Se os aficionados por tecnologia tivessem de escrever seu próprio testamento, esta poderia ser a frase inicial. A capacidade da Apple para redefinir o encanto de categorias inteiras da área da computação despertou uma fé infalível de milhões de seguidores.

Em 9 de março, a Apple reuniu seus fiéis para dar detalhes sobre o Apple Watch, que estará à venda no próximo mês. Tim Cook, presidente da Apple, qualificou-o como "o mais avançado relógio criado até hoje".

Além de informar a hora, ele responde a comandos de voz, mede o ritmo cardíaco, atua como um cartão de crédito e faz alertas para chamadas de e-mails. Tem muitos dos aplicativos populares nos smartphones, como as redes sociais, sem as dificuldades de ter de usar um telefone.

Com preços na faixa de US$ 350 até US$ 17 mil, o Apple Watch deve render à companhia bilhões em receita, apesar de os analistas terem expectativas variadas quanto ao porte dos ganhos. No futuro próximo o sucesso do relógio não vai se equiparar ao de outras criações da Apple, que estão entre os produtos de tecnologias mais vendidos na história.

Sua bateria dura 18 horas antes de precisar ser carregada por um carregador magnético. O Apple Watch também precisa de um iPhone ao lado para funcionar, o que deprecia sua utilidade.

O lançamento do Apple Watch aponta para uma história mais ampla: a grande expectativas de que a tecnologia vestível decole em breve.

Aparelhos móveis vestíveis, contendo um sistema de circuitos para coletar e exibir informações abrangem um guarda-roupa diverso de produtos, como roupas que medem o esforço físico, e óculos por meio dos quais a informação é lida e as imagens aumentadas em tamanho real.

Cerca de 21 milhões de aparelhos vestíveis foram vendidos no ano passado, de acordo com a empresa de pesquisa IDC; aparelhos vestíveis de pulso, incluindo os relógios, foram a maioria.

Os consumidores estão dispostos a gastar somas razoáveis por esse tipo de tecnologia. Mas mesmo assim seu interesse na compra ainda não se equipara ao entusiasmo mostrado por muitas companhias de hardware que estão investindo pesado na sua arquitetura. Gigantes como Samsung, Motorola, Microsoft e Huawei vêm desenvolvendo os telefones inteligentes, como também companhias de menor porte, como a Pebble.

O Google, que tentou criar o Google Glass com sucesso limitado, agora está concentrado em produzir um sistema operacional especial para os relógios inteligentes. No caso dos aparelhos vestíveis é mais provável que as empresas lucrarão muito mais com o sistema operacional do que com a venda de hardware.

As empresas de roupas esportivas estão competindo para fabricar camisetas, sapatos e tops com sensores e um sistema de circuitos sem fio.

Várias empresas oferecem pequenos dispositivos que utilizam a tecnologia GPS para acompanhar as crianças que estão perdidas, por exemplo. CuteCircuit, uma startup britânica, projetou uma camiseta inteligente que reproduz a sensação de estar sendo abraçado quando alguém envia uma mensagem de texto para o aparelho vestível.

Saúde é uma área que promete muito. Relógios e outros aparelhos vestíveis podem ajudar as pessoas a monitorar sua atividade e encorajá-las a se exercitarem. Os relógios da Apple oferecem o "feedback por tato": eles vibram para dar alertas, como por exemplo lembrar a pessoa para se levantar se estiver sentada por muito tempo. O relógio também oferece novas capacidades de coleta de dados para estudos no campo da saúde.

Este é o início do movimento "self quantificado" em que as pessoas monitoram uma grande quantidade de dados a seu próprio respeito para uso pessoal e também para partilhar com companhias.

Graças ao boom dos smartphones, chips e sensores ficaram mais baratos e menores. O que ajudou os aparelhos vestíveis a saírem do sonho tipo "Star Treck" para a realidade", diz Stacey Burr da Adidas. Mas talvez leve cinco anos ou mais antes até o seu pleno potencial ser realizado.

"Estamos nos dias do Palm Pilot no caso da tecnologia vestível", diz ela, referindo-se ao ancestral extinto do smartphone.

Várias coisas dificultaram os relógios inteligentes e outros aparelhos vestíveis. Muitos têm uma bateria cuja vida é curta e isso limita sua atração. No caso do Moto 360, relógio inteligente da Motorola, uma exceção, muitos conseguem telefonar ou desempenhar outras funções se tiverem perto um telefone. Muitos consumidores têm pouco interesse em um outro aparelho que não sirva como substituto para os que já carregam para todo lado.

Colocando a roupa no vestível. Os aparelhos vestíveis até agora não têm o design elegante nem a facilidade de uso que contribuíram para o sucesso dos smartphones.

Mesmo os modelos contratados para exibir e fazer propaganda do Google Glass tiveram dificuldade para fazer com que ele parecesse algo em moda. Muitas companhias hoje estão concentradas nos desafios de engenharia que surgem diante delas e prestando pouca atenção à "engenharia cultural "que necessita ocorrer para que os vestíveis sejam aceitos", diz J.P. Gownder, da empresa de pesquisa Forrester. A Apple contratou executivos do setor de moda, de marcas de luxo como Burberry e Yves Saint Laurent, para tornar seu relógio atrativo, mas ainda não está muito claro se ela descobriu o segredo.

Mas o maior desafio é a ausência, até agora, de um "aplicativo matador". Os relógios não oferecem ainda algo mais do que os smartphones oferecem atualmente e alguns modelos muito menos.

Mas ir além das capacidades dos telefones levará tempo, diz Tim Bajarin da Creative Strategies, empresa de consultoria. Dependerá também de conseguir desenvolvedores para criar aplicativos que tirarão o máximo proveito das possibilidades dos "vestíveis".

Atualmente muitos desenvolvedores estão ocupados com os smartphones, que têm centenas de milhões de usuários frente a alguns milhões no caso dos smartwatches, diz Chris Dixon, da Andreessen Horowitz, empresa de capital de risco.

Muitos desenvolvedores também esperam para ver que sistema operacional será dominante antes de investirem tempo, trabalho e dinheiro nos aparelhos de tecnologia vestível. Apple e Google estão emparelhadas na corrida para desenvolver o sistema que unirá diferentes áreas das vidas das pessoas, dos relógios e telefones aos seus carros e eletrodomésticos.

Para alguns analistas, o aplicativo matador dos aparelhos vestíveis oferecerá a seus usuários uma identidade digital "persistente", fundindo as funções de carteira de motorista, cartão de crédito, chave da casa, chave do carro e computador num único aparelho pequeno usado no pulso ou pescoço. Para ver como seria esse futuro, basta viajar para o parque temático Disney World, em Orlando.

A Disney investiu US$ 1 bilhão na criação de um sistema em que as pessoas usam uma pulseira (chamada Magicband) para os passeios, para pagar pelas refeições e para entrar em seus quartos de hotel. Uma tecnologia conveniente para os turistas que precisam carregar consigo menos cartões, mas provavelmente pagarão mais no final, porque é muito fácil comprar alguma coisa sem pensar na conta. As pulseiras permitem à Disney coletar dados em tempo real sobre o movimento nos passeios e nos restaurantes, para saber como distribuir seu pessoal nos lugares certos. Outras empresas estão fazendo experiências na mesma direção. Montadoras como a Hyundai criaram aplicativos para permitir que o motorista destrave e dê partida no seu carro remotamente com seu relógio ou telefone. Aplicativos como estes não são o único caminho para o sucesso dos aparelhos vestíveis. É verdade que na década passada os consumidores impulsionaram muitas tendências na área tecnológica, desde o streaming de música e filmes até empresas de "economia de compartilhamento" como Airbnb e Lyft. Mas a próxima etapa no desenvolvimento será liderada pelos usuários das empresas. Ainda é o início. "Tudo o que estou vendo são experimentos", diz Arnie Lund, engenheiro na General Electric. Mas os aparelhos vestíveis serão úteis no local de trabalho sob todos os aspectos.

Nas fábricas e depósitos, os óculos inteligentes poderão tornar mais eficiente a localização e controle dos estoques, além de monitorar a produtividade dos empregados. As empresas de mineração e petróleo poderão usar aparelhos vestíveis para monitorar a segurança dos empregados em situações de risco.

First Vision, uma startup espanhola, está trabalhando numa camiseta esportiva com uma câmera embutida para dar aos fãs uma visão da ação de um jogador. Virgin Atlantic, Japan Airlines e outras empresas aéreas tentaram usar os óculos e relógios inteligentes para melhorar seu serviço de check-in. Os consumidores poderão se beneficiar no final, mas os compradores dos aparelhos vestíveis serão as empresas.

No caso das companhias o custo de equipar seus funcionários com aparelhos inteligente é um problema menor do que estabelecer os sistemas de computadores necessários para dar suporte a tais aparelhos e processar seus dados. Isso pode custar US$ 500 mil ou mais para cada aplicativo, afirma Dave Miller, da Covisint, empresa de tecnologia.

Os aparelhos vestíveis têm potencial para transformar alguns setores.

Testes clínicos poderão se tornar mais baratos e mais acurados se as empresas farmacêuticas fornecerem monitores vestíveis para os pacientes que participarem. Hospitais e médicos podem usar monitores para reduzir a necessidade de visitas domésticas. As seguradoras poderão entrar numa nova era em que reduzirão os custos. Uma seguradora de saúde americana já está usando pulseiras para monitoramento da saúde para os clientes, prometendo mensalidades menores para aqueles que se exercitarem mais. Os bancos podem premiar seus clientes que usam acessórios de identificação de identidade para reduzir o risco de fraude de cartões.

Riscos. As oportunidades são ilimitadas, mas também os dilemas. Os aparelhos vestíveis são muito pessoais e isto expõe as pessoas a riscos reais. À medida que os consumidores quantificam mais as suas vidas e armazenam mais dados médicos e sobre sua saúde eletronicamente, aumentam as chances de ele se comprometer. Atualmente não existe uma maneira direta de anular informações pessoais caso um aparelho seja perdido ou roubado. Mark O' Neill, da Axway, empresa de segurança de software, diz que os aparelhos vestíveis oferecem uma "nova possibilidade de ataque" para os criminosos virtuais.

Tais temores terão de ser aplacados para os consumidores se entusiasmarem com as tecnologias vestíveis agora que muitas empresas estão trabalhando neste campo. Mas o explosivo sucesso do smartphone demonstra que milagres podem acontecer quando desenvolvedores de software colocam suas mentes para explorar o pleno potencial de um aparelhos carregados de sensores e com poder de computação. Não está claro ainda qual será o aplicativo matador dos aparelhos vestíveis.

Mas os fiéis da Apple continuarão orando para que um dia ele seja revelado.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR TEREZINHA MARTINO, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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