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Tecsis se prepara para voo global

Passada a crise, fabricante brasileira de pás eólicas quer ter operações fora do País

NAIANA OSCAR, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2013 | 02h08

Aquela velha máxima de que uma crise (quando não é fulminante) pode gerar progressos se aplica bem à história recente da brasileira Tecsis - segunda maior fabricante de pás para turbinas eólicas do mundo. Depois de 2008, quando o banco americano Lehman Brothers quebrou, a empresa, sediada em Sorocaba mas com 100% de clientes multinacionais, viu suas encomendas caírem pela metade, junto com o faturamento e com o número de funcionários. De lá para cá, a Tecsis amargou três anos consecutivos de prejuízo e, por pouco, não entrou um colapso.

Em 2010, como saída para a crise, 80% da companhia, fundada pelo engenheiro aeronáutico Bento Koike, foi vendida para um consórcio de investidores liderado pela butique de investimentos Estáter, de Pércio de Souza, conhecido por ser o banqueiro do empresário Abilio Diniz. Em dois anos, a empresa não só saiu do caos em que estava como já começou a planejar sua expansão, dentro e fora do País.

Até o fim do mês, a Tecsis vai assinar com o governo baiano o protocolo para a construção de uma fábrica de pás na cidade de Camaçari, que vai consumir investimentos de R$ 200 milhões. Será a primeira unidade de produção fora de Sorocaba. "Principalmente por causa do gargalo no Porto de Santos e nas rodovias, não tínhamos mais como crescer em São Paulo", diz Souza, presidente do conselho de administração da Tecsis. No ano passado, a empresa chegou a levar para o porto, em uma semana, 180 dessas peças gigantescas, que medem cerca de 50 metros e pesam nove toneladas.

Em Camaçari, a planta da Tecsis estará bem perto da fábrica de aerogeradores de uma de suas clientes, a francesa Alstom, que na semana passada assinou um contrato de 450 milhões para produzir equipamentos para as usinas eólicas da Renova Energia. Em fevereiro, as duas empresas já tinham firmado contrato de 1 bilhão para o fornecimento de 440 turbinas.

Mercado doméstico. Inicialmente, a fábrica da Bahia terá 30% da capacidade de produção instalada em Sorocaba - que no ano passado fez cerca de 7 mil pás eólicas. "Metade da capacidade será para atender a Alstom e o restante vamos destinar ao mercado doméstico, que vem crescendo dentro da empresa." Como a energia eólica no Brasil só se tornou interessante para os investidores a partir dos leilões de 2009, até três anos atrás a Tecsis não tinha pás operando nas usinas brasileiras.

Hoje, segundo a Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica) já existem nove fabricantes de aerogeradores no País - e a Tecsis fornece pás para quatro delas. O anúncio da fábrica no Nordeste coincide com a chegada da maior fabricante de pás eólicas do mundo ao Brasil, a dinamarquesa LM Wind. Há oito meses, a empresa, líder de mercado, anunciou a construção de uma fábrica em Pernambuco.

Pércio de Souza garante que expansão para o Nordeste não tem relação com a chegada da concorrente. Ao se instalar na Bahia, a ideia da Tecsis é fazer com que a planta de Sorocaba se dedique mais a atender o mercado externo, que já representou 99% das vendas e no ano passado chegou a 75%. Quase 80% das exportações são destinadas aos EUA. "Nós já nascemos globais, mas agora queremos ter uma presença mais efetiva lá fora", diz Koike. O fundador deixou a presidência no início do ano para se tornar responsável pela área de desenvolvimento de produto e novos projetos da empresa.

A intenção dos executivos da Tecsis é que a companhia tenha 'hubs' de produção e distribuição na Europa e nos EUA. A empresa ainda está estudando se a expansão se dará de forma orgânica ou por meio de aquisições. Segundo fontes do mercado, a segunda hipótese é a mais provável, já que, por conta da crise, há muita capacidade ociosa lá fora.

Para dar esse salto, a Tecsis vai se dedicar neste ano à formação de profissionais, principalmente engenheiros, e à padronização de processos. Para se ter uma ideia, são necessárias 200 pessoas para produzir uma pá. É um trabalho praticamente artesanal - e que até dois anos atrás estava sendo realizado de forma caótica.

O projeto de expansão da Tecsis neste momento só foi possível após a mega reestruturação pela qual a empresa vem passando desde maio de 2011. O processo foi conduzido pelo então diretor de operações Ventura Pobre, que neste ano assumiu a presidência da companhia.

Reestruturação. A virada se deu em várias frentes. Os novos sócios começaram simplificando a equipe de gestão. A quantidade de cargos na empresa passou de 800 para 300. e as camadas hierárquicas entre gerentes e trabalhadores foram reduzidas de sete para três.

Mas o resultado mais visível e relevante do processo de reestruturação está no ganho de produtividade, que chegou a 45%. "Boa parte dessa transformação foi apoiada em métodos que são usados há mais de um século pela indústria automotiva, com produção em série e eficiente", diz Ventura Pobre. No ano passado, a empresa contratou, pela primeira vez, quatro gerentes que vieram de montadoras e está prestes a admitir mais um. Os resultados da mudança já apareceram no último balanço: a Tecsis registrou em 2012 um Ebitda positivo de R$ 122 milhões.

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