Teimar para valer

No discurso de vitória, a presidente Dilma Rousseff reiterou seus planos para o próximo quadriênio. O governo vai insistir na política econômica baseada no diagnóstico de que as coisas não deram certo - inflação alta e crescimento muito baixo - por causa da crise econômica mundial. A ocasional e vaga menção à mudança de rumos na campanha governista não parece ter passado de mais um truque mercadológico para esvaziar as propostas da oposição. O mudar para valer, proposto por Aécio Neves, foi derrotado pelo teimar para valer de Dilma Rousseff. Que, pelo que se pode antecipar, vai preferir dobrar a aposta nas atuais políticas a reconhecer os seus defeitos. Tudo em meio a um clima de autocongratulação totalmente complacente com a mediocridade. E é sempre bom lembrar que bazófia é artimanha com pernas curtas.

Marcelo de Paiva Abreu, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2014 | 02h04

Que 2015 será um ano muito penoso não deve haver dúvida. Teria sido também penoso caso Aécio Neves tivesse sido vitorioso, pois há muito a consertar na economia. Mas, para Dilma Rousseff, será mais penoso ainda. A candidata eleita jogou todas as suas fichas na reeleição, sem preocupações quanto aos custos transferidos para um eventual segundo mandato. A sistemática protelação de aumentos de tarifas de serviços públicos fez lembrar as mágicas do governo militar, buscando ocultar o mau desempenho no combate à inflação. A linha de ataque escolhida para criticar as propostas de autonomia do Banco Central minou seriamente a já abalada credibilidade da instituição para conduzir uma política monetária comprometida com a contenção da inflação.

O leque de desafios é monumental. No terreno conjuntural, o governo estará colhendo as dificuldades que semeou com a ênfase na "nova matriz macroeconômica". Dadas as reiteradas manifestações da presidente, o cenário mais provável será o abandono da disciplina anti-inflacionária e a perfuração da meta superior da inflação em busca da recuperação do nível de atividade. Na mesma linha, podem ser esperadas a flexibilização das metas fiscais e a continuidade da sangria de recursos públicos para que o BNDES acomode seus comensais. Tudo isso sob a ameaça persistente de uma crise energética de grandes proporções e, subsidiariamente, da crise de abastecimento d'água em São Paulo.

Em termos estruturais, os desafios são ainda maiores, inclusive porque não é crível que, sem políticas conjunturais bem-sucedidas, seja possível ter sucesso nas medidas de prazo mais longo. O baixo crescimento da economia brasileira, a baixa capacidade de poupar domesticamente e a vulnerabilidade das contas externas - a despeito do grande aumento das reservas - são problemas que urgem por uma solução. Ou o Brasil continuará a perder posições nos rankings internacionais relevantes.

Essas dificuldades no terreno econômico são agravadas pelo abalado crédito do governo em relação à sua capacidade de gestão, seja por incompetência, seja por corrupção. O esclarecimento de responsabilidades quanto a muitas das controvertidas decisões da Petrobrás está criando um clima de incerteza que certamente não ajudará o governo.

O quadro político poderá contribuir para tornar o clima ainda mais adverso, a julgar pelas referências da presidente eleita a reformas políticas submetidas à aprovação plebiscitária e às ameaças que vêm sendo crescentemente brandidas quanto ao controle dos meios de comunicação com o objetivo de atenuar as críticas ao governo.

Talvez seja um exagero citar o marechal de Villars, ao reportar a Luis XIV a sua derrota na batalha de Malplaquet, quando as baixas inimigas foram o dobro das francesas: "Se Deus nos conceder a graça de perder outra batalha semelhante, Vossa Majestade pode contar com a destruição de seus inimigos". Mas é certo que não vão ser muito doces os frutos da vitória.

*Marcelo de Paiva Abreu é doutor em Economia pela Universidade de Cambridge e professor titular no departamento de Economia da PUC-Rio 

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