Telefónica ameaça apresentar oferta hostil pela Portugal Telecom

Escalada. A briga entre os espanhóis e os portugueses, controladores da brasileira Vivo, se aprofundou com declaração da Telefónica de que, se não conseguir comprar os 50% dos sócios na Vivo, partirá para uma tentativa de compra da operadora portuguesa

LONDRES, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2010 | 00h00

A Telefónica ameaçou apresentar uma oferta hostil pela Portugal Telecom (PT), caso os portugueses não revejam sua decisão de rejeitar uma proposta de 5,7 bilhões pela participação de 50% que detêm na Vivo, maior operadora celular do Brasil.

"Isso pode ser revisitado", disse Santiago Fernandez Valbuena, diretor financeiro da Telefónica, ao jornal britânico Financial Times. "Nunca dissemos que não faríamos uma oferta hostil." Espanhóis e portugueses compartilham o controle da Vivo, sendo que cada um possui 50% da holding Brasilcel.

A entrevista com Valbuena foi publicada ontem, no mesmo dia em que o executivo iniciou um roadshow para convencer outros acionistas da PT sobre sua proposta pela Vivo. A ideia da Telefónica é convencer os investidores a convocar uma assembleia geral de acionistas para que seja votada a sua proposta, cujo prazo vence no próximo dia 6.

A Telefónica é a maior acionista individual da PT, com 10%. Para a empresa espanhola, a compra da operadora portuguesa poderia até fazer mais sentido do ponto de vista financeiro, já que seu valor de mercado está em cerca de 6,6 bilhões, um montante próximo da oferta pela fatia da empresa na Vivo.

Valbuena também ameaçou bloquear o pagamento de dividendos na Vivo, caso sua proposta pela companhia não seja aceita. "Não há obrigação de agirmos favoravelmente na Brasilcel", disse o executivo. "Esse dinheiro poderia continuar na Brasilcel indefinidamente." A Brasilcel deve pagar 111 milhões em dividendos para cada um dos sócios este ano, baseados na performance da Vivo em 2009, segundo o jornal britânico.

Chantagem. O presidente executivo da Portugal Telecom (PT), Zeinal Bava, chamou a ameaça da Telefónica de bloquear o pagamento de dividendos de "tentativa de chantagem". "Por uma questão de coerência, depois das declarações que o diretor de finanças da Telefónica fez, resta a ele demitir-se do conselho de administração da PT, porque descumpriu deveres de lealdade, além de ter conflito de interesse", acrescentou Bava, nos Estados Unidos. O executivo se reuniu com investidores como os fundos Brandes Investments e BlackRock.

Bava também se encontra em roadshow, para convencer os acionistas de que a decisão do conselho de administração da PT, de recusar a proposta da Telefónica pela Vivo, foi acertada.

O presidente do Banco Espírito Santo (BES), Ricardo Salgado, considerou ontem que o governo português deveria usar a sua "golden share" (ação com direitos especiais) na Portugal Telecom para bloquear uma oferta hostil da Telefónica. O BES faz parte do grupo de acionistas portugueses que controla a PT.

Alternativa. Em sua entrevista ao Financial Times, Valbuena descartou a possibilidade tentar comprar a Telecom Italia, caso não tenha sucesso na aquisição da fatia dos portugueses na Vivo. Segundo ele, esse movimento seria uma "loucura".

A compra da operadora italiana, de quem os espanhóis já são os maiores acionistas individuais, daria a eles o controle da TIM Brasil, a terceira maior operadora celular no País. O problema seria assumir a dívida líquida da Telecom Italia, que soma 34 bilhões.

A integração da Telesp (empresa fixa de São Paulo) com uma operadora móvel é considerada essencial para a estratégia de crescimento da Telefónica.

O Brasil deveria ser o motor de crescimento da empresa no mundo, mas a Telesp, que enfrentou problemas com seu serviço de banda larga no ano passado, tem apresentado resultado abaixo do esperado. / AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

PARA LEMBRAR

Espanhóis têm dificuldade em aquisições

O Grupo Telefónica tem enfrentado problemas em sua estratégia de aquisições no Brasil. No ano passado, tentou comprar a GVT, empresa de telefonia fixa e banda larga, mas perdeu a disputa para os franceses da Vivendi. Atualmente, os espanhóis participam do grupo de controle de duas operadoras celulares - a Vivo e a TIM -, mas, na prática, não manda em nenhuma delas. Há alguns meses, a empresa estudou adquirir a TIM Brasil ou a Telecom Italia, e seus planos esbarraram em obstáculos políticos e no endividamento da empresa italiana. Tanto para a Portugal Telecom quanto para a Telecom Italia, sair do Brasil seria abrir mão do crescimento.

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