Telefónica não renova oferta pela Vivo

Depois de reuniões inconclusivas do conselho, Portugal Telecom havia pedido que proposta por fatia da Vivo continuasse válida até o dia 28

Renato Cruz, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2010 | 00h00

A Telefónica negou ontem ampliar o prazo de sua oferta de 7,15 bilhões pela fatia da Portugal Telecom (PT) na brasileira Vivo. O conselho de administração da operadora portuguesa não conseguiu dar uma resposta à proposta na sexta-feira, quando venceu o prazo dado pelo grupo espanhol.

Em comunicado à Comissão Nacional de Mercado de Valores (CNMV), da Espanha, a Telefónica informou que, "ao saber que o conselho de administração da Portugal Telecom não aceitou a referida oferta no prazo fixado, a mesma se tornou extinta".

A PT tem 50% da Brasilcel, que controla 60% da Vivo. O restante pertence aos espanhóis. Em anexo ao comunicado, a Telefónica apresentou duas cartas, uma da PT pedindo mais prazo e a sua própria negando o pedido.

"As discussões com a Telefónica progrediram de uma maneira construtiva e o conselho de administração da PT está comprometido a empregar seus melhores esforços para concluí-las de uma maneira que satisfaça os interesses de todas as partes", escreveram os diretores da PT, ao justificar a solicitação de aumento de prazo para 28 de julho.

"Como havíamos comunicado verbalmente antes do fim do prazo da oferta, nós gentilmente confirmamos por meio desta que a oferta, de acordo com seus termos e condições, terminou em 16 de julho de 2010, às 23h59 (horário de Lisboa)", respondeu a Telefónica.

O grupo espanhol não confirmou se irá em frente com a ideia de buscar uma solução judicial. No começo da semana passada, a Telefónica informou que buscaria a dissolução da Brasilcel no Tribunal de Arbitragem de Haia, para depois fazer uma oferta ao mercado pela Vivo.

Política. O desejo da Telefónica de ficar como a única dona da Vivo é antiga. A operadora brasileira foi criada no fim de 2002 e, menos de quatro anos depois, em maio de 2006, o presidente do grupo espanhol, César Alierta, anunciou publicamente que gostaria de comprar a participação dos portugueses.

A venda da fatia da empresa brasileira virou, em Portugal, uma questão política. O principal entrave foi a oposição do Estado português. Em 30 de junho, a maioria dos acionistas da PT aprovou a oferta da Telefónica, mas a venda acabou vetada pelo governo.

O veto aconteceu por meio das chamadas golden shares, ações com direitos especiais, que foram consideradas ilegais uma semana depois pelo Tribunal de Justiça da União Europeia. O bloqueio, no entanto, se manteve.

Na disputa pela Vivo, interesses financeiros misturaram-se a sentimentos de orgulho nacional, despertando rixas regionais que datam de 1580 - quando Portugal passou a ser governada pelo rei espanhol Filipe II, formando a União Ibérica, que durou até 1640 - e chegam ao jogo entre as seleções dos dois países na Copa do Mundo da África do Sul.

A Espanha eliminou Portugal por um a zero um dia antes da assembleia da PT. Um pequeno acionista da operadora portuguesa afirmou ao jornal Diário Económico que "perder a Vivo seria a segunda derrota para a Espanha".

Negociação. O veto à venda da Vivo fez bem à popularidade do governo português, mas repercutiu mal entre os investidores. O Banco Espírito Santo (BES), principal acionista individual da PT, com 7,99%, ameaçou vender sua participação na empresa, depois da intervenção do Estado numa decisão de mercado. O BES votou a favor da venda. As associações de acionistas minoritários de Portugal e da Espanha ameaçaram ir à Justiça.

Uma análise fria dos números pode levar à conclusão de que os executivos da PT conduziram bem o processo de negociação, pelo menos até a recusa de ampliar o prazo de ontem. A primeira oferta da Telefónica, em maio, era de 5,7 bilhões.

Uma campanha dos executivos portugueses junto aos investidores internacionais levou os espanhóis a elevar a oferta por duas vezes, chegando a 7,15 bilhões, um dia antes da assembleia. Esse valor representava, na sexta-feira, um ágio de 125% sobre o valor de mercado dos 30% da Vivo que tem a PT. Por outro lado, o montante ficou perigosamente próximo dos 7,2 bilhões que valiam toda a operadora portuguesa. A Telefónica ameaçou fazer uma oferta hostil pela PT, caso não tivesse sucesso na compra da Vivo.

Pontos chaves

Integração

O presidente mundial da Telefónica, César Alierta, está descontente há muitos anos de ter que dividir as decisões com os portugueses, e quer integrar a Vivo à Telesp, concessionária fixa de São Paulo, que pertence ao grupo espanhol

Gestão compartilhada

As participações iguais que PT e Telefónica têm na controladora da Vivo fizeram com que surgissem conflitos que deixaram a empresa numa situação difícil em seus primeiros anos

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