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'Tem de ser curioso, sair da zona de conforto'

Executivo troca trajetória de sucesso em montadora e inicia empresa sueca no Brasil

O Estado de S.Paulo

22 de março de 2015 | 02h08

Uma conjunção de fatores envolvendo a vida pessoal e o estágio que havia alcançado em seu trajeto profissional levou o sueco Anders Norinder a dar uma guinada em sua carreira, ao deixar sua bem-sucedida atuação na multinacional Volvo e partir para uma nova experiência: fazer, a partir de agosto de 2013, o start up no Brasil, onde queria permanecer, de uma nova empresa de seu país, a iZettle. A companhia oferece, segundo seu site, "serviços e aplicativos de pagamentos que vão de leitores de cartões que conectam-se a smartphones e tablets a caixas registradoras e ferramentas úteis para impulsionar vendas". Hoje, a iZettle informa ter 150 mil usuários - um número que lhe dá 35% de participação nesse mercado, segundo o executivo. "Vi que estava no meio da minha carreira profissional. E pensei: é agora ou nunca, que eu vou tentar fazer algo novo", conta Norinder, de 46 anos e que se graduou em marketing pela Universidade de Gotemburgo. A seguir, trechos da conversa com o executivo.

Sonho conquistado

Eu trabalhei quase 20 anos na Volvo. Na empresa, eu consegui o que sempre quis: cuidar de uma região grande. Eu tenho muita afinidade com a América Latina. Então, quando eu tinha uns 40 anos fui nomeado presidente da Volvo aqui na América Latina. Esses contratos de expatriado têm vencimento. Com o término, a expectativa era voltar para a Suécia ou ir para outra região. O que aconteceu foi que eu não estava com tanta vontade (de aceitar uma das duas hipóteses). Eu sabia que qualquer posição seria o mesmo (desafio), mas não em uma parte do mundo que eu gostava. Eu tinha chegado a uma posição em que eu pensava 'já fiz isto, era o que eu queria'. E do lado pessoal, eu também não poderia sair. Eu tenho filhos aqui no Brasil, era recém-separado. Então, havia a questão profissional, a situação familiar, mas também era um dado pessoal.

A transição

As pessoas falam em crise dos 40 anos, quando você se sente no meio da vida. Mas eu vi que estava no meio da minha carreira profissional. E pensei: 'É agora ou nunca, que eu vou tentar fazer algo novo'. Algo que não fosse ir para uma outra empresa automobilística, mas tentar algo realmente diferente. E conheci essa empresa, a iZettle, era uma startup sueca. Eu gostei muito da empresa, senti afinidade. Entrei em contato com a companhia me colocando à disposição para trabalhar com ela. Demorou um tempo, e eles me colocaram nesta posição. Foi muito diferente, porque antes eu trabalhava numa empresa que era toda estruturada, com sucesso, com um passado muito importante de serviços, e entrei numa empresa que era praticamente só eu.

Decisão acertada

Olhando para trás, posso dizer que foi a melhor coisa que fiz na minha vida profissional, porque, nessa nova empresa, eu poderia aplicar o que eu tinha aprendido na Volvo, em gestão, em negócio, e ainda aprender a respeito de uma nova indústria, que tem o futuro pela frente.

Do zero

Quando você começa uma empresa do zero, você é tudo. Não há estrutura. No início, na iZettle, eu era vendedor, eu era financeiro, eu era recursos humanos, eu era tudo. Isso era diferente. Foi-me exigido lançar a empresa aqui no Brasil em muito pouco tempo. Mas tive muita ajuda do pessoal da Suécia. Obviamente, trabalhei muito. Dormi pouco, trabalhei muito. Não viajava muito, o que é muito bom. Consegui ver mais os meus filhos do que na época em que trabalhava na Volvo, embora estivesse trabalhando muito mais. E mesmo o estresse que você vive é diferente porque você vê o resultado. Vê que aquilo que você fez hoje é bem melhor do feito ontem. E amanhã você vai dar mais um passo. Foi estressante, claro, mas foi uma fase divertida. Mas nada na vida profissional é fácil.

O cozinheiro

Bem, durante uma época eu fui cozinheiro também. Antes mesmo da faculdade, trabalhava em restaurante. Mas não aplicava isso a minha vida profissional, que neste caso, começou com a Volvo.

Na montadora

Comecei em logística e gestão de produtos. Era estagiário na Espanha. Depois, trabalhei mais um ano e meio na Suécia, Em seguida, eu trabalhei um ano, um ano e pouco na Austrália, ainda na área de logística. 'A mudança seguinte foi para Jacarta, Indonésia, já era marketing. De lá fui para Cingapura, em logística e gestão de produto. Em seguida fui para Malásia, na mesma área, e de lá para o Brasil. Cheguei aqui no final de 1999, também como responsável por gestão de produto e logística. Em 2002, assumi a subsidiária no Brasil, na área de automóveis. Em 2004, acumulei a subsidiária da Argentina. Em 2005, fui para o México cuidar do mercado local e de lá voltei para o meu querido Brasil para cuidar da América Latina com gestão principal da operação Brasil.

Crise e bons resultados

Isso, (a vinda para o Brasil) se deu no final de 2008. E aí o mundo estava em crise. Havia pânico para todos os lados, mas como o Brasil é um país que vive em constante transformação, nas crises nós vemos uma oportunidade no mercado do Brasil e em alguns países da América Latina. Decidimos, então, acelerar as vendas. Então, tivemos uma época em que o resto do mundo estava em crise e, ao mesmo tempo, tínhamos um forte crescimento no Brasil, Chile e Colômbia. Foi uma época boa. Porque quando há esse crescimento, você vê o resultado, é muito satisfatório. E no final de 2011, eu tomei a decisão de sair.

Culturas diferentes

Eu sempre tive uma curiosidade pessoal de conhecer novas culturas. E eu podia combinar isso com trabalhar fora e também conhecer um novo mercado. Para mim é muito satisfatório, como sueco, conseguir fazer negócios em outro país que não é o meu. Num idioma, numa cultura que não são meus. É uma sensação boa.

Legado

Eu acho que eu consegui fazer uma coisa que muitas pessoas pensavam não ser possível: levantar a marca de vendas de mil carros no Brasil para cinco mil em dois anos. Acho que isso é um legado. Obviamente, isso foi feito junto com a equipe e com bons produtos. Assim, conseguimos colocar a América Latina, que era uma região pequena, como uma região estratégica. Eu acho que consegui manter alta a bandeira brasileira lá na Suécia, e mostrar que vale a pena investir neste mercado.

O resultado

Para conseguir esse resultado, eu demonstrei o potencial do mercado brasileiro, a situação socioeconômica e demográfica do País, que havia uma classe média crescendo e que queria consumir - e nós tentando oferecer produtos para essas classes emergentes. Obviamente, é um produto de alto luxo, é uma classe média bem alta. Fizemos um esforço para trabalhar muito perto dos distribuidores, os canais de venda. Falando agora parece fácil. Mas é uma coisa que estamos tentando e que criamos aqui no iZettle também.

Usuários

A iZettle foi criada há quatro anos na Suécia e, neste mês, completamos um ano e meio aqui. Temos 150 mil usuários. Poderia ter ido melhor, mas estamos contentes com o número. Representa hoje, segundo a Associação Brasileira de Cartões (e Serviços) (Abecs), uns 35% do mercado.

A missão atual

É manter o crescimento aqui no mercado. Ainda não divulgamos números, mas a missão é continuar a expansão no mercado brasileiro.

Dicas para os jovens

Minha dica é fazer o que você gosta de fazer e não aquilo que os outros esperam de você. No meu caso, por exemplo, eu não fui para os mercados mais importantes, para os maiores. Mas tem de gostar do que faz. Vibrar com o trabalho, com o produto, com os colegas, é gostar. Muitas vezes eu penso que uma pessoa escolhe um carreira por pressão de amigos, dos outros. Tem de tentar fazer o que gosta. É fácil falar, mas tem de ser curioso, tem de sair da zona de conforto. Fazendo isso, o resultado que vai se estabelecer, a sensação, é boa. /CLÁUDIO MARQUES

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