ANDRE LESSA/ESTADÃO
ANDRE LESSA/ESTADÃO

‘Tem de ser herói para gerir empresa aqui’

Presidente da Whirlpool diz que em um mês tributação sobre exportação aumentou em três pontos porcentuais

Entrevista com

João Carlos Brega

Márcia De Chiara, O Estado de S. Paulo

16 Maio 2015 | 05h00

João Carlos Brega, presidente da Whirlpool para a América Latina, que inclui a produção de eletrodomésticos das marcas Brastemp e Consul, e a Embraco, fabricante de compressores, disse que o governo precisa dar uma visão do que se pretende para o País. Na sua avaliação, por enquanto o ajuste fiscal se traduziu em aumento de carga tributária.

Um exemplo do aumento da carga tributária é a redução, de dezembro para janeiro, do imposto devolvido aos exportadores, o Reintegra, em três pontos porcentuais, o que prejudica as exportações. Outra distorção apontada pelo executivo foi a elevação do PIS sobre operações financeiras. Como o hedge que as empresas fazem para se proteger da variação cambial é considerado uma receita financeira, isso onerou ainda mais as exportações. A Embraco, que no passado chegou a exportar 60% da produção sete anos atrás, hoje vende para o exterior cerca de 30%. “Tem de ser um herói para gerir empresa aqui”, disse ao Estado. A seguir os principais trechos da entrevista.

Por que a Whirpool reduziu em 3 mil o número de trabalhadores nos últimos 12 meses?. Essa corte vai continuar?

Tínhamos no Brasil 21 mil funcionários. Como desde o ano passado não estávamos otimistas com 2015, decidimos congelar a reposição dos funcionários que deixaram a empresa. Com isso reduzimos os quadros em 3 mil funcionários nas três fábricas entre o primeiro trimestre do ano passado e o primeiro trimestre deste ano. Neste momento a fábrica de Manaus está em férias coletivas por conta sazonalidade na produção de ar condicionado.

Além de Manaus há outra planta que está em férias coletivas ou vá entrar em férias coletivas?

Não. De maneira preventiva demos férias coletivas em fevereiro (8 mil funcionários) porque antevimos que o mercado seria difícil. O que pode acontecer daqui para frente é uma parada em alguma linha para manutenção. Mas no sentido de férias coletivas não tem nada no horizonte. Em função do mercado mais fraco?

Como foi o primeiro trimestre?

No primeiro trimestre o mercado caiu 15% e nós caímos um pouco mais.

Como vocês estão vendo os próximos meses?

Esperamos que o segundo semestre seja melhor do que o primeiro, mas pior que o segundo semestre de 2014.

Por que vai cair em relação ao ano passado?

A gente já sabia o que é o ajuste. Só que existe uma crise política, que agrava a instabilidade. A gente espera que o governo nos dê, como sociedade como um todo, o que vai acontecer de investimento, qual o lado positivo do remédio que estamos tomando. O que a gente espera que o governo sinalize que vá abrir as concessões, vamos fazer leilões de hidrovias, ferrovias, aeroportos. Com isso sinaliza um cenário de médio e longo prazo positivo em termos de investimento de infraestrutura, o que e alimenta a cadeia inteira. É isso que está faltando.

Essa queda de vendas afetou o resultados da empresa lá fora?

Sim porque o Brasil é o segundo maior mercado da Whirlpool, atrás dos EUA.

A direção da empresa não fica com pé atrás?

A Whirlpool é uma empresa com mais de 100 anos e no Brasil está há mais de 60 anos. Não é primeira crise que a Whirlpool enfrenta no Brasil. Ela está como nós brasileiros torcendo para sair o quanto antes e acredita nos alicerces básicos do País.

Com esse cenário, como ficam os investimentos?

Continuamos investindo. Vamos lançar 200 produtos este ano na região latino-americana e mais de 100 no Brasil, lançamos 180 no ano passado e 160 produtos no ano anterior. Brasil é 50% a 60% disso. Não reduzimos um centavo de investimento de produto, em pesquisa e desenvolvimento e inovação. A confiança no Brasil continua. O Brasil tem todos os ingredientes e ninguém vai mudar isso. Tem uma oportunidade demográfica para os próximos 25 a 30 anos. A penetração de geladeira é alta, está em 98%. Só que desses 98%, só a metade é de aparelhos de descongelamento automático. A outra metade tem que apertar o botãozinho. Tem muita oportunidade com inovação apara crescermos. O que precisa é ter a perspectiva de confiança resgatada. Entendemos que essa situação é temporária.

E exportação? Vocês vão ampliar a exportação com esse câmbio mais favorável?

O problema da exportação é a instabilidade do câmbio. O segundo problema é que o mesmo governo que em dezembro disse que o exportador teria um retorno da carga tributária (Reintegra)do valor exportado de quatro pontos chegou em janeiro e falou que a partir de agora seria um ponto. Para se conseguir homologar o produto e exportar, é preciso uma previsibilidade maior do câmbio. Esse aumento da carga tributário que o governo colocou sobre o exportador do dia para a noite também prejudicou. Uma política de exportação tem que ser de longo prazo. A única coisa que aconteceu foi o câmbio e não é uma política econômica propriamente dita, é uma decorrência. Mais recentemente subiu o PIS sobre as operações financeiras. O exportador faz hedge para exportar e o governo considera o hedge que o exportador faz para se proteger da variação cambial é uma receita financeira. Tem ser um herói para gerir negócio aqui.

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Quanto representa a exportação atualmente na empresa?

A exportação de linha branca é muito pequena. Já foi a 15% do total em 2000 e hoje é menos de 3%. A Embraco, fabricante de compressores, que costumava exportar 60% da produção 7 ou 8 anos atrás, hoje está entre 30% e 35%. A planta da Embraco do México está produzindo compressores para exportar para os Estados Unidos, que antes era atendido pelo Brasil.

O que falta para o País mudar esse quadro?

O que a sociedade quer saber é qual a visão de futuro. Para fazer uma transformação é preciso definir aonde você quer chegar. Ai você define onde você está. Ai você faz um menos o outro e vê quais as medidas que tem que ser tomadas. Aonde queremos chegar? Queremos ser um País desenvolvido com crescimento de 5% que exporta só manufatura?Me fala que eu vou tomar esse remédio por um período de tempo, mas vou ter isso no futuro. Falta essa definição de horizonte.

O senhor acha que o ajuste do governo foi mais forte que o esperado?

O que eu estou apto a responder é que por enquanto o que houve foi um aumento de carga tributária atingindo a exportação. O governo, que é 25% do PIB está parando de investir. Mas redução despesa de custeio eu não vi. É a minha visão. Talvez eu não tenha todo o conhecimento. O que se chama de ajuste eu vi aumento de imposto, por enquanto. Pode até ser temporário e eu não tenho nenhum problema com isso, desde que a visão de futuro seja colocada.

Além de fazer enxugamento de pessoal, como vocês vão rebater a crise?

Continuar investindo em tecnologia. Acabamos de lançar a lavadora de 15 quilos, essa capacidade a gente não tinha. Lançamos o micro-ondas tostex, que deixa o pão crocante. É assim que se faz. Não se esqueça que antes da crise tem a competição pelo bolso do consumidor. A gente concorre com a mensalidade do celular, da escola, da TV a cabo, do carro. E hoje você concorre com um bolso menor. Vamos gerar a demanda. Ele vai entrar na loja, ver um produto bonito e tem muito ais lançamento vendo aí. Lava-louça é um produto com 2% de penetração. Gasta um sexto do que gasta uma lavagem normal na pia. Mas as pessoas dizem que o mais difícil é instalar. Lançamos um plug and play. Em cinco minutos você mesmo instala. Você coloca a mangueira e está ligada a lava-louça. Pegando carona na baixa penetração do produto.

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