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Tem sido um mês e tanto

O curto prazo é um dia, e o realmente longo prazo talvez seja uma semana

Albert Fishlow, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2019 | 03h00

Bolsonaro visitou Trump na Casa Branca no início de seu governo. Havia apenas sinais positivos de um novo relacionamento mais profundo com os EUA. Além do que, os EUA propuseram a entrada do Brasil na OCDE.

Mas quatro semanas depois, Bolsonaro privou-se de uma visita a Nova York para receber o prêmio de Personalidade do Ano da Câmara de Comércio Brasil-EUA. Em vez disso, aceitou a honraria em Dallas. O motivo foi a recusa pública do prefeito Bill de Blasio, forçando primeiro uma mudança no local e, em última instância, o cancelamento da visita de Bolsonaro a Nova York.

O prefeito estava bastante errado em sua rejeição, ao se referir ao histórico lamentável de Bolsonaro na política social, já um motivo de preocupação no Brasil. A escolha do momento por De Blasio foi bastante correta. Logo depois, ele declarou que buscaria a indicação para concorrer à presidência pelo Partido Democrata, juntando-se aos 22 candidatos anteriores. Ele então partiu para Iowa em sua tentativa desesperada, depois de ter conquistado alguma publicidade nacional.

Trump certamente aprovou a decisão de Bolsonaro. Na vinda de Bolsonaro ao Texas, ele mostrou sua disposição em se queixar de uma imprensa injusta – nos dois países – e da falta de suposta liberdade garantida pela Primeira Emenda, por suas visões não convencionais. Esse direito constitucional é absolutamente essencial – nos dois países.

A escolha do ministro das Relações Exteriores, Mike Pompeo, como seu homólogo americano, em meio às crescentes crises internacionais dos EUA com Irã, Coreia do Norte, Venezuela e China, pode ter sido igualmente equivocada. O conhecimento de Pompeo sobre o Brasil é modesto, na melhor das hipóteses. Sua contribuição para as relações de longo prazo entre os países é improvável.

O vice-presidente Mourão conteve a tentação de Bolsonaro de ajudar a desalojar o venezuelano Maduro e viajou à China para discutir as crescentes oportunidades comerciais. Ele parece entender a posição essencial do Brasil como um link para os outros países do Brics.

Um convite para o ministro da Economia, Paulo Guedes, teria passado despercebido, mas muito mais informativo. O foco imediato do Brasil na reforma da Previdência é aceito pela maioria, senão por todos, embora a magnitude da redução, os efeitos sobre a distribuição de renda e a convicção quanto à capitalização estejam em discussão.

Simbólica como tal reforma se tornou, questões de longo prazo também são relevantes. Já faz muito tempo que o foco poderia ser mais no longo prazo, com estratégias econômicas, sociais, políticas e internacionais coerentes. O curto prazo é um dia, e o realmente longo prazo talvez seja uma semana. Todos esperam milagres nos primeiros cem dias.

O que importa agora no Brasil é a trajetória descendente contínua das projeções de crescimento para 2019. Os resultados do primeiro trimestre foram bastante decepcionantes, forçando revisões para baixo na maioria das previsões, incluindo aquelas feitas recentemente pelo próprio Guedes. Mas mesmo ele continua confiante de que o crescimento vai rapidamente reviver assim que a questão da Previdência for resolvida. Observe-se que haverá modestas consequências orçamentárias nos próximos cinco anos, independentemente da aprovação da legislação.

A volta da confiança nos negócios por si só não pode fornecer a ajuda necessária para lidar com a falta de liberdade inerente aos gastos do governo. Pouco do que é discricionário permanece. Saúde, educação, saneamento e outros gastos sociais são restringidos. Alguns Estados e municípios não podem cumprir suas obrigações, forçando uma vez mais a assistência federal adicional e imediata.

Com as atuais regras fiscais, há pouca opção a não ser limitar os gastos, com importantes consequências para o longo prazo. Inevitavelmente, tais regras parecem um método apropriado para lidar com o problema do déficit no futuro. Mas, implícitas em tal legislação, havia projeções de taxas mais altas de crescimento econômico, com receitas crescendo ainda mais rapidamente. O que não aconteceu.

Alguns calculam que haverá um aumento contínuo do déficit público como consequência, em vez de sua reversão em pouco tempo. Com a energia para resolver os gastos com Previdência, é necessária uma investigação mais ampla nos muitos outros elementos necessários para a criação de uma estratégia adequada.

Qualquer política precisa de tempo para comprovar sua eficácia. Prometer demais, cedo demais, é uma receita errada. Dentro de um ambiente global onde as diferenças políticas são ampliadas, e as decisões econômicas podem não ser sustentáveis, o populismo nacionalista agrada. Nós já deveríamos saber pelo passado, que essa não é a solução correta. /TRADUÇÃO CLAUDIA BOZZO

*ECONOMISTA E CIENTISTA POLÍTICO, PROFESSOR EMÉRITO NAS UNIVERSIDADES DE COLUMBIA E DA CALIFÓRNIA EM BERKELEY

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