Beto Barata/Brazil's presidential press office via AP
Beto Barata/Brazil's presidential press office via AP

Temer diz que ir à OMC é última opção

Presidente só falou sobre barreiras ao aço adotadas pelos Estados Unidos quando provocado pelo diretor do Fórum Econômico Mundial

Rolf Kuntz, O Estado de S.Paulo

14 Março 2018 | 22h50

O Brasil evitará confronto e só recorrerá à Organização Mundial do Comércio (OMC) contra as novas barreiras comerciais americanas se o diálogo falhar, explicou o presidente Michel Temer nesta quarta-feira, 14, na sessão de abertura do Fórum Econômico Mundial na América Latina. Nesse caso, acrescentou, o governo tentará uma ação conjunta com outros países prejudicados pelas tarifas sobre aço importado impostas pelo presidente Donald Trump. É preciso, disse Temer, tratar dessa questão “com muito cuidado”.

A declaração pacifista do presidente foi reforçada pelo ministro de Relações Exteriores, Aloysio Nunes Ferreira. Brasil e Estados Unidos, disse ele, são países amigos, há investimentos dos dois lados, e “primeiro deve vir o diálogo”.

O primeiro passo, havia indicado Temer, deve ser o contato de empresas brasileiras exportadoras de aço com as importadoras americanas. O produto brasileiro, lembrou o presidente, é semiacabado e serve de insumo para as companhias importadoras. Pode-se pensar, portanto, numa ação conjunta de convencimento em Washington. Além disso, ele já informou a assessoria do presidente Trump de seu interesse em conversar. “Acho que ele gostaria de receber um telefonema”, arriscou o presidente.

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Também o ministro de Relações Exteriores se mostra interessado em conversar com negociadores do governo americano sobre a aplicação das sobretaxas. Se nada disso funcionar, admitiu, o Brasil terá de tomar outro caminho para defender seus interesses. Por enquanto, o caminho preferido é o do entendimento. Na semana passada, o governo já havia indicado seu objetivo: conseguir isenção das tarifas para os produtos brasileiros. Nada além disso.

Temer e o ministro falaram sobre o assunto porque foram provocados por uma pergunta do presidente e fundador do Fórum Econômico Mundial, Klaus Schwab. Mas Schwab já havia mostrado preocupação muito mais ampla que a proteção de interesses de um ou de alguns países. Ele aproveitou a homenagem a Pelé, convidado para a sessão plenária de abertura, para abordar o assunto.

Fair-play. Depois de elogiar Pelé como símbolo do fair-play, Schwab falou sobre a necessidade de um comércio internacional baseado em jogo limpo e em regras destinadas a preservar a competição. Foi uma referência inequívoca às medidas protecionistas anunciadas na semana anterior pelo presidente Donald Trump. Além disso, sua primeira pergunta ao presidente Michel Temer, depois dos discursos iniciais das autoridades convidadas, foi sobre protecionismo. A pergunta propiciou a Temer a oportunidade para falar sobre a inclinação de seu governo – favorável à abertura, segundo ele – e sobre o desafio imposto pela nova iniciativa do governo americano.

Em seu discurso, o presidente brasileiro havia passado longe do problema das tarifas. Temer limitou-se, nesse pronunciamento, a falar sobre como o Brasil saiu da recessão e voltou a crescer. Mencionou as linhas principais de seu governo e citou a reforma trabalhista e a criação do teto de gastos como realizações do programa reformista. Tendo posto de lado o discurso escrito e por ele classificado como muito extenso (24 minutos), Temer exercitou a oratória improvisada. Exibiu de novo o cacoete, também característico do ex-presidente Lula, de pontuar as frases dirigindo-se de passagem a pessoas presentes – ministros, autoridades, empresários etc.

O prefeito João Dória, falando como anfitrião, fez as saudações habituais, falou sobre o dinamismo econômico de São Paulo e mencionou o governador Geraldo Alckmin como futuro presidente do Brasil. Alckmin, discreto, evitou falar de eleições, mencionou brevemente o problema do protecionismo e citou o programa de privatizações de seu governo. Em homenagem a Pelé, traduziu a sigla PPP (parcerias público-privadas) com os nomes de um antigo trio de jogadores do Santos: Pagão, Pelé e Pepe.

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O público levantou-se duas vezes para aplaudir o homenageado. Pelé repetiu o apelo feito na comemoração de seu milésimo gol: cuidem da educação das crianças.

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