Clayton de Souza/Estadão
Clayton de Souza/Estadão

'Temer precisa aproveitar lua-de-mel política para aprovar medidas'

Loyola acredita que Temer vai propor uma reforma para a Previdência e regras de teto para a dívida pública e de gastos

Entrevista com

Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central

Ricardo Leopoldo, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2016 | 10h53

SÃO PAULO - O presidente interino Michel Temer terá que fazer "movimentos rápidos" para aprovar medidas na área fiscal junto ao Congresso, a fim de aproveitar o período de lua-de-mel com a classe política e a opinião pública, comentou Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central. Em entrevista ao Broadcast, serviço de informações em tempo real da Agência Estado, Loyola acredita que Temer vai propor logo após a posse uma reforma da Previdência, a Desvinculação de Receitas da União (DRU) mais ampla e regras de teto para a dívida pública e de gastos pela União.

Para Loyola, os mercados de ativos financeiros devem estabilizar nos próximos dias com Temer como presidente interino, mas depois podem registrar resultados mais positivos na medida em que mudanças estruturais na área fiscal forem aprovadas pelo Congresso. Ele acredita que o novo governo terá condições de restabelecer o presidencialismo de coalizão, pois Michel Temer é um político experiente. Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

580707O que senhor espera do início do governo Temer?

Tem que fazer movimentos rápidos para aproveitar uma fase de lua-de-mel política e junto à opinião pública para avançar algumas questões, sobretudo na área fiscal. Deve entrar a reforma da Previdência e vir uma DRU pouco mais abrangente. Talvez será necessário fazer alguma regra de teto para a dívida do governo e de gastos públicos. Essas mudanças devem dar maior transparência à política fiscal e sinalizar uma redução da dívida bruta como proporção do PIB nos próximos anos. Essas ações são necessárias para criar uma percepção favorável do novo governo. E evidentemente é preciso atacar o déficit do setor público que neste ano promete ser grande. O resultado fiscal prometido para 2016 será difícil de ser atingido se a meta não for alterada.

O senhor vê medidas microeconômicas sendo adotadas logo?

Vejo espaço na área de incentivo ao investimento, com mudanças positivas nas agências reguladoras. Também deve vir algo para avançar as concessões públicas para infraestrutura.

O novo governo conseguirá uma base política sólida capaz de aprovar muitas dessas medidas?

Acho que tem, embora exista limite. O governo Temer terá de ser inteligente para escolher medidas importantes e também para conseguir suas respectivas aprovações pelo Congresso, ganhar batalhas. Não pode se perder com questões menores. Por exemplo: eu fico preocupado com uma retirada do status de ministro do presidente do Banco Central. É preferível deixar como está, enquanto o BC não tem independência baseada em lei.

Qual deve ser a reação de mercados de ativos financeiros no curto prazo com o governo Temer?

O mercado vai estabilizar e depois mais a frente pode ter uma melhora adicional. Investidores já elevaram bastante os preços de ativos, como ações na Bolsa e o Real, que fechou em R$ 3,446 nesta quarta-feira. Daqui a pouco, investidores podem tentar romper a marca de R$ 3,40. Vamos ver como começa a atuar o Temer à frente do governo. E existe muita incerteza. Até porque Temer é presidente interino, embora politicamente todo mundo diz que não tem volta. Mas...

Um pouco da incerteza também estaria relacionada às relações do governo com os partidos que o apoiam no Congresso, pois muitas vezes políticos seguem interesses que não são programáticos?

Exato, é o nosso velho presidencialismo de coalizão. O Temer significa a volta à "normalidade" da política brasileira, já que Dilma não conseguiu viabilizar uma base aliada forte. Temer é um político experiente no jogo da política brasileira. É razoável esperar que ele terá muito mais sucesso do que Dilma nesse quesito.

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