Temor com commodities no Brasil é equívoco, diz Merrill Lynch

Estudo de analistas do banco mostra que impacto da queda nos preços no País seria menor do que se pensa

Marcílio Souza, da Agência Estado,

18 de agosto de 2008 | 12h53

O firme declínio do superávit comercial brasileiro desde o segundo trimestre do ano passado, juntamente com a queda dos preços das commodities, tem despertado preocupações com o possível impacto de mais recuos de preços e com a sustentabilidade do balanço comercial do País. Mas, na opinião de analistas do Merrill Lynch, essas preocupações estariam equivocadas, porque "se baseiam na falsa premissa de que a economia brasileira foi uma grande beneficiária direta do superciclo das commodities nos últimos anos, e por isso, deverá ser gravemente prejudicada se o ciclo terminar".  Veja também:Balança tem melhor resultado do ano na 3ª semana de agosto Os analistas do Merrill fizeram um exercício no qual simulam os resultados da balança comercial para os últimos anos usando os preços médios das commodities de 2000 a 2004 e comparam esses resultados simulados com os balanços que realmente foram apresentados. O objetivo é encontrar uma medida do impacto das commodities sobre o total. O exercício já havia sido feito com vários países da América Latina e foi agora repetido com dados mais recentes. "Em particular, no caso do Brasil, o impacto da queda (dos preços das commodities) é modesto (de 1,2% do PIB) e o menor entre os países da amostra", diz o relatório. "Uma razão por trás desse resultado é o fato de que o Brasil continua sendo uma economia relativamente fechada, de modo que o comércio não é realmente volumoso em termos de PIB. Outro motivo é a diversificação do comércio brasileiro", que, segundo os analistas do Merrill, faz com que, em termos líquidos, os preços das commodities tenham um impacto menor que o que geralmente se pensa. A percepção de que o Brasil é uma economia de commodities, explicam eles, vem dos mercados de ativos. Um sinal disso é o fato de que "a fatia das commodities no índice MSCI Brazil é de cerca de 60%, ao passo que as exportações de commodities pelo País continuam representando menos de 5% do PIB". "Isso significa que os investidores estão certos em se preocupar com o impacto da queda no curto prazo das commodities sobre os preços de ativos fundamentais no Brasil (por exemplo, a Bovespa), mas também devem reconhecer que a falta de uma pressão semelhante sobre a economia real brasileira mantém intacta a maior parte da tese de investimento macro no país", disseram os analistas.  Para entender melhor o impacto das mudanças dos preços das commodities na balança comercial, os analistas olharam separadamente para o comportamento de importações e exportações no superávit comercial acumulado nos 12 meses anteriores. A série apresenta dados referentes a janeiro e julho, de 2000 a 2008. Segundo eles, os preços de exportação estão fortemente relacionados com os preços das commodities, para os quais o índice de commodities CRB, da Reuters, é usado como proxy. Isso já era de se esperar. Menos óbvio é o fato de que os preços de importação também estão, em larga medida, explicados pela variação das commodities. "Naturalmente, como eles também estão altamente correlacionados um com o outro, a diferença entre os preços de importação e exportação (termos de troca) não tem uma alta correlação com o CRB", explica o relatório. Ou seja, os termos de troca do Brasil não variaram significativamente nos últimos 12 meses, segundo os analistas. "De fato, o que nós argumentamos é que isso raras vezes foi o principal fator por trás dos movimentos da balança comercial (em qualquer direção). A contração em curso resulta principalmente do crescimento do volume de importações, marcadamente mais acelerado do que a expansão das exportações. Em outras palavras, isso resulta principalmente da aceleração da demanda doméstica numa época de esfriamento da expansão global", afirma o relatório. Os analistas acreditam que o superávit na balança comercial continuará recuando, por causa desse diferencial de crescimento, mas isso, associado com o atual déficit em conta corrente, "não deve ser considerado em si um risco macroeconômico". Um déficit moderado em conta corrente, em torno de 3% do PIB, segundo eles, é consistente com um país que recebe poupança estrangeira para financiar investimentos dado o retorno mais alto do capital no mercado doméstico. "O gerenciamento apropriado da política macroeconômica deverá ajudar a garantir que esse processo será mais suave do que no passado", diz o relatório.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.