Temor de calote da Grécia cresce entre investidores

Ministro das Finanças grego já admitiu que a 'liquidez está acabando'; procura pelo seguro contra inadimplência disparou nos últimos dias

O Estado de S.Paulo

18 Abril 2015 | 02h05

LONDRES, WASHINGTON - O temor de um calote internacional da Grécia vem se tornando cada vez mais forte. Investidores se mostram muito receosos sobre a possibilidade de que um acordo entre o governo grego e credores internacionais não será alcançado nos próximos dias. Isso levaria Atenas a ficar sem recursos no curtíssimo prazo.

Esta semana, o ministro das Finanças da Grécia, Yanis Varoufakis, admitiu, pela primeira vez, que "a liquidez está acabando" em Atenas. Em outras palavras, o dinheiro do governo está mais perto do fim. Mas, mesmo com o reconhecimento do risco de um gravíssimo problema em breve, o ministro grego manteve o discurso pouco amigável às reformas mais amplas.

Durante encontro do Fundo Monetário Internacional (FMI), em Washington, Varoufakis disse que Atenas "não concordará com metas que sabemos que nossa economia não pode cumprir". "Precisamos chegar a um consenso com nossos parceiros sobre quatro ou cinco grandes reformas e decidir sobre um plano fiscal racional para quatro ou cinco anos", disse o ministro.

"Com nenhum acordo iminente e ceticismo generalizado, os mercados parecem estar se preparando para quando, e não se, o calote grego acontecerá", disse Michael Hewson, analista da corretora CMC Markets em Londres. Diante desse cenário, a procura por contratos de seguro contra o calote (credit default swap, ou CDS), disparou nos últimos dias. Na quinta-feira, os CDS da Grécia apontavam que a hipótese de calote chegou a 77%, segundo a consultoria Markit.

Em nota a clientes, Hewson lembra que até a diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, foi a público para demonstrar contrariedade com a consulta feita pelos gregos sobre um eventual reescalonamento nos pagamentos de Atenas. Além disso, o analista nota que, ao mesmo tempo em que Varoufakis mantém discurso pouco flexível às reformas, o mesmo é feito pelo colega alemão, o ministro das Finanças de Angela Merkel, Wolfgang Schäuble. Por isso, o impasse não parece fácil de ser resolvido.

Crédito. Em Washington, um dos membros do conselho diretor do Banco Central Europeu (BCE) e presidente do Banco Central da Áustria, Ewald Nowotny, disse ontem que o programa de empréstimos emergenciais da instituição não pode se tornar um mecanismo de financiamento de longo prazo para os bancos da Grécia. "Por causa da estrutura legal, o BCE não está na posição de substituir o financiamento de longo prazo, essa é uma decisão política", afirmou.

"Se uma decisão (sobre o programa para a Grécia) não surgir, o BCE não pode substituir isso, não somos um substituto para um programa decidido politicamente", afirmou. O BCE pode apenas oferecer assistência de liquidez emergencial (ELA, na sigla em inglês) para bancos solventes e os bancos gregos atualmente recebendo esse apoio não podem elevar sua exposição à dívida do governo grego.

No âmbito da ELA, o Banco Central da Grécia empresta dinheiro às instituições financeiras do país. Os empréstimos têm uma taxa de juros maior que os empréstimos padrões do BCE, enquanto o risco de crédito fica com a Grécia.

Também em Washington, o presidente dos EUA, Barack Obama, pediu que o governo grego realize reformas estruturais, a fim de garantir flexibilidade em seu orçamento. Durante entrevista ao lado do primeiro-ministro da Itália, Matteo Renzi, Obama elogiou as reformas econômicas italianas, dizendo que elas podem servir como um modelo para a Grécia.

Obama disse que a Grécia precisa melhorar sua arrecadação de impostos, reduzir sua burocracia e ter mais flexibilidade no mercado de trabalho. Ele não comentou, porém, as difíceis negociações entre Atenas e seus credores internacionais sobre um novo financiamento emergencial para os gregos. / Fernando Nakagawa e Dow Jones Newswires

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