‘Temos de continuar a fazer o que fazemos: contar boas histórias’

Para especialista, na era das notícias falsas, os jornalistas precisam insistir em informação de qualidade e análise

Entrevista com

Rick Edmonds, analista de mídia do Poynter Institute

O Estado de S. Paulo

08 de abril de 2017 | 16h00

O pesquisador Rick Edmonds, do Poynter Institute, na Flórida, acompanha a adaptação dos jornais ao mundo digital há mais de uma década. Para ele, a internet alterou a relação dos leitores com as fontes de informação e trouxe o desafio de ensinar o público a reconhecer o jornalismo de qualidade. Nesta entrevista, Edmonds discute o papel da mídia e das empresas de tecnologia para reduzir a disseminação de notícias falsas.

Como distinguir notícia falsa de jornalismo de qualidade?

O primeiro componente é que ele é baseado em fatos. E essas informações são cuidadosamente checadas. Não é apenas pegar o que alguém disse a você e publicar. É preciso verificar e analisar criticamente esses fatos. Um terceiro ingrediente é que o conteúdo seja apresentado de forma acessível aos leitores e seja relevante para a vida deles, não importa em que área seja. Nem é preciso dizer que há muita coisa circulando hoje que não tem uma dessas qualidades ou mesmo nenhuma delas.

Qual o papel do jornalismo nesse novo mundo digital?

Antigamente, os jornais realmente eram os guardiões da informação. Mas o mundo digital destruiu os muros. Há muitas fontes de informação à disposição e muitas maneiras de espalhar sua mensagem pelo mundo sem ter de passar por um veículo de comunicação. Políticos, integrantes de forças policiais, empresas têm hoje formas diretas de chegar até o público. Esse é o coração da transformação digital.

Como os veículos de comunicação podem participar desse diálogo?

É impossível colocar todo esse conteúdo de volta na garrafa. O melhor conselho que ouvi nesse sentido veio de Martin Baron, editor do Washington Post. Ele diz que, basicamente, temos de continuar fazendo o que fazemos, jornalismo de qualidade. Contar boas histórias e divulgá-las ostensivamente.

Qual o papel das empresas de tecnologia nesse contexto?

Google e Facebook têm assumido, ainda que tardiamente, que são parte do problema de disseminação de informações inverídicas e estão se colocando à disposição para fazer o que for possível para suprimir conteúdos falsos ou pelo menos avisar os usuários sobre a falta de credibilidade. Essas empresas têm procurado parcerias com instituições como o Poynter para incentivar programas de checagem de dados e treinar pessoas. O Poynter é proprietário do Tampa Bay Times, que criou o Politifact (primeiro serviço para checar a veracidade do que os políticos estavam falando). Com essas iniciativas, as empresas querem que voluntários sejam capazes de dizer o que é ou não falso. Isso, no fundo, é assumir apenas parte da responsabilidade sobre o problema.

O que a imprensa pode fazer para esclarecer os leitores sobre o risco das fake news?

Alguns diriam que saber ler notícias é exercer um tipo de pensamento crítico, e o pensamento crítico é a ferramenta adequada para que adultos se engajem na vida pública. É possível ensinar isso na escola, se houver vontade e tempo. Falar desse assunto com adultos é mais difícil, porque não é uma boa campanha de marketing dizer: ‘Você não sabe do que está falando, deixe eu dizer a você’. Mas sinto que muitas pessoas precisam de ajuda para navegar nesse mar de informações. A proliferação de fake news e a eleição de Donald Trump, de fato, fizeram aumentar o número de assinantes dos principais jornais americanos. A principal associação de jornais nos Estados Unidos tem batido na tecla de que é preciso procurar uma fonte confiável de informação, em qualquer plataforma.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.