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‘Temos de repensar a escola brasileira’, diz diretor-geral do Senai

Na avaliação de Rafael Lucchesi, o Brasil não investiu no ensino profissionalizante por uma ‘questão cultural’

Luiz Guilherme Gerbelli, de O Estado de S. Paulo,

20 de novembro de 2013 | 17h24

SÃO PAULO - O diretor-geral do Senai, Rafael Lucchesi, propõe um mudança no sistema educacional brasileiro. "É preciso de uma escola que dialogue mais com o jovem", afirmou Lucchesi em entrevista ao Estado.

Na avaliação dele, o Brasil deveria se voltar para o ensino profissionalizante como forma de garantir um crescimento econômico mais robusto nos próximos anos. "No longo prazo, o desenvolvimento vai ocorrer em função da produtividade, que tem um forte vínculo com a qualidade do trabalho." A seguir, os principais trechos da entrevista.

Como o sr. avalia o modelo educacional e mercado de trabalho?

Nós temos de repensar a escola brasileira na direção de uma competitividade melhor. O Brasil precisa ter uma agenda voltada para o desenvolvimento. No longo prazo, o desenvolvimento vai ser função da produtividade, que tem um forte vínculo com a qualidade do trabalho.

Qual é a produtividade brasileira em relação aos demais países?

A produtividade no Brasil é um terço da do trabalhador sul-coreano e um quarto em relação à do alemão. Se comparar com os EUA, o Brasil precisa de cinco trabalhadores para a mesma produtividade de um profissional norte-americano.

Quais as causas que impactam nosso sistema educacional?

São duas. A primeira é a questão da qualidade do ensino. Até existem melhorias no período recente, mas o problema é que o nosso ponto de partida, de mais atenção da sociedade com relação ao sistema educacional, é muito baixo. Temos um segundo grande problema, que é o da matriz educacional. No Brasil, dos jovens de 15 a 19 anos, somente 6,6% fazem a educação profissional com a educação regular. A média dos países desenvolvidos - que são membros da OCDE - é em torno de 50%. Então, de fato, temos uma enorme desvantagem. E aí, o que aparece é a questão fundamental: temos de repensar o modelo educacional à luz da necessidade de maior competitividade da economia brasileira, e também para dialogar mais com os jovens, para que a escola permita uma melhor inserção no mundo do trabalho.

Qual a consequência disso?

O sistema educacional cria um modelo academicista como se todo mundo fosse para a universidade. Isso é muito ruim. Se a gente for olhar no Brasil, menos de 20% dos jovens vão para a universidade. No entanto, o sistema educacional brasileiro - nos nove anos do Ensino Fundamental e nos três do Ensino Médio - não tem nem uma hora sequer de educação profissional.

Por que o Brasil deixou de canalizar esforços para o ensino profissionalizante?

É uma questão cultural. O sistema educacional brasileiro nunca priorizou a educação profissional porque se estabeleceu uma visão preconceituosa e excludente. Existe um problema adicional: o Brasil está passando por uma mudança demográfica muito grande. Está acontecendo no Brasil em 25 anos algo que demorou 125 anos na Europa Ocidental e na América do Norte.

Qual o impacto dessa mudança demográfica?

Vamos ter cada vez menos jovens na economia do País. Parte do ganho da produtividade da economia ocorre em função dos novos jovens que ingressam no mercado de trabalho. E isso será mais escasso. Ou seja, é cada vez mais importante que nós repensemos os nossos sistema educacional até porque vamos ter uma oferta cada vez menor dos jovens e aí é importante prepará-los bem e harmonizar melhor o nosso mercado de trabalho, como acontece nos países desenvolvidos. Aliás, a própria história dos países desenvolvidos, demonstra que não há uma oposição entre educação profissional e educação superior. Isso é verdade porque a média de jovens que cursam a universidade é duas vezes e meia ou três vezes a média brasileira de jovens que estão no Ensino Superior. Não há uma oposição entre uma coisa e outra.

E como qualificar o trabalhador que já está no mercado de trabalho?

Uma das agendas importantes que nós vamos ter é de requalificar e recapacitar jovens e adultos brasileiros seja na educação básica, porque há uma deficiência grande na formação, seja na educação profissional. E a melhor fora de se fazer isso é no contexto. Então, por exemplo, se a pessoa é marceneiro, é melhor ela aprender com base no ofício dela. A descontextualização é muito ruim.

Qual o tempo necessário para o Brasil se tornar mais produtivo?

É uma junção de gargalos o que determina o nosso crescimento lento. Mas a questão da educação, sobretudo a regular, sempre estabelece mudanças geracionais. A educação profissional é mais rápida. Ela apresenta rápidos resultados, o que permite termos maiores ambições nessa agenda.

Do lado das empresas, qual é o benefício de ter mais trabalhador no mercado com uma boa qualificação?

A economia vai ter uma disponibilidade maior (de trabalhadores qualificados). Vamos superar aqui o que a imprensa chama "de apagão da mão de obra". Com mais trabalhadores qualificados, vamos ter ganhos com relação a isso. Vamos ter uma maior prontidão para os ciclos de expansão da economia. Além disso, seria possível criar mais oportunidades nas regiões emergentes dentro do País, na medida em que você não cria restrição de formação de obra.

Qual é impacto da pouca qualificação no nosso baixo crescimento econômico?

Eu não saberia quantificar um porcentual. Mas basta dizer que grande parte das empresas brasileira se queixa da baixa produtividade no trabalho e isso está associado seguramente ao nosso baixo nível de educação básica, o que acaba tendo correlação com as informações dos próprios resultados dos testes educacionais. No Brasil, aproximadamente, 90% dos jovens que terminaram o terceiro ano não aprenderam o conteúdo adequado de matemática, e 70% não sabem o conteúdo adequado de português. Tudo isso vai acabar implicando em ineficiência e baixa produtividade na economia.

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