Joédson Alves/EFE
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Temos tranquilidade para ofertar mais de R$ 70 bilhões em crédito, diz presidente da Caixa

Em entrevista, Guimarães explicou que, desse total, R$ 40 bi são para irrigar capital de giro e R$ 30 bi são para a compra de carteiras de crédito de consignado e automóveis de bancos menores

Entrevista com

Pedro Guimarães, presidente da Caixa Econômica Federal

Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

12 de março de 2020 | 19h41

BRASÍLIA - O presidente da Caixa Econômica Federal, Pedro Guimarães, informou que o banco público tem condições de ofertar mais R$ 70 bilhões em crédito para atender a demanda das empresas nesse momento de crise na economia. 

Em entrevista ao Estado, Guimarães explicou que, desse total, R$ 40 bilhões são para irrigar capital de giro e R$ 30 bilhões são para a compra de carteiras de crédito de consignado e automóveis de bancos menores.

Guimarães destacou que a instituição tem "bastante caixa e posição de balanço sólida" e que está preparada para "aumentar com tranquilidade" a carteira de crédito "sem nenhum tipo de problema".

Veja trechos da entrevista:

Como a Caixa pode ajudar na oferta de crédito?

Na oferta de capital de giro, que é uma preocupação por conta da interrupção da produção da China por dois meses, pode ter um problema numa cadeia da indústria porque que não recebeu o material e aí tem uma espiral. Isso é uma questão importante que eu sei que está acontecendo. Como o nosso foco é micro, pequenas e médias empresas e, na parte imobiliário e de infraestrutura, mesmo nas grandes, é importante destacar que nós não faremos para qualquer empresa. Para as empresas menores, não teremos escolha de segmentos, será o que for. O foco é amplo. Para as empresas maiores, o foco é nos segmentos que conhecemos profundamente, em especial, habitação, saneamento. Onde já conhece, tem limite de crédito aprovado, garantia de contrapartida. São operações muito seguras para a Caixa.

Quais são outras frentes de ação?

No total, temos tranquilidade para ofertar mais de R$ 70 bilhões. Já estamos abertos para comprar carteira de outros bancos, obviamente os menores, em especial de consignado, que gostamos muito, e a parte de automóveis. São duas carteiras que a gente compra muito. Elas têm uma garantia real. Estamos muito tranquilos. Temos R$ 30 bilhões para comprar essas carteiras. E para capital de giro temos R$ 40 bilhões. São recursos já separados e preparados.

Qual a situação da Caixa nesse momento?

Nós não temos problema de atender Basileia ( acordo internacional que visa garantir a solidez do sistema financeiro). Ela é superior a 19% ( mostra quanto de capital o banco deve ter em relação aos recursos emprestados) . É a maior dos bancos. Ou seja, nossa base de capital é ampla e podemos aumentar com tranquilidade nossa carteira de crédito sem nenhum tipo de problema. E, além disso somos o banco mais líquido do Brasil. Isso significa que temos muitos ativos em títulos públicos federais. Nós não temos problema de realizar esses empréstimos. Tanto que nossa carteira tem R$ 700 bilhões. Se emprestarmos mais R$ 70 bilhões, estamos aumentando 10% a nossa carteira. Lembrando, inclusive, que temos foco no consignado, habitação, infraestrutura e microcrédito. Isso que nós estamos fazendo vai em linha com o que nós já queríamos fazer. A única diferença é que isso pode ser, se precisar, uma fonte de liquidez para os bancos menores.

Os bancos menores já estão com problemas de liquidez? Está tendo pedido?

Não, zero. Mas não estamos falando de hoje. Mas o que estamos falando é: queremos porque essa é uma linha de crescimento nossa. Estamos nos antecipando. Ninguém me ligou. Quero frisar. Com a bolsa caindo 17%, é porque estamos num cenário muito ruim. Se daqui a três meses tiver qualquer problema, a gente compra. Eu reforço. Quanto a Caixa perdeu até agora com coronavírus? Zero. E como não temos operações de trade finance ( que financiam o comércio internacional entre exportadores e importadores), não vemos uma perda relevante. Estamos muito tranquilos e preparados. Se tivermos alguma perda, entendemos que será muito pequena. A China parar a produção dela interfere na nossa cadeia produtiva. Se tiver impacto no PIB, as pessoas vão quebrar menos. Hoje não temos esse impacto. Mas em algum momento alguma empresa vai ter algum tipo de dificuldade de capital de giro. Estamos preparados para atender.

Não vai faltar?

Não vai faltar, mas dentro do nosso foco.

Qual a importância, em um momento de crise, de disponibilizar linhas para garantir o canal de crédito?

É um momento importante. É uma oferta. Não se sabe qual o impacto do coronavírus. Quanto tempo vai durar. Por isso, que está essa situação de pânico derivada, porque não se sabe o que vai acontecer. Quando há uma onda dessa que é mundial, não adianta. Não está acontecendo só no Brasil. Até a hora que o mundo inteiro conseguir entender e acalmar terá nervosismo. O que está acontecendo agora é daquelas poucas vezes na história que todo mundo está sofrendo ao mesmo tempo. É crise de confiança que não é econômica. É uma pandemia. Ninguém sabe o que vai acontecer de fato.

Na crise de 2008-2009, os bancos médios precisaram vender as carteiras...

Eu lembro que os bancos médios tiveram dificuldade. Agora, estamos nos antecipando. Carteiras de consignado e de automóveis. Nós gostamos e já fazemos. São compras que nós conhecemos e precificamos corretamente. Se for uma crise de dois meses, não vai precisar. E se for de um ano? Essa é a pergunta que eu vejo no mercado. Estamos falando de dois meses ou de um ano?

A crise já mudou a estratégia do banco que teve que adiar o IPO da empresa de seguridade?

Mas isso é operacional. Estamos indo muito bem. Do ponto de vista operacional, muda zero. Veja só: nós vendemos R$ 8,5 bilhões de ações da Petrobrás a R$ 30,25. A ação agora está a R$ 12,72. Economizamos para a Caixa R$ 5 bilhões. Todas as operações que realizamos foram muito bem feitas. No caso do IP0 da Caixa Seguridade, na hora que o mercado voltar, nós iremos. Isso tem um lado positivo, está dando tempo para que as mudanças que estamos implementando fiquem maduras. Hoje, anunciamos uma primeira operação de cartão, que foi com a Visa. Muito importante. Não posso dizer os valores numéricos. Mas as coisas estão acontecendo. Hoje, foi um dia importante, porque está avançando a discussão da própria abertura de capital da Caixa Cartões. Pode atrasar três meses, seis meses. Mas o processo continua. Continuamos com a discussão interna de fazer os fundos imobiliários. É preciso focar no cenário de estresse a sua gestão de risco. Isso reforça a qualidade do balanço da Caixa. Nós reduzimos, no ano passado, uns R$ 40 bilhões de empresas maiores. O ministro Paulo Guedes tem reforçado a importância dos bancos públicos poderem oferecer crédito abundante nesse momento. Como nós desalavancamos e vendemos ativos muito bem, ganhamos dinheiro que capitalizou mais o banco, reduziu o risco. Vendemos uma posição de NTN-B (títulos do Tesouro) no melhor momento. O fato de termos bastante caixa e posição de balanço sólida, podemos oferecer esse crédito de R$ 70 bilhões.

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