Tempestade adiante?

Poucas vezes, o segundo semestre começou com tantas dúvidas e nenhuma certeza

Fábio Alves, O Estado de S.Paulo

04 Julho 2018 | 04h00

Se o primeiro semestre deste ano foi marcado por grande volatilidade, com o dólar se valorizando ante as principais moedas internacionais, a cotação do petróleo disparando, tensões geopolíticas se agravando e, no Brasil, a economia voltando a perder fôlego, a segunda metade de 2018 já começa sob forte pressão.

No Brasil, de que maneira 2018 vai terminar dependerá praticamente de um único fator: quem sairá vencedor da eleição presidencial. Se o próximo presidente eleito for um candidato a favor de reformas estruturais, como a da Previdência, a confiança de investidores, empresários e consumidores poderá voltar, melhorando a perspectiva econômica do País em 2019.

Mas se o vencedor da eleição presidencial não demonstrar disposição para aprovar reformas e conter os gastos públicos ou, pior, adotar uma política econômica baseada no populismo e intervencionismo, o risco é de uma debandada dos investidores do Brasil para um refúgio mais seguro ao seu capital. Nesse cenário, os analistas do Bank of America Merill Lynch, por exemplo, dizem que o dólar poderá disparar para R$ 5,50 no ano que vem e o Produto Interno Bruto (PIB) poderá voltar a registrar queda.

Ao contrário do Brasil, onde o desfecho de 2018 dependerá de um cenário praticamente binário, o ambiente internacional apresenta riscos variados, muitos dos quais com potencial para abalar os preços dos ativos globais.

O que mais preocupa os investidores é a escalada da tensão comercial entre os Estados Unidos e os seus principais parceiros, em particular a China e a União Europeia. O temor é de que a imposição de tarifas de importações sobre os produtos pelos americanos, gerando retaliações de seus parceiros, descambe para uma guerra comercial total.

Por enquanto, o valor das tarifas é pequeno. Os Estados Unidos e a China já anunciaram quantias de US$ 34 bilhões (cada lado) em tarifas que devem entrar em vigor nesta sexta-feira. Mas os dois países endureceram a retórica e prometem novas imposições de taxas sobre produtos de ambos os lados.

Em relação à União Europeia, os americanos taxaram as importações de aço e alumínio. Os europeus retaliaram com tarifas equivalentes a € 2,8 bilhões. Enfurecido, o presidente Donald Trump ameaçou tarifar as importações de veículos da União Europeia, que, por sua vez, ameaçou impor taxas sobre US$ 300 bilhões em produtos americanos em nova retaliação.

Nos cálculos dos economistas do banco JP Morgan, a ameaça de Trump de taxar os produtos da China sobre um valor total que poderá chegar a mais de US$ 500 bilhões e também sobre a importação global de veículos representaria um aumento de tarifas sobre um terço do total das importações dos Estados Unidos, empurrando a alíquota média efetiva em mais de 5 pontos porcentuais. Esse seria o maior nível de tarifas de importação praticado pelos americanos desde a década de 70.

Se os parceiros dos americanos retaliarem na mesma proporção, isso poderia resultar em um choque de oferta à economia mundial que levaria a um aumento da inflação e a uma redução do crescimento econômico.

A tensão comercial já afeta a confiança de empresários e investidores, o que, por sua vez, pode ter um impacto negativo sobre a atividade econômica. A zona do euro, por exemplo, vem registrando uma rápida desaceleração. Além da tensão comercial com os EUA, crises políticas em vários países, em particular a Itália e a Alemanha, também deixaram o horizonte mais turbulento.

Nesta terça-feira, 03, o presidente do Conselho Europeu (braço executivo da UE), Donald Tusk, alertou que o bloco tem de se preparar para “situações de pior cenário possível” no comércio.

Mas a maior ansiedade é com a China. Por enquanto, os analistas estão mantendo a projeção de um crescimento de 6,5% do PIB neste ano, em linha com a meta fixada pelo governo chinês. Mas o risco é claramente de o desempenho da segunda maior economia do planeta decepcionar e ficar abaixo dessa meta, o que pode afetar países exportadores de matérias-primas, como o Brasil.

Sem falar que os investidores ainda estão defasados em precificar todas as elevações de juros projetadas pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano) até 2020. Essa precificação pode alterar o cenário para o dólar.

Poucas vezes, o segundo semestre começou com tantas dúvidas e quase nenhuma certeza. 

É COLUNISTA DO BROADCAST 

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