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Tempestade perfeita na economia

É provável que o País não consiga nem crescer no seu ritmo potencial daqui para a frente, inclusive em 2022

Claudio Adilson Gonçalez*, O Estado de S.Paulo

06 de setembro de 2021 | 05h00

A combinação de uma pandemia devastadora, de uma crise hídrica tão ou mais grave do que a de 2001 e de um governo desastroso, inclusive na área econômica, caracteriza a tempestade perfeita que se abate sobre a economia brasileira atualmente. Vejamos alguns dados.

A relação investimento/PIB, a preços correntes, foi de 18% no 2.º trimestre de 2021. Era de 21% em 2014. Esse nível não é sequer suficiente para cobrir a depreciação. Ou seja, a taxa de crescimento do estoque líquido de capital fixo (máquinas, equipamentos e construções), uma das determinantes do crescimento econômico, é praticamente nula desde o início de 2019.

Dado que a população em idade ativa cresce aproximadamente 0,4% ao ano e a produtividade dos fatores de produção (PTF) vem se expandindo, em média, a modesto 1% ao ano, o crescimento potencial brasileiro é inferior a 2% ao ano. Nesse ritmo, nem em 50 anos o Brasil ingressará no grupo dos países de alta renda.

Chama a atenção a estagnação do consumo das famílias nos últimos dois trimestres, como resultado da enorme taxa de desemprego, do alto nível de comprometimento da renda disponível com o pagamento de dívidas e da perda de poder de compra em virtude da aceleração inflacionária. Apesar da tão decantada recuperação em V da economia, iniciada no 3.º trimestre do ano passado, o consumo privado ainda está 3% abaixo do observado no final de 2019.

Na verdade, a queda do consumo das famílias já é um fenômeno mais antigo, com aspectos estruturais, que se agravou no atual governo. No 2.º trimestre de 2021, estava 4,5% abaixo do nível alcançado no final de 2014. Se tomada em termos per capita, essa redução foi de quase 10%. Isso é preocupante, porque a capacidade de consumir é um dos principais indicadores do bem-estar material de uma sociedade.

Estamos falando da sobreposição de dois conjuntos de problemas. O primeiro é estrutural, expresso no baixo nível de crescimento potencial, em virtude da tibieza do investimento e da produtividade. O segundo é de natureza conjuntural, ou seja, apesar de ainda dispor de considerável capacidade ociosa, o País, provavelmente, nem sequer conseguirá crescer no seu ritmo potencial daqui para a frente, inclusive em 2022.

O ministro Paulo Guedes pode continuar comemorando a recuperação em V, como fez na semana passada, mas a situação atual da economia brasileira é de estagflação, ou seja, a convivência de inflação elevada com ausência ou queda de crescimento.

Durante muito tempo, a teoria econômica não admitia a existência desse fenômeno, dado que a crença era no domínio da Curva de Phillips original, que estabelece uma relação inversa entre as taxas de desemprego e de inflação. Se o desemprego fosse alto, a inflação seria baixa, e vice-versa. No entanto, a realidade mostrou, principalmente nas duas crises do petróleo dos anos 70, que erros de política econômica, em conjunto com choques adversos, poderiam levar a essa perversa situação.

Atualmente, esses dois ingredientes da estagflação estão presentes no Brasil. A crise sanitária da covid-19 foi agravada pela insensatez do presidente, com atitudes negacionistas e desastrosas interferências na política de saúde. Da mesma forma, a obsessão de Bolsonaro pela reeleição tem impedido o governo de adotar medidas impopulares, mas inevitáveis, para lidar tempestivamente com a crise hídrica.

A política econômica, por sua vez, além de não ter caminhado na direção de solucionar os problemas estruturais que inibem o crescimento da economia, tem sido uma fábrica de incertezas, principalmente na área fiscal. Basta lembrar aqui as trapalhadas no Orçamento de 2021, que ameaçam se repetir no de 2022, e a confusa reforma do Imposto de Renda que, se aprovada no Senado, poderá causar expressiva queda na arrecadação.

Falta alguma coisa para a tempestade perfeita?

*ECONOMISTA, DIRETOR-PRESIDENTE DA MCM CONSULTORES, FOI CONSULTOR DO BANCO MUNDIAL, SUBSECRETÁRIO DO TESOURO NACIONAL E CHEFE DA ASSESSORIA ECONÔMICA DO MINISTÉRIO DA FAZENDA

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